A atual namorada de Barnhard está me perguntando qual filme eu gostaria de ver. O Gritador está vomitando no banheiro, um som tão alto e encharcado que meu estômago insinua uma solidariedade. Eu não sei que filme gostaria de ver.
Eles já lidavam com algumas formas de Magia quando eu me juntei ao Círculo Interno. Gostaria de acreditar que a responsabilidade de tudo ficava apenas sobre Eugene, mas a verdade da qual eu não posso escapar é que cada um de nós contribuiu para levar o grupo através de caminhos de sonhos e rituais. Era a nossa heroína quando as mandíbulas da cidade voltavam a apertar nossa carne, a rota de escape da vida cotidiana.
“Cansei de acreditar em Deus, Franz. Minha avó dedicou toda a sua vida às missas dominicais e às vontades de meu avô. Uma mulher submissa que recebeu um derrame cerebral. O lado esquerdo do seu corpo entrou no Paraíso quatro meses antes do direito”, disse Francine.
“A Alta Magia sempre foi mantida em segredo, longe das massas, para que os sacerdotes pudessem exercer sua hierarquia. Rabinos, padres, pastores e monges são todos iguais, cobrando um preço caro para que as pessoas comuns travem contato com uma divindade. Deus é a mais antiga franquia da era capitalista”, disse Timothy Darkdream.
“A idéia básica do que estamos praticando aqui é: fazer acontecer. Não estamos esperando acontecer, como agem as pessoas de fé. O ceticismo é nossa força. Nós fazemos acontecer. Pela Magia, sacou?”, disse Raymond Willis.
“Você pode passar toda a sua vida acordando às seis da manhã para ir ganhar dinheiro no Mercado Futuro, vendendo ações de produtos que não existem ainda. Ou pode acordar às seis da manhã para ver o Sol nascer e capturar o seu Poder. Isso é Magia”, disse Helen Grady.
“Magia é tudo”, disse Eugene.
Para pertencer ao Círculo Interno era ser necessário ser indicado e aprovado por todos. Demorou três meses para que eles me contassem que praticavam magia. “Negra?”, eu perguntei, e como deve ter soado ridículo. Não há distinção. É claro que não saíamos por aí sacrificando gatos pretos ou pegando ossos velhos no cemitério, mas Eugene conhecia alguns segredos que poderiam chocar Stephen King. Na verdade, Eugene era o único de nós que funcionava melhor como mago do que literato. E ele não gostou de mim desde o início (é o que eu acho, mas não posso provar).
Na maioria das vezes, gastávamos nosso tempo discutindo os resultados do Tarô e os significados dos sonhos, tentando aplicar mais tarde aquilo que descobríamos em nossa vida fora do grupo e fracassando dia após dia. Em algumas vezes, partíamos para um esforço ativo de modificar o que não achávamos correto; pequenas coisas que nos faziam sentir mais importantes. Elixires para espinhas, mandalas contra insônia ou fluidos positivos para seminários na faculdade. Egocentrismo era a regra, mas havia exceções: Francine conseguiu afastar de uma colega de curso o ex-namorado violento que vivia perseguindo a coitada e Raymond, depois de uma rodada de pôquer misticamente bem-sucedida em um cassino ilegal no centro da cidade, distribuiu dinheiro entre os mendigos. Não era tanto pelos resultados que buscávamos aquela subversão da ordem natural das coisas, mas pelo prazer de estar fazendo alguma coisa com nossas próprias mãos e pela ousadia de não permitir a vontade alheia interferir em nossos objetivos. Gostávamos de desafiar e, se não podíamos fazer aquilo à luz do dia sob o risco de atrair todo o rancor do velho e acomodado status quo, então faríamos nosso grito de renúncia, escondidos atrás das cortinas da razão científica.
Fomos muito felizes enquanto vencíamos nossa pequena guerra contra as forças do Mundo Adulto, os últimos Garotos Perdidos a vagar em Sodoma, nos embriagando em estrofe, incenso e paixão. Mas o tempo é um general duro em batalha e, ao tentar vencê-lo, dois de nós caíram de maneira sangrenta: Tim e Eugene. Eles desejavam nunca envelhecer. Como vampiros.

seja o primeiro a comentar