“Pois agora lá fora / O mundo todo é uma ilha / A milhas e milhas de qualquer lugar”.
(Engenheiros do Hawaii)
Show de rock. A última apresentação do Distortion. Amanhã, a banda não existirá mais, cada integrante tomando um rumo totalmente diferente. Há algo de profético na atmosfera saturada deste clubinho lotado.
As pessoas se espremem aqui, suadas, algumas choram. Vestimos negro e gritamos cada letra, movimentando nossos corpos através do fluido viscoso e cáustico do som que emana das guitarras e, assim, afogamos todas as nossas dúvidas neste caldo abençoado. A ressonância nos esmaga, mas eu experimento a sensação de que seria possível permanecer aqui pelo resto da minha vida. E foda-se tudo mais.
Avisto Eugene perto do palco, ele está usando óculos escuros e parece estar sendo absorvido pela música que desce em sua cabeça. Não o vejo se mover. Há uma clareira ao seu redor, um perímetro que ninguém invade. E me pergunto que estranhos encantamentos teriam atraído o bruxo-mor de nosso pequeno e extinto Círculo Interno e se alguma daquelas estranhas criaturas que Tim e Ray afirmam ter visto estaria por aí misturada à multidão, acompanhando-o. Mas a banda engata uma cover de “Ribbons”, dos Sisters of Mercy, e eu me esqueço de Eugene.
A garota que estava do meu lado começa a chorar convulsivamente e grita tão alto que eu consigo escutar: “onde eles estão?! Onde eles estão?!”. Ninguém mais escuta o que ela diz e eu tenho vontade de mandá-la se calar, antes que eu desmorone e também comece a gritar (talvez até mais alto). Mas ela não pára e eu não faço nada (apenas canto: “flowers on the razor wire”), ninguém percebe, ninguém mais se importa. Eugene está olhando para nós por detrás de algo que me lembra do Ray Ban que lhe dei, de costas para o palco e refulgindo debaixo de um spot vermelho-sangue (“tié a redredredred ribbon, don’t be afraid”). Eu paro de suar e tento concentrar minha mente no sorriso de Francine ou nos olhos de Melanie, sei lá, qualquer coisa que afaste de mim esta impressão ruim de que algo está subindo pela minha espinha a cada grito da garota anônima, a cada martelada da bateria, a cada passo que Eugene dá em minha direção.
Atrás de Eugene, vejo todas as nossas reuniões no Sandman, todo o prazer obtido naquelas madrugadas sendo sumariamente transformado em bile, feitiçaria e transtorno. Ele me fez recordar brigas que eu preferia ter perdido. Ele me traz Thomas de volta à memória. Ele me traz Timothy de volta. Descubro que o Distortion me assusta, mas que amanhã irei chorar pelo seu fim. Queria ter poder em minhas mãos para puxar essa garota que grita ao meu lado e tirar nós dois daqui e lhe mostrar a pilha de texto que escrevi até o momento e lhe perguntar se está bom ou ruim.
Termina “Ribbons”. Começa “Sodoma”. A garota olha para mim pela primeira vez e tenta me reconhecer. Ela é tão nova e seu rosto despido de qualquer máscara me insinua um espelho: além do meu próprio reflexo, eu vislumbro o rosto de todos os outros, escondidos em cada poro da pele dela e compreendo a sua pergunta. Aproximo-me dela para que ela possa me escutar e lhe respondo: “eles se foram, a festa acabou”. Ela pára de chorar, abaixa a cabeça por um instante e então sacode seus cabelos negros e urra o refrão. Eu acompanho um pouco e depois vou embora antes da música terminar.
“Sodoma! Sodoma is killing us! Welcome to the Abyss, where the name of cancer is Lie”.
Rodo pela cidade até a hora das aulas. Vejo o Sol nascendo por cima do prédio da Reitoria e bato algumas fotos só para gastar o filme. Aguardo mais um pouco e entro na secretaria da Escola de Psicologia e peço trancamento de matrícula e a funcionária, olhando no fundo das minhas olheiras, pergunta se está tudo bem e é claro que não e ela preenche o pedido e avisa que receberei a confirmação em cinco dias e eu não sei se tenho cinco dias. Volto para casa, ligo a televisão na MTV e durmo ao som de “Bikini Girls with Machine Guns”.

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