Zero-10

P: Podemos começar?

R: OK. Quando quiser.

P: Poderia dizer o seu nome completo?

R: Alekssandri Pavlovitch.

P: Alekssandri, o que você poderia nos dizer sobre Franz Richter?

R: Franz e eu estudamos juntos desde o ginásio. Quando eu cheguei naquela escola, ele já estava lá, na verdade. Desde o primário, eu acho. Mas demorou um tempão para a gente se falar. Eu tinha o meu grupo de amigos e ele, bem… Franz não tinha muitos amigos. Ele era meio caladão, mas um grande aluno. Notas altas, essas coisas. Quero dizer, não que ele fosse um CDF e ficasse a maior parte do tempo com a cara enfiada nos livros. Na verdade, ele até faltava muito às aulas. Franz tinha algo como “memória associativa”, uma merda dessas. Você ensinava uma coisa para ele e ele não esquecia mais. Notas altas eram moleza para ele, mas não estava nem aí; vivia desatento e parecia desinteressado. Aí, quando você não dava nada por ele, lá vinha um dez em matemática. Cara, era magia pura.

P: Certamente… Mas, como vocês fizeram amizade?

R: É uma história longa, cara… Eu fui até ele e fui por interesse. Sabe, eu tinha uma vida normal para alguém da minha idade: tinha amigos, algumas namoradas e estava em todas as festas. Mas minhas notas eram uma merda e eu estava correndo o risco de ser reprovado. Quando sua mãe começa a repetir com muita freqüência que você não vai ter futuro se não se dedicar, você começa a acreditar e se sentir um lixo por dentro. Por fora, você faz pose e tudo mais. “Tudo bem, mãe, sem problemas”. Mas, por dentro, você está pensando: “Cara, eu vou me foder bonito”. Então, eu fui à luta e perguntei para Franz se ele podia me ensinar algumas matérias. Ele não teve a menor dificuldade em dizer “não”. Mas eu fui insistente. Primeiro porque ninguém dizia “não” para Alekssandri Pavlovitch, segundo porque eu estava precisando mesmo. Franz era do tipo bicho-do-mato, o último a ser escolhido para completar o time nas aulas de Educação Física. Mas, no final das contas, ele acabou concordando. E foi assim que começou.

P: Você conseguiu ser aprovado?

R: Sim. Entrei em recuperação, mas passei. Franz não teve muito crédito porque ele sacava um bocado das matérias, mas não tinha o menor jeito para explicar. Ele nunca precisara explicar como as coisas entravam em sua cabeça. Ele dizia que era só olhar para a questão e começar a resolver, uma vez iniciando, ele era capaz de chegar ao fim com a resposta certa em 90% dos casos. Múltipla escolha para ele era brincadeira de criança. Mas não vou dizer que não aprendi um bocado com ele. Franz adorava resolver problemas e exercícios de livros escolares, dizia que assim podia praticar o seu dom. Confiava mais em si mesmo do que nos professores e, por isso, também não era muito popular entre eles. Com ele, eu aprendi a correr atrás dos livros também, incluindo aqueles que não estavam na lista recomendada pelos professores. Minha mãe o adorava. Franz era quieto e inteligente, segundo ela, tudo o que eu devia ser. Mas eu sabia que ele era socialmente não-funcional. Hoje dão um nome para isso: inteligência emocional, eu acho. Quer dizer que não adianta nada o sujeito ser um gênio se ele não for capaz de se relacionar adequadamente com as outras pessoas. Em seu local de trabalho, por exemplo. Você pode dizer que eu estava em dívida com ele, mas, na verdade, eu estava começando a gostar dele. O cara era tímido, meio contestador, gostava de rock n’ roll, mas, e daí? Tudo se conserta.

P: O que você fez, então?

R: Ensinei tudo que sabia sobre ser social. Entenda, eu não era o senhor Popularidade, mas perto de Franz qualquer um pareceria Ferris Buller!

P: Quem?

R: Desculpe-me, é uma referência dos anos 80. Um personagem de cinema. Mas, como eu estava dizendo: ensinei Franz a se vestir de acordo com os padrões da moda, a dizer as gírias certas, a fazer amigos e falar com garotas. Ele passou a freqüentar festas, ainda que fazendo o gênero “deslocado”. Franz aprendia fácil e logo se enturmou. Ele era meio reservado, mas seria capaz de erguer um caminhão para um amigo. No entanto… se fosse necessário mover um palito de fósforos para conhecer alguém novo, ele preferia deixar para lá. Eu poderia dizer que ensinei ele a falar com mil pessoas e ele me ensinou a dar valor a apenas dez pessoas. A gente conversava muito sobre tudo, mulheres, pais, o futuro, etc. Ele não falava muito, nunca foi de se abrir, mas escutava direitinho o que você dissesse e não saía por aí espalhando os segredos. Ele me ajudou muito quando eu me apaixonei por Melanie Bates. Entenda: eu já tivera namoradas antes de conhecê-la, mas, quando percebi, estava fisgado completamente e tremendo que nem gelatina. Eu engasgava, errava as cantadas, metia os pés pelas mãos, era um desastre. Parecia que era a primeira vez que eu via uma garota. E era mesmo, porque eu sabia que daquela vez era pra valer e, se falhasse, ia ser uma merda para agüentar. E Franz estava me dando um puta apoio! Caramba, era irônico! Era ele que estava segurando minha barra daquela vez.

P: Você e Melanie ficaram juntos, certo?

R: Certo. Depois de oito meses e catorze dias de sofrimento e ansiedade, descobri que ela gostava de mim tanto quanto eu gostava dela. Foi a época mais maravilhosa da…

P: Desculpe interromper, mas também foi nessa época que surgiu Timothy Darkdream, certo?

R: Certo. Ele entrou pra nossa escola nessa época.

P: Como ele era? Vocês eram amigos?

R: Não fomos muito chegados. Naquela época eu fiquei muito ligado a Melanie, deixei todo mundo meio de lado, mesmo Franz. O pessoal reclamava, mas como podiam entender? Ninguém estava namorando sério, só eu. Eu estava feliz pra cacete, cara! E, quanto a Timothy, ele era tão radical em suas idéias de certo e errado que fazia o antigo Franz Richter parecer um diplomata. Basicamente, Darkdream só fez amizade com Franz e com Barnhard Rémy. E com Lim Iakeda também, pelo o que eu ouvi falar.

P: Como assim?

R: Ela estava com ele quando ele morreu. Quero dizer, não na hora exata, mas nas últimas semanas.

P: Certo. Poderia dizer um pouco mais sobre o relacionamento entre Franz Richter e Timothy Darkdream?

R: É apenas uma opinião, mas eu acho que Franz tentou ensinar a Darkdream o que tinha aprendido comigo. A ser popular e tudo mais. Mas Darkdream não estava disposto a aprender. Ele ainda tinha alguns amigos de sua antiga escola, como Raymond, e ele era popular entre eles. Gente esquisita. O que você chamaria de “nerds”, sabe? Eu acho que Franz ouviu algum tipo de voz interior e se lembrou de como era antigamente. Também tinha toda aquela história de Lim Iakeda mexendo com a cabeça dele e aí Franz jogou fora tudo aquilo que eu tinha ensinado, e que não estava funcionando com Lim, e se transformou de vez em um “esquisitão”. Eu não o culpo, também ficaria pirado se tivesse me apaixonado por aquela garota. Eu vi uma vez um cara socar a parede até sangrar por causa dela. Ela era meio implacável e Franz, bem, não era muito experiente, vamos falar com franqueza. Darkdream também teve sua dose de azar com uma garota chamada Cecília Alguma-Coisa Ribeiro ou Trigueiro, não importa. Acho que, no meio daquilo tudo, Melanie e eu tivemos muita sorte em…

P: OK. Muito obrigado, Alekssandri. Precisamos encerrar por enquanto. Mas manteremos contato, caso sejam necessárias outras perguntas.

R: Certo. Precisando, é só chamar, senhor… senhor..

P: Dois.

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