Carlo Visconti estava saindo com uma garota loira de quinze anos recém-completados, capa da “Assuntos de Menina”, oradora da turma. Sua antiga namorada, cujo nome eu nunca me preocupei em guardar, viveu um mês de depressão, reavaliou a vida ou algo assim, e depois se mudou para a casa de Barnhard. Alekssandri me contou, depois da oitava cerveja, que Carlo não estava interessado em sexo, mas verdadeiramente apaixonado pela garota. Aquilo despertou em mim curiosidade científica e certo ceticismo. Verdadeiramente apaixonado? Era o tipo de expressão que provocaria risinhos e troca de olhares irônicos entre Tim e Francine, mas que ainda era capaz de sacudir o lodo do fundo das minhas lembranças. Francine colecionava bonecas orientais. Timothy mentia sobre a idade, ora para cima, ora para baixo. Eu tiro fotos. Carlo namora uma colegial. Cada um faz o que pode para sobreviver.
Era uma festa de debutante. A valsa rolou ao som de Smashing Pumpkins e a faixa etária reinante me fazia sentir um highlander, embora Carlo não parecesse se incomodar e Alekssandri desfilasse com desenvoltura arremessando iscas para todas as ninfetas dentro de seu campo visual. Foi o segundo maior evento da Classe de 92 desde… embora, francamente, tivesse muitas semelhanças com algum episódio paródia de “Star Trek: the Next Generation”. Nós éramos os enrugados sobreviventes da Série Clássica e eles eram os herdeiros de porra nenhuma. Eu não estava reclamando e sequer vestia preto. Tentava largar de fumar e flertava com uma ruivinha no outro extremo do salão, que não tinha idade para ousar vir até mim. Eu, por minha vez, não tinha tesão para nada mais além de tentar identificar as semelhanças entre The Cure e Smashing Pumpkins. Eu estava num bom humor danado: o cheque do meu pai não atrasara e eu marcara um encontro com Nikita, a garota do anúncio.
Não estava pensando em nada. Shoemaker-Levy se chocou contra Júpiter naquela noite, provocando uma explosão que poderia ter transformado o planeta Terra em um pequeno parágrafo no obituário de um jornal cósmico ou algo que o valha. E Judith olhou no fundo de meus olhos, disse “Olá, Franz” e perguntou se eu tinha isqueiro. Acendi o cigarro dela, pedi um pra mim e terminamos a noite dançando “Disarm”.

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