Volume 1 – Carta 10

Alekssandri McAllister já era Peter Danov. A partir do momento que cruzara os portões de Sutterville Dream, deixou para trás seu nome de batismo e assumiu sua identidade de escritor. Fixou a bainha da espada às costas e endireitou a gravata da melhor forma que poderia sem um espelho. Chinoko o beijou na face, como uma mãe faria a um filho, ou como uma babá que jamais perdera o hábito faria, uma forma de lhe desejar boa sorte em sua busca e se afastou. Danov não poderia culpá-la. Seu objetivo ali seria divertir-se, algo que ele sabia que ela precisava e, acima de tudo, merecia. Mas ele teria que enfrentar aquelas pessoas, suas conversas vazias, suas políticas territorialistas, seus preconceitos milenares, suas conspirações e traições. O mesmo tipo de jogo travado muito antes de seu avô nascer. O mesmo tipo de falsidade e decadência que habitava o mundo dos laicos, dos não iniciados, das pessoas que acordavam cedo para ir ao escritório bajular este ou aquele chefe, dos advogados defensores de causas erradas, dos professores empobrecidos e descontentes, das donas-de-casa capazes de violência por uma oferta adequada em um supermercado de subúrbio. Ao contrário de muitos de sua raça, Danov não sentia desprezo pelos mortais. Mas desprezava os mesmos defeitos que via tanto nos humanos quanto nos vampiros: manipulação, mentira, ganância. Às vezes, desejava seguir a trilha de seu pai e desaparecer no mundo para nunca mais voltar. Se tivesse que escolher entre conversar com um Demônio ou com um outro vampiro, preferiria o Demônio, pois assim sempre teria certeza de que o outro estaria tentando enganá-lo. “E alguns demônios”, pensou, “podem ser confiáveis”.

Enfim, lá estava em uma festa da nata inglesa. Pharad do Concílio. Ainda não tivera a chance de encontrá-lo, mas parecia que jogava pelas mesmas regras que ele. O Concílio dos Cinco era respeitado por sua justiça, até mais do que pelo seu poder. Formado no Século XVIII, como um conselho de nobres representantes das raças sobrenaturais presentes na Inglaterra para fazer frente à ameaça napoleônica, o Concílio dos Cinco sempre reuniu os mais poderosos Carteadores em torno de uma causa comum: preservar a harmonia entre os povos e proteger o Mundo Ausente de ameaças que poucos poderiam combater. Mas, diferente de uma força política, o Concílio jamais pretendera governar nada ou ninguém, muito pelo contrário, sendo sempre um instrumento daqueles que representava. Um avanço e tanto depois do Reinado dos Juliot. Muitos membros já tinham passado pelas fileiras do Concílio nos últimos dois séculos, alguns se aposentando depois de um tempo, outros encontrando um trágico fim na luta contra forças rivais. Atualmente, o Concílio dos Cinco possuía somente quatro integrantes: Pharad, Z, Kelfrenin e Lírio Gelado. A Quinta Posição estava vaga desde a Guerra do Abismo e, ao que tudo indicava, permaneceria vaga por muito tempo. Poucos haviam se candidatado em trinta anos e todos foram recusados.

Danov sentia dentro de si uma inclinação natural a se candidatar. Uma inclinação natural para pertencer a algo que fosse importante, não apenas a uma família de Vampiros que se recusava a evoluir ou se modernizar, não apenas a um grupo de aventureiros ousados vagando pela Europa em busca de encrenca. Simplesmente pertencer, excluir do peito aquele vazio que se instalara desde o momento no qual se percebera abandonado em um castelo que não o desejava.

Ao chegar entre os convidados, seu bom humor já estava em curva descendente, mas os longos anos de aprendizado com os tutores Kravmore o tornavam um gentleman. Cumprimentou da forma correta os Senhores Feudais Elfos que conversavam em sussurros em suas roupas finamente tecidas por artesãos de uma dimensão paralela. Eles estavam contidos, como sempre, seu entusiasmo pela Iniciação de Ferric escondido dentro de seus semblantes austeros. Deu a saudação formal aos Gerentes Anões, que estavam ali mais interessados em criar novas possibilidades de negócio do que em assistir a rituais de Carteadores. De todos os povos exilados da Guerra da Faeria, os Anões eram os mais adaptados à vida neste mundo: estava patente em seus ternos encomendados, seus relógios suíços, suas barbas escovadas com perfeição e sua pressa perene. Consultavam as horas, com impaciência, desejando poder saber o resultado da Bolsa de Tóquio ou o valor do dólar frente à libra naquele instante. Danov foi educado com todos, como deveria ser um representante de sua Casa. Até mesmo fez uma mesura diante do Líder da Matilha Inglesa, um Homem-Lobo de fraque completo, inclusive bengala e cartola. Havia outros, que ele não conhecia, e ele circulou entre todos.

Procurava Kira.

– Com licença, mas você não seria Peter Danov, o escritor?!

Uma fã? Seria possível. Fazia muito tempo que ninguém o reconhecia nas ruas. Talvez pelo fato que fazia muito tempo que ele não saía de casa. Olhou para ela e se espantou. Não porque fosse uma mulher extraordinariamente bela (e alta, mesmo que não estivesse de saltos), exuberante em seu vestido vermelho. Danov acreditava que seu tempo para apaixonar-se já havia passado. Seu espanto era porque ela não era Carteadora.

– Sim, sou eu.

– Oh, meu Deus! Você é um… Carteador?

Ele não podia acreditar. Ela parecia uma laica!

– Sim, novamente.

– Me desculpe, oh, meu Deus, estou tão nervosa. É que é tudo tão novo para mim! Peter Danov é um Carteador! Nossa! Eu li todos os seus livros, quer dizer, os dois, “Nove Portais para a Destruição” e “Nas Sombras” e adorei! Eu acabei “Nas Sombras” semana passada mesmo! E aqui está você, na mesma festa que eu e você é um Carteador! Nossa, como eu poso explicar, é tão… assombroso. Eu fiquei na dúvida se era você mesmo, a ilustração na capa dos livros não é muito bem feita. E você é mais alto do que eu pensei, deve ter quanto?, dois metros no mínimo. Porque você usa ilustrações na capa, porque não tira uma foto pro livro?

– Vampiros não saem em fotos.

– Ah, merda…

Jennifer engoliu uma frase no meio. Ele pôde sentir o sangue dela fugindo da face, como se um grande cartaz escrito “estou assustada” tivesse surgido em sua frente.

– Você veio com alguém, senhorita?

– Senhora. Jennifer Long. Estou com meu marido. Ele é um Fantasma, Carteador. Foi convidado. Com licença, acho que não estou passando bem….

Danov a viu se afastando e ficou se perguntando que tipo de fantasma traria a esposa laica para uma festa da Sociedade do Carteado. Perdera uma leitora, provavelmente. Queria ter dito alguma coisa para acalmá-la, mas sempre fora difícil explicar que sua espécie se alimentava da Vitae alheia. Poderia ter falado que, na verdade, só precisava fazer isto uma vez por mês e que agora não havia necessidade. Contudo, ele já percebera que isto não costumava tranquilizar ninguém. Os outros olhavam para ele e viam alguém que matava uma pessoa por mês. Todos os meses e seria assim por, pelo menos, três séculos.

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