Zero-69

Conhecia a expressão no rosto dela. Embora todos os gestos e frases que Francine produzia fossem pausadamente estudados e ainda que seus olhos estivessem extremamente avermelhados, não havia como negar. Ele estava preste a me dar um fora. Nós nunca estivéramos no Sandman àquela hora, quando todos os jovens executivos da Bolsa de Valores se acotovelam por ali, à procura de um espaço tranqüilo para poder almoçar e continuar fazendo seus negócios. Litros e litros de água Perrier, leasings, telefones celulares e nós dois no meio do Grande Vazio, tentando descobrir quem iria começar a falar ou se conseguiríamos suportar o silêncio mais um pouco.

Eu olhava para o meu relógio, absorto com o movimento dos ponteiros e temendo a hora em que ela precisaria dizer adeus. Meus lábios estavam secos e tive vontade beijá-la, para aliviar minha sede e ter certeza de que tudo que vivera até então não fora somente um sonho bom. Ela rabiscava alguns versos no guardanapo: tinha a inacreditável capacidade de vivenciar a poesia a qualquer hora e em qualquer lugar e ainda manter a atenção nas pessoas ao seu redor. Ela gostava disto: pessoas e estrofes. Por isso amara Timothy. Por isso amava a mim. E eu a amava: não com a mesma suicida auto-entrega com que amara Lim ou Melanie, mas a amava. Francine nunca ouviu o que eu estava me sentindo livre para lhe dizer: eu te amo.

– Franz-querido, eu estive pensando…

– Eu te amo.

A frase, dita com crueza e nenhuma alteração em minha voz, pegou-a de surpresa. Por um breve momento, eu vislumbrei em seu rosto a mesma afetuosa fragilidade daquelas madrugas insones passadas em meu quarto, quando ela despia toda a sua pose de estudante de Artes Plásticas e se transformava em uma mulher normal de carne, osso e defeitos. E, ao mesmo tempo, eu soube que não surtiria efeito. As palavras já estavam se dispersando no ar e eu não conseguiria pronunciá-las novamente.

Ela tinha a vida dela. Precisava partir; uma bolsa de estudos em outro curso, outra cidade e então era o fim. Ela escreveria e telefonaria, é claro, mas eu já tinha ouvido isso antes e não fiquei com esperanças. Disse poucas mais e a maioria delas tolas em demasia. Eu estava oco.

– Franz, eu gostaria de lhe pedir um favor. Mas não quero que pense que estou torturando você ou lhe dando qualquer obrigação para o resto de sua vida. Você é totalmente livre para recusar, mas, se pensar bem, verá que não há nenhum motivo para recusar.

– Diga, Francine.

Ela acendeu o primeiro cigarro do dia e estudou minhas respirações por um tempo. Senti o cheiro de seu perfume misturado com fumaça e quis fugir, correr para um lugar onde ninguém me conhecesse e me livrar de todas as cracas da adolescência para envelhecer em paz e sem lágrimas.

– Eu gostaria que você tomasse conta de Tim.

– Espero que você esteja apenas sendo sarcástica.

– Estou falando sério.

O sangue me subiu à cabeça e meus dedos se contraíram de raiva e humilhação. Dividir o amor de Francine com Timothy já fora um teste mais do que extenuante para os meus limites; ouvi-la me pedir aquilo ultrapassara qualquer abismo escuro em que eu tivesse afundado antes. E, pela primeira e única vez, eu odiei Darkdream.

– Ele está mudando, Franz. Vai precisar de toda ajuda que nós pudermos oferecer. Por favor, seja seu amigo mais do que nunca.

– Francine… ele pode cuidar de si próprio.

– E você, Franz? Pode cuidar de si mesmo?

– Obrigado por perguntar.

– Já leu o que Timothy está escrevendo?

– Sim. Ele pensa que é Byron.

– E isso não o preocupa?

– Todos nós ficamos abalados com a morte de Kurt Cobain.

– É mais do que isso. Ele não está abalado com a morte de Cobain, mas abalado com as mesmas coisas que abalaram Cobain.

– A desintegração da juventude…

– Não seja tão cético. Seus cabelos vão ficar tão brancos como os de todo mundo um dia…

– Mas isso não me tira o sono! Eu sei quem eu sou por dentro! Eu sou Franz Richter e continuarei sendo aos 30, aos 60 e aos 90 anos.

– Olhe ao seu redor, Franz.

Como uma grande máquina que funcionasse sem erros em moto perpétuo, todos aqueles executivos-juniores olharam simultaneamente para seus relógios e interromperam automaticamente tudo que estavam fazendo. Ligações foram cortadas com breves desculpas, acordos foram fechados com rápidos apertos de mão e os talheres largados com veloz delicadeza sobre pratos inacabados. Todos pagaram as suas contas e saíram do restaurante. Como grandes e pesadas máquinas.

– Isso é grotesco – eu disse, depois de passado o espanto.

– Isso é real. Não os meus poemas, suas frase de efeito ou os devaneios de Timothy e meio bilhão de jovens de vintes anos espalhados pelo mundo. Isso é real.

– Quem eles foram? – eu perguntei, ainda pensando naquele rebanho de dóceis carneiros do mercado financeiro.

– “Do pó ao pó…”

— “I hope to die before getting old…”

– Esqueça essas coisas. Nunca mais diga essa frase estúpida. Já há adolescentes demais no Inferno, mais alguns e Satã será derrubado por Beavis e Butt-Head.

Não pude conter um sorriso. Ela sorriu de volta e segurou minha mão, como que diz: “mantenha-se sorrindo, gosto de você assim”.

– Promete que irá olhar pelo Tim?

– Por que tem que terminar assim?

– Não daria certo, Franz.

– E nós tentamos assim mesmo, não foi? Tentamos mudar o mundo.

– Você irá cuidar de Timothy? Franz, você está me ouvindo?

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