Outubro de 1990,
“Campo de Batalha
As bombas caem ao meu redor enquanto meus companheiros tombam mortos, vitimados por uma guerra estúpida num país distante.
Numa trincheira fétida eu contemplo o terror. Os cadáveres olham para mim, suplicantes e mudos. Eu nada respondo. Os mísseis assobiam e as explosões não me deixam dormir. Aqui não há paz, os pássaros não cantam e as flores são escarlates.
Escrevo esta carta para você sabendo que talvez nunca chegue. Eu sou o último sobrevivente do pelotão e o inimigo se aproxima. Já ouço seus passos implacáveis, marchando em minha direção. Mas não importa. A guerra já perdeu seu sentido e nada mais importa.
No começo, tudo parecia belo e cívico. Alistar-se nas Forças Expedicionárias, combater o inimigo da paz e da ordem (que ironia tola! Os inimigos da paz e da ordem não são eles, somos nós mesmos!), servir ao meu país. Era a glória ser um soldado das Forças. Quão tolo eu fui. Largar você e a felicidade que tínhamos juntos por causa de meu orgulho.
Aqui cheira mal. Há pólvora e carne queimada no ar. Tão diferente de seu perfume. A essência de lavanda que eu tanto gostava. O perfume da manhã, do Sol secando o orvalho das plantas, das flores desabrochando. Aqui nunca amanhece, nunca. A vida é um eterno tempo nublado, daqueles que você tem vontade de permanecer nos lençóis perfumados da cama macia. Não há o poente.
Não existe aquele poente que costumávamos ver debaixo do velho pinheiro. Não existem as cores, apenas o cinza pálido dos uniformes e o vermelho-rubro do sangue. Às vezes, tirava sua foto do bolso e passava horas a admirar seu rosto, que me parecia cada vez mais radiante e belo. Mas, um dia, ela caiu na lama, no furor da batalha, e se perdeu. Procurei, porém nunca achei.
Perdi minha âncora com a realidade. Agora, nada mais importa. Se houvesse aqui estrelas de noite, eu poderia imaginar sua face risonha entre elas, mas o céu está eternamente coberto.
A morte é minha atual companheira. Um a um eu vi meus amigos de infância morrerem, ceifados como trigo ao Sol. Encontro-me terrivelmente só, ouvindo os passos cada vez mais próximos. Mais próximos.
A solidão é o pior. Não há com quem conversar, com quem se expor. Todos os rostos são iguais, igualmente fechados e calados, calejados pelo sofrimento.
Entre bombas e mortes eu luto para manter a sanidade, eternamente pensando em você.
Sua lembrança me dá forças de continuar em frente e sobreviver. Eu preciso viver para vê-la de novo, pelo menos uma vez mais.
Ao escrever o ponto final, eu atacarei sozinho o pelotão inimigo que se aproxima. São muitos. Talvez eu morra. Talvez não. Mas não importa.
Quero que saiba apenas que eu te amo.
De um soldado que provavelmente já está morto
Para alguém que está muito, muito distante.”
Escrevi esse pequeno conto sombrio para Lim, depois de muita insistência, durante uma aula de Biologia. Pretendia, através do sofrimento do meu pequeno e apaixonado soldado, faze-la acreditar que eu realmente a amava. Não tive sucesso.
Hoje, o original de “Campo de Batalha” jaz esquecido dentro de uma caixa de sapatos no fundo do armário entre papéis de carta coloridos, borrachas cheirosas, fotos de Tom Cruise e Val Kilmer recortadas de revistas especializadas em devaneios de menina.
Meu maior horror é compreender que, anos depois, estou escrevendo uma versão mais extensa da mesma história. Para Francine. Para Timothy. Tenho que evitar o ponto final até saber o que vai acontecer.

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