Citado sob permissão, incluindo material não-publicado de Darkdream, Timothy (1974-1994).
“Sinto as batidas incessantes do passado cada vez mais fortes ruírem as palafitas do futuro. Luzes negras iluminam meus passos. Não ouço os gritos de dor dos caídos.”
T. Darkdream
Conheci Timothy na época em que eu freqüentava o Sandman. Aquela época doce de poesia, amor e esperança. Quando Sodoma ainda não se chamava Sodoma. Antes do Sol fugir assustado e o céu tornar-se cinzento ou negro.
Éramos um pequeno grupo de poetas em ascensão, escrevendo estrofes nos guardanapos manchados de café enquanto o álcool e o odor de incensos de sândalo transitavam livremente por nossas sinapses. Éramos jovens. Éramos bruxos. E felizes. Timothy, Franz, Helen, Eugene, Raymond e eu. Juntos pesávamos quase meia tonelada (Helen era um tanto quanto “gordinha”) bem distribuída em fantasias, ideais, sorrisos e nicotina. O “Círculo Interno”.
Mas o vento já soprava frio e, em uma noite na qual ele soprou mais frio, nós acabamos nos separando. Saí da cidade pouco antes de Helen se casar com um publicitário falido chamado Irwin Barforth. Nunca mais a vi, mas os sonhos me disseram que o casamento não estava dando muito certo. Os pensamentos de Helen sempre voaram alto demais. Eugene desapareceu da face do planeta. Timothy me dizia coisas esquisitas sobre o paradeiro de Eugene (suavidade beatnik degolada entre ferragens de motocicleta e óleo no asfalto…), algo sobre a cidade ter absorvido ele e sobre o lado negro das esquinas. Franz jamais respondeu qualquer uma de minhas cartas, seu orgulho ferido, preferindo o caminho fácil da autoflagelação como forma de cicatrizar a dor de nossa separação. Franz que, em uma noite de ócio, batizou nosso grupo de “Círculo Interno”, dava uma importância exagerada ao sentimento de perda e ficava inquieto quando a felicidade batia à sua porta. Eu o amei. Agora? Não sei.
Quanto a Raymond, encontrei-o quando voltei à cidade e ao Sandman. Ele me entregou os últimos escritos de Timothy e me contou.
Darkdream estava morto. Havia quase um ano.
Querida Francine:
Você. Sinto falta de suas piadas, Francine-querida. A vida em Sodoma está cada dia mais insuportável. Parei de ir ao Sandman. Preciso manter minha mente longe de aventuras para tentar entender o que está acontecendo comigo. Sonho todas as noites que Sodoma está tentando conversar, me falar sobre seus filhos. A voz da cidade é amarga e minhas poesias estão ganhando vida.
Estou assustado.
Beijos,
Tim.
Timothy sempre se referia à cidade como Sodoma. A chaga de concreto, dizia ele. Um antro sórdido de paixões humanas coaguladas e violências aleatórias. Eu também não gostava do odor urbano, mas ele desenvolvia uma relação amor/ódio, que acabaria consumindo-o.
Raymond me entregou tudo que Tim havia deixado com ele. Vários papéis avulsos, um bilhete e duas fitas cassetes, tudo guardado dentro de uma caixa de sapatos, lacrada com fita crepe e com uma etiqueta por cima, onde se lia meu nome escrito com crayon. Era a letra dele. Ray me disse que aquilo tudo estava pesando em suas mãos e que já tinha tentado enviar pelo correio, mas o pacote voltara com o carimbo de “destinatário não encontrado”. Ele ainda disse que Tim era um louco e que eu era mais louca ainda por ter voltado. Foi a última vez que Ray e eu conversamos e não lhe perguntei sobre Franz e os outros.
Ele estava errado. Timothy Darkdream não era um lunático. A cidade é que era insana. Sodoma era pura insanidade transbordando para fora de um alambique infernal. Confirmei isso escutando as gravações de Tim.
Tim: Como vocês se chamam?
Desconhecido: Eu sou o Mickey Mouse e esta é minha amiga, a Minnie. Diga olá para o Tim, Minnie!
Tim: Escute aqui! Eu sei que você é conhecido como o Número Dois, portanto não me venha com piadas sem graça!
Desconhecido: Não fique tenso, poeta. Estamos te ouvindo. O que você quer saber?
Tim: Tudo. Detalhes sobre Sodoma, os outros como você, o porquê das coisas.
Desconhecido: Desligue esse gravador e eu te conto tudo.
O trecho terminava com um inconfundível som de gargalhadas. Déja vu. Era ele. O mesmo homem misterioso que se interpusera em meu caminho duas vezes antes. Sua voz deflagrava um medo irracional em meu cérebro. Número Dois. Timothy já havia se referido aos numerados antes em suas cartas, mas eu não imaginava que seu contato com eles fosse tão pessoal. Eles não apareciam em sonhos. Assim como o suicídio de Tim.
Havia recortes de jornais em seus papéis. Mal recortados, mal colados, como se tivessem sido colecionados às pressas. Alguns eram bem antigos, outros mais recentes. O tema era o mesmo: tragédias.
Assassinato em massa na cantina da Universidade.
O Açougueiro da Zona Norte faz décima-primeira vítima.
Explosão na linha férrea mata quarenta.
Estuprador linchado pela multidão.
Policial abre fogo contra ônibus lotado.
Francine:
Eles existem, Francine-querida. Os condenados. Criaturas das sombras amaldiçoadas a presenciar toda a violência e sofrimento que Sodoma proporciona. Imortais, negros, poéticos. Eugene é um deles agora. Encontrei-o no Sandman e ele me apresentou a uns amigos. Eles não usam nomes, apenas números. Sugeri umas entrevistas e eles concordaram.
Não sei quando poderei voltar a te escrever, Francine-querida, mas eu estava certo. Sodoma possui filhos que observam a face negra do coração urbano. Isso está além dos nossos sonhos mais sublimes.
Começo a compreender.
Beijos,
Tim.
Quando Timothy parou de escrever e Franz continuava sem mandar respostas, acreditei que talvez as coisas tivessem melhorado para ambos e que poderiam melhorar para mim também. Ao invés disso, penetrei em uma espiral de desilusões amorosas e antidepressivos. Errei em todas as minhas previsões, ignorando que eles não eram diferentes de mim, e deixei para trás uma faculdade inacabada. Retornei para Sodoma, procurando por um último gole de paz no fundo da garrafa. Encontrei fantasmas.
Tim: Como você se chama?
Desconhecida: Número Quatro.
Tim: Faz quanto tempo desde que você começou a vagar por Sodoma atrás das sombras?
Número Quatro: Uns trinta anos. Talvez mais.
Tim: O que te transformou em uma testemunha do caos?
Número Quatro: Não me lembro.
Tim: O que eu faço para ser como vocês?
Número Quatro: Não há nada que você possa fazer. Sodoma já tomou todas as providências em relação ao seu destino. Você nunca será como nós. Sorte sua.
(pausa)
Número Quatro: Você pode nos achar o auge de sua estética gótica de sombras na calçada, uma resposta para seu desejo de congelar a própria juventude, ou um poderoso receptáculo de Magia urbana, mas nunca nos compreenderá. Somos nômades. Proscritos sem descanso, amor ou alegria. Depois da primeira década enfiado nessa merda, você ia querer o abraço tépido da morte. Só que ele nunca vem quando se chama. Ouça meu conselho: pare de desejar a escuridão e a solidão, volte para seus amigos e para suas poesias.
A outra fita era de uma banda de rock local chamada Distortion. A música era impulsiva, veloz, dura. Insana. O som que Timothy estava escutando em seus últimos dias. Mas ainda havia outras incógnitas a serem desvendadas. Voltei ao Sandman.
O bar estava vazio àquela hora do dia. Ainda bem, pois o Sandman não era mais freqüentado por poetas como no meu tempo (há quanto tempo? Um ano e meio? Dois? Não há rugas para contar a passagem do tempo e eu preciso confiar no calendário). Administradores de empresas, médicos, economistas, psicólogos e professoras de Literatura divorciadas formavam a nova freguesia. Pedi uma cerveja e esperei.
Perdoe-me, Francine. Parto agora, desprezado pelos malditos, abandonado pela minha própria poesia e sentindo a sua falta. Sentindo a falta de todos. Por favor, cuide de Franz, ele precisa de você.
Tentei alcançá-los, beber da fonte suprema da realidade urbana e depois espalhar meus versos como pétalas ao vento. Falhei… minha viagem ao submundo do cotidiano foi curta. Não quero acordar. Tenho certeza que, quando partir, haverá um dos condenados me observando.
Tim.
Esperei e esperei. Ninguém apareceu. Timothy dizia que eles freqüentavam o Sandman de madrugada, mas eu esperei até o bar fechar (debaixo do olhar curioso de Raymond que, no entanto, preferiu não me dirigir a palavra; éramos estranhos, ainda que ele me devesse a vida).
Necessitava de algumas respostas, mas, com o passar das horas, as perguntas iam todas perdendo a voz. Já não importavam mais os motivos, os números ou as estrofes. Apenas o silêncio.
Tim está morto e nem toda a magia do mundo pode trazê-lo de volta.
Chorei sozinha no quarto de hotel, ouvindo Distortion no volume máximo do walkman. Faltava um dia para o Natal; encontrei Franz no dia seguinte e o abracei. Eu precisava dele. Eu o amo, afinal.

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