Volume 1 – Carta 9

– Seja bem-vinda a minha casa, senhora Swantson. – disse Pharad. – Soube que é a convidado da Matriarca. Temo que ela ainda não tenha chegado, mas sinta-se à vontade. Coma e beba, minha jovem. É tudo por conta do Tesouro Inglês hoje.

O homem que lhe estendia a mão era aproximadamente de sua altura, mais encorpado um pouco. Tinha uma mão rude, um aperto sincero e anéis espalhafatosos. Sua roupa era simples, porém bonita: uma túnica oriental com listras coloridas o cobria do pescoço aos pés, com sandálias de couro. Sua exuberância e posição estava traduzida nas joias e no olhar. Seus olhos eram ao mesmo tempo gentis e profundos. Em outras circunstâncias, seria um homem atraente. Entretanto, essas circunstâncias estavam muito longe no tempo e no espaço para Josephine Swantson, ainda que tenha percebido o galanteio sobre sua idade. Pharad percebeu ou estava ocupado demais e desculpou-se com uma mesura, para, em seguida, recepcionar um casal que acabara de chegar.

Swantson trazia consigo duas Colts .357. Não uma, mas duas. Se tivesse mais tempo para pesquisar em Manchester, teria trazido uma pistola. Se tivesse mais espaço para planejar, um rifle de assalto, automático de preferência. Não. Estava entrando em pânico. Nunca usara um rifle antes, provavelmente se machucaria. Os dois revólveres deveriam bastar. Só esperava não ter que enfrentar um peso-pesado, como um vampiro ou um Homem-Tigre. Neste caso, sua melhor chance seria correr. Começou a estudar as saídas do jardim e concluiu que eram poucas.

Para onde olhasse, via Carteadores. De todos os tipos, alguns de tipos que ela sequer ouvira falar. Precisava se informar melhor. E seu humor já estava azedando.

“Matriarca… agora temos um nome em que pensar”. Pelo que entendia, aquele nome não significava muita coisa. Poderia se referir a uma velha senhora de 120 anos, usando vestido com bordados, de andar encurvado e voz entrecortada por uma respiração irregular, mas também poderia ser o nome usado por uma semideusa de Outra Dimensão, Senhora da Morte, da Dor e da Chantagem ou qualquer coisa assim. “Nomes têm poder”, dissera O´Brien (ou alguém que gostava de ser chamado de O´Brien). Mas Swantson preferia Swantson. Não “Assassina do Cortiço”, “Matadora do Metrô”, “Viúva Negra de Boston”, nem nada por este caminho. Swantson não tinha por hábito ficar inventando sobre si mesma, tentar atribuir uma razão mais profunda para aquilo que fazia ou se imaginar mais poderosa e perigosa do que realmente era. Ela era apenas alguém que necessitava matar ou ela mesmo morreria de uma forma lenta e dolorosa. Nada mais, nada menos. Ou em suas próprias palavras: “morrer todo mundo morre, de várias maneiras; eu sou apenas uma opção”.

Procurou relaxar. Seguiria o conselho de Pharad. Se a Matriarca ainda não havia chegado, ela tinha tempo para circular, comer alguma coisa para forrar o estômago. Não havia comido nada nas últimas vinte e quatro horas exceto um lanche no avião e duas xícaras de café na estrada.

As mesas estavam sortidas. Muito sortidas. Swantson ficou impressionada com a fartura. Havia ali comida suficiente para alimentar um país africano e com qualidade. Seria tudo aquilo mesmo pago pelos contribuintes da Coroa? Ela imaginava que não. Aquela gente era rica, tinha redes de mineração de ouro e pedras preciosas na Faeria, o mundo dos Elfos, e podia prever os resultados do Mercado de Ações usando Magia. Era tudo bem mais fácil do que para ela, se escondendo em cortiços onde antigamente não passaria nem na porta, comendo sanduíches baratos em lanchonetes idem e usando as mesmas peças de roupa por muito tempo. Swantson não tinha mais conta em banco, nem cartão de crédito e lá estava ela na festa dos figurões, sendo chantageada por um deles, e aproveitando para ter uma refeição completa.

Pensou em comer um pedaço do imenso cordeiro assado que tinha em uma das mesas, mas, como ninguém ainda tinha cortado a peça, ficou inibida. Olhou em volta e viu um Anão com um pedaço de coxa de peru, pingando gordura por sua barba e se espalhando na grama, conversando com dois Elfos que bebericavam um estranho líquido róseo e comiam doces. Fora esse grupo, ninguém mais estava comendo nada, apenas bebendo. Ia evitar o álcool até saber por que fora chamado ali. Escolheu pegar alguns canapés quando teve certeza de que ninguém estava olhando. Colocou alguns no bolso do capote e se afastou das mesas. Mastigou com pouca vontade, mesmo de barriga vazia.

Sentia somente os dois canos frios encostando nas laterais de seu corpo. E uma ligeira apreensão.

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