Zero-90

Eu e os rapazes freqüentávamos o Neverland nos dias de chuva. Saíamos da escola e íamos para lá para esperar a chuva se acalmar. Bebíamos refrigerantes, o que não fazia a menor diferença diante das crises de adolescência, quando parecia que o mundo era tirado de nossos pés e jogado em nossas cabeças. O Mickey Mouse no relógio da parede era uma afronta nessas horas e nossos hormônios clamavam por um pouco de rock and roll e, se tivéssemos sorte, algumas garotas. Mas o que fazia sucesso nas rádios era “Nothing Compares 2U” ou qualquer coisa do A-HA já em sua fase decadente e as garotas que passavam no Neverland estavam somente interessadas em caras mais velhos ou então tinham menos de doze anos e ficavam dando risinhos. Alekssandri ficava no flipper matando cowboys do velho oeste ou derrubando belonaves invasoras; em pouco tempo estaria pedindo dinheiro emprestado para as fichas e ouvindo negativas. Barnhard morava ali do lado; ficava pela área sem fazer nada, às vezes dando confiança para as garotinhas ou então contando piadas para quem estivesse por ali. Eu não tinha motivos para ir ao Neverland, dizia que detestava tudo aquilo, mas estava sempre lá com algum conhecido.

Já tínhamos visto Timothy antes. Ele chegava, pedia uma Coca gelada, bebia, pagava e ia embora. Duas vezes por semana. Ele também estava estudando na mesma classe, mas até o momento tinha recebido o mesmo tratamento reservado aos novatos, tolerância silenciosa. Mas, naquele dia chovia muito, não havia garotas no bar e o rádio tocava uma seqüência de dance music capaz de liquefazer o cérebro mais paciente. O clima não estava nada agradável. Eu surpreendia-me apaixonado por Lim, o que não era necessariamente uma boa notícia. Barnhard também, mas evitava comentar para não piorar ainda mais a minha depressão, sempre diplomático. Alekssandri dava conselhos inúteis que soavam falsos, dizendo para eu esquecer aquela história e tentar me animar, mas sua situação estável com Melanie fazia suas palavras transformarem-se em ironia. Não que eu escutasse alguma coisa ou enxergasse alguma coisa que não fosse Lim Iakeda e seu riso doce, envoltos pelo som da chuva e pela música estridente (“pump pump up jam, pump up jam, pump up and pump pump pump up”). Barnhard ficava olhando para os lados, incomodado com o Technotronic, com a ladainha interminável de Alekssandri e com o meu silêncio. Não mais suportando a idéia de ficar em um lugar onde não se sentia à vontade, levantou-se e enfrentou a chuva sem dizer uma sílaba. Então, Timothy sentou-se na cadeira vaga, saído de lugar algum, olhou para mim e disse a frase mais estúpida do mundo:

– Não esquenta a cabeça não, meu-velho. Um dia a gente vai rir disso tudo.

O rosto dela se despedaçou na minha frente e focalizei Timothy. Alekssandri se calou. “Calouro idiota”, foi tudo em que consegui pensar naquele momento.

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