Zero-30

A primeira impressão que tive quando a porta se abriu e todos nós pudemos ver Thomas estendido sobre a cama foi a de que ele já estava morto. Sua pele era flácida como se a carne debaixo dela tivesse sido toda drenada subitamente e ela se dobrava sobre os membros formando rugas enormes. A pele que sobrava nos braços e pernas faltava no tronco, como se as costelas, muito nítidas, fossem envoltas em papel crepom. Olhar para sua face era o mesmo que observar o rosto de uma múmia mal-conservada, com todo tipo de fungos e bolores se desenvolvendo onde deveria haver um semblante. Apenas o leve movimento de seus pulmões indicava que não estávamos diante de um cadáver. Thomas era um sobrevivente dos campos nazistas, vítima de um acidente nuclear, paciente de câncer generalizado e muito mais, tudo reunido em um único corpo.

Helen apoiou-se em uma das paredes, virou as costas e fechou os olhos. Ray cobriu o nariz e a boca com um lenço. A janela aberta não deixava escapar o ar saturado de odores insuportáveis: Thomas não tinha mais controle de suas funções intestinais.

A segunda impressão que tive foi a de que não havia nada ali que qualquer um de nós pudesse fazer. Era uma questão de minutos.

Francine se aproximou da cama e, durante alguns segundos, ficou parada diante dele. Então, inesperadamente, ela acariciou seu rosto sem receios e disse que tínhamos de tentar da melhor maneira possível. Eugene balançou a cabeça em sinal de aprovação. Tim e eu não nos movíamos.

Cinco minutos depois estávamos concentrados e confiantes, com Eugene coordenando uma vez mais o ritual. Thomas estava com todo o corpo desenhado com símbolos rúnicos feitos com uma tinta especial na qual Francine trabalhou durante três semanas. A simbologia era nova, algo pagão que Eugene tinha encontrado em um livro de 1927, comprado em um sebo no centro-sul da cidade quatro dias antes. Ele tinha pensado em usar signos orientais, mas mudara de idéia ao achar o livro. Thomas fora despertado com uma injeção de sei-lá-o-quê-amina, que Tim roubara durante um estágio no hospital, e agora nos observava com plácida incredulidade e ansiosa espera. Helen tentava hipnotizá-lo para que não sentisse qualquer tipo de dor, mas permanecesse consciente ou Eugene não conseguiria realizar a conexão. Ray e eu preparávamos as velas e os incensos, em um total de quarenta e nove (“sete vezes sete” , como estava escrito), recitando palavras antigas que já eram conhecidas antes da História se iniciar. Eugene, sem a ajuda de espelhos ou de ninguém, pintava runas na própria face enquanto lia umas anotações feitas em folhas soltas de caderno que ele tirara do bolso da jaqueta. Eu disse para Eugene que não estava familiarizado com as novas configurações. Sem olhar para mim, na verdade ainda de óculos escuros, ele disse para não nos preocuparmos com os sinais.

Era minha função e a de Francine garantir a integridade espiritual do quarto, impedindo que houvesse qualquer fluxo energético com o mundo exterior. As roupas virgens eram fundamentais para a tarefa. Eu me posicionei como guardião da porta, regulando meu ritmo respiratório e amplificando minha consciência como uma antena coletora. Francine foi para a janela. Helen seria responsável pela harmonização do ambiente em si, mantendo o equilíbrio entre as forças positivas (no caso, nós) e as forças negativas (no caso, a doença) até quando Eugene conseguisse fazer com que a balança pendesse definitivamente para o nosso lado. Não me lembro de quem apagou as luzes.

Segundo Eugene havia nos explicado, ele tentaria “exorcizar” a doença do corpo de Thomas. Embora o HIV fosse um receptáculo material incontestável, sabíamos que grande parte das doenças conhecidas possuíam um “loa” (espírito, na tradição do voduísmo) que provocavam brechas na emanação astral do indivíduo afetado e se alastravam por sua alma. No espaço imaterial, uma doença ali instalada poderia ser erradicada se a combinação mística de energia correta fosse acionada. A doença e o encantador poderiam se enfrentar em igualdade de condições. Segundo Timothy, era uma questão de freqüência de campos magnéticos, mas Helen e Eugene não concordavam com este modo de visualizar o processo. O fato que buscávamos era que, se a AIDS fosse derrotada no plano astral, o vírus HIV se tornaria biologicamente inerte e poderia ser eliminado pelo sistema imunológico da própria vítima. No caso terminal de Thomas, ainda que neutralizássemos a doença, seria necessário fornecer uma dose extra de vitalidade ou as infecções oportunistas o matariam da mesma forma. Restaurar vitalidade perdida exigiria um sacrifício de sangue. Esta era a parte de Timothy. Raymond, como amigo da vítima, seria o elo de ligação psíquica que impediria que Thomas morresse durante o ritual. Se Ray falhasse, Eugene poderia não sair daquele quarto vivo e, em caso de uma retroalimentação em cascata, nenhum de nós. A teoria era esta. Na prática, Eugene tinha curado a gata de Helen de toxoplasmose. E nada além.

Quando Eugene segurou a mão esquerda de Thomas, minha garganta secou e alguma coisa em meu estômago se contorceu. Do outro lado do quarto, os olhos de Francine procuravam desesperadamente pelos meus.

Thomas urrou com toda a força dos seus pulmões e o som atravessou meu crânio como faca em brasa. Ele defecou nos lençóis, uma mistura de água e sangue. Eu gritei para que ninguém encostasse naquilo, mas eles não podiam me ouvir porque Raymond também estava gritando “agüente firme, Thomas!” e eu sabia que aquelas não eram as palavras adequadas para o ritual. Francine estava chorando e eu me sentia como estivesse surfando em cima da maior onda do mundo, embora nunca tenha surfado, era um mar de bile cáustica, em que ao menor descuido eu seria arremessado eternamente para baixo. A adrenalina me excitava e me empurrava para frente, enquanto a torrente de energia externa esparramava-se contra minhas costas como ondas na tempestade, tentando preencher o vácuo provocado pela implosão do campo espiritual de Thomas. Tardiamente me dei conta que o contato fora estabelecido e que o HIV era claramente uma manifestação muito mais intensa do que a toxoplasmose. Muito mais. Eugene permanecia alheio a tudo, mas havia uma veia saltada em sua testa e o suor borrava os símbolos rúnicos, modificando suas formas (seus significados?). Atrás de mim, Howard batia à porta, mas não entraria nunca sem minha permissão. “Agüente firme, Thomas!”, “Não toquem no sangue!”, “… mestre dos sete véus que contempla a alvorada, dê-me agora tua glória e estenda o seu manto…”.

Thomas cessou de gritar e seu olhar tornou-se suave. Por um instante, eu consegui ver que ele era um homem bonito que tinha tanto direito à vida quanto qualquer um de nós. Então, Eugene quebrou o encanto soltando-se da mão de Thomas como quem recebe um choque elétrico ou como quem acabou de descobrir que estava tocando em algo repulsivo. Ele se afastou da cama a passos lentos, foi até a sacola de Timothy e tirou uma lata de Pepsi lá de dentro. Apoiado na parede, ele deslizou até o chão e abriu o refrigerante. Tim perguntou o que aconteceu. “Ele está resistindo”, respondeu Eugene, entre um gole e outro, “ele não faz a menor idéia de quem nós somos”.

Howard não tinha contado para Thomas que depositara suas últimas esperanças em uma trupe de feiticeiros pós-adolescentes com pretensões de unir Crowley à linguagem televisiva. Agora, Howard estava esmurrando a porta, assustado com a compreensão tardia de que cometera um erro e que AZT era melhor do que abracadabra.

Ficamos em silêncio por algum tempo. Enquanto isso, Timothy acendeu novos incensos e Ray não largava da mão de Thomas, que, se não fosse pelas pupilas dilatadas, pareceria estar dormindo. Meu relógio digital apitou duas da manhã e eu estava morrendo de sede, tinha medo de ficar desidratado e medo ainda maior de pedir um pouco de Pepsi e receber um “não” como resposta, algo do tipo “guardiões não bebem, mantenha o controle, porra!”. Minhas esperanças de voltar para casa antes do Sol nascer estavam se esgotando, e ainda sabia que depois do ritual todos nós teríamos que encontrar um terreno baldio e queimar nossas roupas juntas e a idéia de ficar nu com todos eles me constrangia, não sei o porquê.

Tim se ofereceu para fazer a conexão com Thomas desta vez e Eugene simplesmente deu de ombros, ainda bebendo, ainda de óculos escuros. Tim apertou a mão direita de Thomas e fechou os olhos, em concentração. Helen murmurou alguma coisa, mas eu não escutei. Howard se acalmou do outro lado da porta.

Eugene se levantou e tirou um punhal da sacola de supermercado. Era uma longa lâmina prateada com símbolos entalhados na empunhadura. Ele disse que Francine e eu deveríamos olhar de frente para as saídas e ignorar o que acontecesse no quarto. Ela perguntou o motivo do punhal e ele respondeu que “as coisas podiam ficar pesadas”. Aparentemente, a resposta foi satisfatória para Francine e ela virou de costas, passando a olhar para a janela. Tive a impressão que era uma posição muito vulnerável, mas fiz o mesmo e encarei a porta, uma silhueta de luz recortada no escuro.

Eugene se moveu pelo quarto. Eu só podia ouvir os seus passos: não havia gritos, cânticos ou sons externos. Apenas os seus passos. Ele se aproximou de mim. E ofereceu o punhal para que eu o beijasse.

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