Choveu ontem durante a noite, uma chuva fraca, cansada, mas que foi suficiente para deixar o asfalto brilhando sob o farol dos carros e a terra dos jardins exalando um suave odor. Nada de neve ou gelo, mas o frio chegou forte e as pessoas evitam as ruas passando rápido dentro de seus casacos. São oito horas da manhã e estou sentado tomando café em uma lanchonete qualquer da grande Sodoma, esperando alguém. Esperando Lim. Exagerei no açúcar e larguei a Faculdade, não exatamente nessa ordem. Meus pensamentos são como cartas de Tarô espalhadas sem ordem pelo chão, depois de quarenta e duas horas ininterruptas de cigarro, comida enlatada e datilografia, organizando todas as anotações e tentando encontrar algum sentido em pedaços aleatórios de vida. Algo que me faça acreditar que não desperdicei tempo e celulose nos últimos meses. Algo que afaste o isqueiro do papel.
Ela chega vestindo um casaco vulgar e com as pernas expostas, desafiando o frio com a ajuda somente de um par de meias de seda negra e uma coleção de olhares ardentes a ela dirigidos. Há muita maquiagem em seu rosto. Nada daquilo reduz a sensualidade natural de seus movimentos e da curvatura de seus lábios e, o que seria de mau-gosto em outra mulher, em Lim não transparece. Não me decepciono. Sua imagem mantém o mesmo poder de sedução que ainda existia em sua voz ao telefone, um doce cicio que evoca um tempo mais belo de minhas lembranças.
Mas não estou aqui disposto a sexo ou qualquer outro contato físico, por isso, quando ela beija levemente minha face esquerda, eu mal noto o toque. Lim acende um cigarro sem dizer nada eu me pergunto quantos Timothy havia convertido para o alívio do tubinho branco. Realizo um esforço consciente para olhar em seus olhos sem ser traído por minhas memórias, principalmente as mais recentes, quando menti descaradamente para mim mesmo a fim de não me deixar seduzir novamente. Nikita. xxxx-xxxx. E, agora que ela está aqui, eu não consigo dizer nada, nem mesmo responder a uma pergunta simples, do tipo “como você está, Franz?”, e percebo que não há mais nada capaz de mover meu corpo para fora dessa cadeira, nem medo, mentiras, café ou cocaína.
A porta da lanchonete se abre mais uma vez e um jovem magro, vestindo botas de motociclista, jeans negro, uma camisa preta dos Misfits e óculos Ray Ban, entra no recinto. Eugene. Ele está coberto por uma leve camada de garoa, mas o frio não o incomoda, ainda que os termômetros estejam marcando apenas cinco graus acima de zero. Ele caminha até nós sem olhar para os lados, seus passos ecoando no piso de mármore, e se senta na lateral de nossa mesa. Ele tingiu os cabelos de verde-limão.
Lim não se surpreende e diz: “olá, Eugene”. Eu permaneço calado. Ele fala e sua voz morta e grave lembra máquinas, grandes e pesadas máquinas rangendo em moto perpétuo:
– Não liguem. Para minha presença. Irei esperar. Tenho algo a dizer. Para Franz.
Depois disso, ele silencia. Não respira, tampouco. Uma estátua de sombras solidificadas, com a garoa escorrendo da lente de seus óculos. Lim me lança um olhar conspirador e eu descubro que não é a primeira vez que ela testemunha aquilo em que Eugene, ou seja lá qual for o seu nome agora, se transformou. Ficamos sem dizer nada ainda e levo um bom tempo para desenterrar as palavras do fundo da garganta, imaginando porque Eugene não ficara lá fora esperando perto do meu carro ou porque não fora até meu apartamento, ao invés de se interpor como uma barreira entre nós. Mas, quando as palavras vêm, elas tem o amargo sabor das palavras certas:
– Lim, eu não a chamei até aqui para dizer que ainda te amo ou para revelar o meu desprezo. Não vou tentar recordar os momentos que passamos juntos nos quais eu fui feliz e nem perguntar se foram felizes para você também. Não vou te explicar como eu senti solitário, confuso e infernalmente atormentado durante os últimos meses. Não vou tentar descobrir com você o que aconteceu há um ano atrás. Não irei relatar as loucuras que fiz, as oportunidades que perdi ou as piadas que ouvi. Nem as tardes que passei em frente da janela murmurando o seu nome, ou qualquer outro nome. Não vou te contar sobre Judith. Ou sobre Thomas. Ou o Número Dois. Não serei eu quem vai dizer que nós dois somos responsáveis pela morte de Timothy. E também não serei eu quem vai dizer que não tivemos culpa nenhuma. Não vou falar sobre nada disso. Não aqui, ao lado de um… fantasma. Tudo o que eu quero saber de você é a resposta para uma pergunta. Algo que eu já ouvi antes de outras pessoas, mas que eu quero ouvir com a sua voz. Lim, me diga, você amava Timothy?
Uma chaleira apita na cozinha da lanchonete e eu flagro uma mulher idosa, de lenço estampado na cabeça, olhando fixamente para nós. Ela tem a íris esmaecida, suspira e desvia os olhos quando percebe que foi descoberta. Um lampejo de sol escapa entre as nuvens e lava de ouro a nossa mesa. Lá fora, um casal de meia-idade discute sobre alguma coisa, enquanto os carros passam jogando água acumulada na sarjeta em direção à calçada, quase os atingindo a cada vez, mas eles não ligam e a mulher está à beira das lágrimas. O Sol parte novamente. E, nesse espaço de cinco segundo, Lim permaneceu calada, então ela abre seus lábios em rosa-bebê e murmura:
– Sim. Eu amava Tim.
Eu coloco minha mão sobre a dela e me deixo levar pelo carrossel das lembranças, descobrindo a cada volta o tempo que eu perdi sentindo pena de mim mesmo enquanto as pessoas a minha volta também caiam sem um ponto de apoio. Descubro o egoísmo de meus textos e meus gestos e lembro das cartas de Francine que eu não respondi, da mandala que Raymond desenhou no banheiro do Sandman, de Judith pedindo por socorro enquanto empurrava alguns mililitros de alívio para dentro das veias e Alekssandri vomitando o nome de Melanie no meu tapete enquanto eu imaginava uma maneira de lhe contar que estava apaixonado por ela. Lim amava Timothy e eu nunca lhe paguei um café.
– Olhe para mim, Franz, por favor. Você não está sozinho.
Como ela pode dizer isso quando todos partiram? De qualquer forma, aceito o seu toque e ela me puxa pela nuca, encostando sua testa na minha por sobre a mesa. Por um instante, eu consigo sentir a presença apaziguadora de Tim e ouvi-lo dizendo que “um dia a gente vai rir disso tudo, Franz-meu-velho”. Lim ficará esperando por esse dia chegar, mas eu tenho dúvidas de que possa ver esse dia e identificá-lo, enquanto minha visão for sendo toldada pelo peso dos anos. Eu fecho meus olhos para que as lágrimas não escapem, não na frente dela, não na frente de Eugene. Ela não tem os mesmos bloqueios e um rio escuro de rímel desce pelo seu rosto, ao passo que ela me conta sobre as últimas semanas de Timothy, os filmes que alugara em videolocadoras, os velhos discos de vinil e fitas K7 que escutara, o que prepara para o almoço e vários outros detalhes que não consigo reter. Lim também me conta sobre as visitas noturnas de Eugene e outros ainda mais sombrios e de como ela precisava ignorá-los para manter-se sã e amando. E de como a obsessão de Timothy foi se modificando, dia após dia, em resignada indiferença à medida que seu poder crescia cada vez mais. A última coisa de que ela se lembra é dele sentado em frente ao televisor, mudando os canais incessantemente sem a ajuda do controle remoto. Foi a última vez que ela o viu com vida. Na manhã de vinte e quatro de Dezembro de 1994. Uma manhã como esta.
Quando ela veio até mim naquela noite, eu não fiz pergunta alguma. Mas, se tivesse perguntado, eu teria sido capaz de evitar o que aconteceu ou será que Timothy já tinha enxergado o seu inevitável destino na tela da televisão?
Há muito ainda para ser decifrado e o tempo agora é escasso, mas, se for me dada uma segunda chance, eu tentarei não fugir mais de Lim Iakeda. Ela é parte significante dessa história. E não um anúncio barato de classificados publicado nos porões de minha mente. Basta de fantasias. Nós nos despedimos (por enquanto) e agora estou sozinho com Eugene.
Ele aspira o ar profundamente, me puxando para o seu vácuo, abre um sorriso ligeiramente zombeteiro e diz:
- Ela conseguiu reduzir a porra toda. A uma história de amor. Não é?
Grandes e pesadas máquinas.

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