Zero-89

Algum dia perdido em agosto, depois da meia-noite, walkman a todo volume tocando “clássicos” dos anos 80, tentando escrever alguma coisa que consiga capturar o vácuo deixado por todas aquelas pessoas que poderiam estar aqui, mas não estão, pessoas que seguiram um caminho totalmente diferente do seu e que sente que nunca mais serão vistas. Não é nada agradável ficar acordado até tarde esperando tolamente que alguém telefone, tendo absoluta certeza de que isso é perda de tempo e que no dia seguinte eu não terei a mínima vontade de acordar cedo e ir para a faculdade conviver com pessoas que brevemente estarão disputando o mercado de trabalho comigo. Mas ir para cama e sonhar com Melanie ou com Lim ou com Francine ou, pior, com ninguém significaria assinar o termo de rendição de uma batalha que ainda não revelou quem é o inimigo. A fita continua rolando, cada música espalhando fragmentos, novas colagens de uma mesma cena, jogando minha mente, já diluída pelo tardio da hora, através de fractais de flashbacks. Mas o telefone não toca e eu olho para meus dedos manchados de nicotina e tento recordar quando foi que eu comecei a fumar e porquê. Timothy, é claro. Ele fumava de um jeito que fazia a gente ignorar as advertências das revistas de consultório médico e tentar seguir seu ritmo. E Francine não ficava atrás.

A última música chama-se “Sodoma”. Dezesseis minutos de apocalipse sonoro sobre um lugar maldito onde a esperança foi sepultada por toneladas de concreto civilizatório e esquecida por pessoas que venderam suas almas a um demônio furtivo chamado Onaiditoc. É fácil chegar em Sodoma, qualquer estrada termina lá, diz a letra. A batida da bateria é assustadora. Eu olho pela janela e vejo luzes no prédio em frente, uma mulher na sacada do apartamento contemplando os dez andares de altura. A batida da bateria me dá a impressão de marcar a marcha de uma legião de escravos caminhando para as mandíbulas de asfalto e aço de alguma pós-moderna Besta primitiva, ou trovões na noite sobrepondo as explosões de carros em uma cidade incendiada. A mulher retorna para dentro e apaga as luzes. A música avança para um riff de guitarra interminável, carregado de adrenalina & cicuta. Deus está morto, parecem dizer as cordas da guitarra em cada vibração. Sodoma. Sodoma. Sodoma.

Dedico escrever uma história que começará com um anúncio pornô e terminará com a morte de Timothy. Viro a fita e aperto play.

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