Zero-26

Timothy havia vencido as resistências psíquicas de Thomas, ou porque este estava cansado demais para continuar resistindo e não tinha nada a perder, ou porque os talentos daquele na Antiga Arte estavam começando a suplantar os poderes de Eugene. De um jeito ou de outro, o ar do quarto, que estava tenso como uma corda de violino preste a arrebentar, relaxou e eu pude encher os pulmões sem suar. Ouvi Tim dizer que tinha conseguido a conexão, mas não sabia o que fazer dali em diante e precisava da orientação de Eugene.

A voz de Eugene continha espanto na primeira palavra, para retornar ao controle logo na segunda e mandar, mais do que pedir, que Tim se afastasse porque ele prosseguiria a partir daquele ponto. Timothy não tolerava ordens de quem quer que fosse, mas, refletindo sobre o que estava na balança, preferiu obedecer.

Nessa hora eu cochilei. Um minuto, uma hora, não posso dizer. Não é algo de que me lembre porque meu relógio apagou e o que aconteceu, o que estava acontecendo depois que eu acordei, foi a lembrança mais forte daquela noite, uma inscrição cinzelada eternamente em meu crânio, uma escultura de horror que, às vezes, ressurge ao meu lado na cama em noites geladas e me faz acordar gritando (“o que houve, Franz?”, perguntou Judith e eu lhe contei).

A corrente elétrica estava enlouquecida e as luzes apagavam e acendiam intermitentemente, indo da total escuridão ao flamejante brilho de lâmpadas antes de romper o filamento, enquanto as chamas das velas subiam e desciam, dançando no oxigênio do aposento, e as brasas dos incensos lançavam faíscas perigosas em direção ao carpete. Virei-me para defrontar o rosto de Eugene surgindo e sumindo na penumbra e não conseguia distinguir se as manchas em sua face eram os símbolos rúnicos que derretiam ou sarcomas que se espalhavam. O punhal em sua mão era luz pura, para logo em seguida transformar-se em trevas, e se agitava como uma fera enjaulada. Eugene gritava algo sobre Helen ter permitido que o equilíbrio fosse quebrado e Francine segurava seu braço, implorando para que ele se acalmasse, ainda que, mesmo através das lentes do Ray Ban, pudesse se perceber que a sanidade lhe escapava como bolhas explodindo na carne queimada. Na cama, Thomas ria alto e se contorcia, ainda com Raymond segurando sua mão. Tim estava preparando uma injeção com as mãos trêmulas e o rosto totalmente contraído, enquanto Helen, encolhida como um feto deitado no chão, chorava e tampava os ouvidos com as mãos espalmadas. Howard esmurrava a porta e o vizinho de baixo cutucava o nosso assoalho com uma vassoura velha. Corri para segurar Eugene, que escapava de Francine, e derrubei-o no chão. Ele era mais forte do que eu e senti, mais do que vi, seu cotovelo se chocando contra o meu queixo. Em um instante, ele voltou a ficar de pé e Timothy se colocou a sua frente. Thomas enfartou nesse exato momento, Ray tentou uma animação cardíaca batendo em seu peito e produziu um som oco de costelas se rompendo, que conseguiu ser mais alto que o barulho de meus gritos. Em resposta, Thomas tossiu forte e regurgitou sangue na camisa de Ray.

Sangue.

As luzes se apagaram e o brilho das velas se estabilizou. Eugene tinha sarcomas cobrindo todo o rosto. E Ray estava com meio copo de sangue espalhado pelo tronco, braço esquerdo e parte do pescoço. Thomas ainda tossia.

Francine sacudiu Raymond, que balbuciava coisas sem sentido, e saiu com ele do quarto. Os dois praticamente atropelaram Howard durante a fuga e correram para o banheiro, rompendo definitivamente com qualquer tipo de “isolamento psíquico” que estivéssemos tentando manter, mas ninguém mais continuava preocupado com isso. Ela arrancou as roupas de Raymond, paralisado como um grande boneco de vestir sendo despido pela dona, e o colocou debaixo do chuveiro. Com a voz mais poderosa que eu jamais ouvi, ela perguntou a Howard se havia água sanitária, formol ou mesmo soda cáustica em algum lugar do apartamento. Tim disse que era melhor chamar uma ambulância.

Eugene disse que os médicos não fariam a menor diferença e que ainda estava conectado a Thomas. Disse para Tim mantê-lo vivo enquanto rompia a ligação. Caso contrário, nenhum de nós poderia dizer o que aconteceria, exceto que seria ruim, muito ruim. Thomas parou de tossir e, logo em seguida, sua respiração tornou-se irregular e seus olhos reviraram. Não havia nada que Timothy pudesse fazer mais. Eugene ergueu o punhal e enterrou fundo na própria mão.

Um vento forte e frio soprou no quarto, apagando todas as velas.

Tateei no escuro até encontrar o interruptor.

Thomas morrera, Tim estava abraçado com Helen. E Eugene já tinha arrancado o punhal da mão, o rosto livre de qualquer mancha, mas com uma hemorragia forte no lugar onde a laminar atravessara a carne.

Howard nunca contou a ninguém sobre os últimos momentos de Thomas, que, graças à nossa “mística” prepotência, não foram nada agradáveis. Raymond não se contaminou, pela rapidez de raciocínio de Francine, que também teve seu exame de HIV negativo (como todos nós, felizmente). Eugene deu as costas para todos quando Timothy se ofereceu para estancar o sangue, enfaixou ele mesmo a mão em uma toalha de mesa e saiu.

Aquela foi a última vez em que o Círculo Interno se reuniu. Nem o casamento de Helen ou a morte de Tim conseguiram colocar-nos dividindo o mesmo espaço.

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