Swantson estava isolada em um canto, encostada em uma árvore, com as mãos no bolso, esperando alguma coisa acontecer. Desistira de comer. Pensava em sua irmã e em como todos aqueles pretensos investigadores paranormais podiam não ter nem mesmo uma única pista do paradeiro dela. Ela morrera de câncer quando seu filho Christopher ainda tinha cinco anos. Por muito tempo, Swantson tentou manter um laço forte com o sobrinho e seguir a vida da melhor maneira possível. Mas Deborah fazia falta. Para ambos. Quanto mais Swantson se lembrava, mais seu amor por ela crescia. Ficava imaginando como teria sido se ela ainda estivesse viva e tinha certeza que todas aquelas coisas loucas que aconteceram depois não existiriam. Nada de Baralho, nada de assassinatos em série, nada de chantagens. Porra nenhuma. Seriam ela, Deborah e Christopher. Os últimos Swantson da América, tentando resolver seus problemas juntos. Treze anos não eram o bastante para ela esquecer ou parar de pensar: sua irmã ainda estava lá fora em algum lugar.
– A senhora é difícil de achar, senhora Swantson.
A voz vinha de seu lado esquerdo. Uma voz de velha. Respondeu sem se virar, mas seus dedos buscavam inconscientemente a coronha de um dos Colts.
– Não tanto quanto gostaria, Matriarca.
– Vejo que não há necessidade de apresentações, então. E vejo também que veio preparada.
Sotaque inglês por baixo da rouquidão da idade. Uma voz formal para uma chantagista
– Preparada para acertar as contas, Madame. De um jeito ou de outro.
Virou-se. Estava com os dois revólveres empunhados e apontava para a cabeça da Matriarca. As árvores encobriam o que estava fazendo. Estava afastada do núcleo da festa e já escolhera uma rota de fuga depois que os tiros ribombassem.
Matriarca aparentava ter mais de oitenta anos. Longos cabelos brancos despenteados se espalhavam por suas costas e uma infinidade de rugas marcavam seu rosto. Tinha olhos fundos que fitavam impassíveis os canos das armas. Vestia algo que deveria ter saído de alguma companhia teatral shakespeariana. E Swantson podia ver através dela.
– Sou um fantasma, senhora Swantson. Como a senhora já deve saber, balas não me afetam em nada. Sugiro que guarde teus brinquedos antes que alguém perceba. Posso te assegurar que, dependendo do sucesso de nossa missão, eles sequer serão necessários.
“Piranha morta”, pensou. Colocou as armas de volta nos coldres, contrariada. Sua mente já se adiantara, tentando recapitular o que poderia ferir um fantasma. Já tinha ouvido algo a respeito antes, mas não lembrava o quê. “Balas de prata?”. Não. Isso era para Licantropos. Era alguma coisa mágica.
– Não perca teu tempo imaginando formas de me machucar, senhora Swantson. Posso sentir teu ódio neste momento. Mas não quero que pense em mim como uma inimiga. Pense na Treasures & Secrets como uma oportunidade única. Eu serei tua sócia.
– Vá se foder.
– Atividades sexuais estão além de minha capacidade atual. Logo, ignorarei teu linguajar americano limitado e tua ofensa.
– Vá se foder, mesmo assim.
– Escute minha oferta primeiro, senhora Swantson…
– Você e sua empresa de merda mandaram um esquadrão da SWAT me pegar.
– Precisávamos avaliar tuas condições de cumprir tua parte no projeto.
– Como me descobriram?
– Isso é um segredo comercial. Não estou autorizada a revelar.
– Por que eu?
– A senhora é o melhor em teu ramo de atuações que tínhamos disponível.
– A única que vocês podiam chantagear, esta é a verdade.
– Se preferir.
Magia. Fantasmas podiam ser feridos com Magia. Bolas de Fogo, Relâmpagos, aquela pirotecnia toda. Mas apenas metade do dano normal, parecia. Não que fizesse diferença. Ela não sabia Magia e nem poderia aprender. Era uma das limitações do seu “ramo de atuações”. Tinha a vantagem de ser imune à Magia. Ou quase imune.
– O que você quer dizer com “temos informações plenas e comprovadas sobre seus verdadeiros pais”? É vergonha em seu mundinho de fantasma ser filha de uma professora e de um estuprador?
– Temo que a senhora não esteja de posse das informações corretas sobre sua filiação.
– Sou a cara da minha mãe. Não me venha com histórias.
– O segredo não envolve tua mãe. Mas teu pai.
– Eu tenho os olhos do meu pai. Eu vi as fotos. E de qualquer forma ele está morto. Morreu de frio, o pobre desgraçado.
De alguma forma que não conseguia explicar, sentia mais pena do que ódio do responsável por sua existência, nas raras vezes em que sua mente circulava em torno do assunto.
– Sim, ele está morto.
– Então o quê? Virou um Fantasma também? Mais um?
– Já estava morto quando engravidou tua mãe.
Tinha um tipo de espada que poderia cortar fantasmas da mesma forma que cortava os vivos. Esquecera o nome.
– Como? Acho que não estava prestando atenção.
– Eu disse que teu pai já estava morto quando violentou tua mãe.
– Agora você conseguiu me irritar. Explica… esta merda direito ou vou encher sua cara de bala, quer faça efeito ou não.
– Já ouviu falar de ATHROPOS, senhora Swantson?
– Não. Seu tempo está se esgotando.
– ATHROPOS é a personificação da inevitabilidade, o Caçador de Almas descrito no Necronomicon. Ele é o responsável pela destruição dos espíritos, tem a forma de todos os Medos, da Fúria e da Insânia, entidade de muitas capacidades. Imprevisível e incansável.
– E…?
– Ele é teu pai.
– Meu pai é um bêbado! Você mesma disse!
– James Summer foi vítima de um ataque cardíaco fulminante dois dias antes de teu destino cruzar o de tua mãe. Seu corpo foi possuído pelo espírito do Porteiro para que ele experimentasse os prazeres carnais novamente. Já havia sido feito antes e será feito outra vez no futuro. És filha de ATHROPOS, senhora Swantson!
A Matriarca apontava um dedo ossudo para ela e sua voz fugira levemente daquele tom formal que vinha seguindo até então. Ela enxergou uma mistura de ódio e medo no fundo dos olhos do fantasma. Mas não de mentira.
– Então, sou filha de… um Deus?!
– O Porteiro controla a passagem entre o Reino dos Vivos e o Reino dos Mortos. Ele persegue pessoas como eu no intuito de conduzi-las em uma viagem sem retorno para além do Ponto Cego.
– Desculpe, mas poderia explicar melhor para pessoas como eu, vivas?
– ATHROPOS é uma realidade com a qual todos os fantasmas precisam conviver. Em algum momento de nossas existências todos nós teremos que enfrentá-lo para garantir nossa permanência entre os vivos por mais um tempo. Ele nos caça. E sempre nos encontra.
– Azar o seu. Eu não tenho nada a ver com isto.
– Ele é muito poderoso. E tem muitos disfarces. Carteador, tem um Baralho poderoso. E é extremamente violento. Poucos conseguem escapar de suas garras.
– Como eu disse: azar o seu.
Swantson estava se aborrecendo com toda aquela história, ainda que uma parte dela começasse a questionar a sanidade da Matriarca. Porém, era impossível não perceber que a Matriarca estava se aborrecendo também.
– Será teu azar se todos os fantasmas do mundo descobrirem quem é a filha de ATHROPOS. Eles não vão chantageá-la, senhora Swantson. Vão sequestrá-la e utilizá-la como refém contra o Porteiro.
– Ele não parece ser o tipo que negocia com sequestradores.
– E não é. Ele certamente destruiria a senhora e o fantasma também.
– Mas apenas se alguém abrir o bico sobre isto, certo?
– Exatamente.
– Por que será que não estou convencida? Esta história toda parece fantástica demais.
– Mais fantástica do que a senhora ser um servo de Anúbis, o Deus-Chacal da morte? Mais fantástica do que a senhora conseguir manifestar um Baralho espiritual que, entre outras coisas, permite que a senhora ressuscite? Mais fantástica do que os Elfos e Anões aqui reunidos, exilados de um outro universo? Mais fantástica do que…
– Está bem. Pode ser verdade. Mas é difícil de engolir de uma vez só.
– Todos os fantasmas que existem temem e odeiam ATHROPOS. Acontecerá o mesmo com a senhora.
Precisaria com urgência daquela espada que corta fantasmas. De preferência, para aquela noite.
– Então, eu trabalho para você, para sua empresa, e vocês ficam de boca fechada.
– Correto.
– Por enquanto.
– Teus préstimos não serão necessários no futuro. Se formos bem-sucedidos hoje.
– E o que vamos fazer? Matar alguém?
– Não. Será um processo de extração de recursos.
– Como assim?
– Eu, a senhora e o nosso terceiro sócio iremos roubar Sutterville Dream.

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