Volume 1 – Carta 12

Dylan encarava o vampiro do outro lado do jardim. Jennifer ficara mesmo impressionada com o tal de Danov. Não era para menos, o outro tinha dois metros de altura, corpo de zagueiro de futebol americano e trazia uma espada nas costas. Pela aparência, era um Kravmore, a única Casa cujos membros fugiam daquele estereótipo de criaturas pálidas e anoréxicas que era a norma entre os demais. Alguma coisa na água da Escócia talvez. Mas sua preocupação era exagerada. Os Kravmore, fora de um campo de batalha, eram pacíficos e até educados. E Dylan já deixara de achar perturbador dividir o ambiente com um ser que mata para sobreviver. Perdem-se certos receios depois que se morre. Não que vampiros fossem santos, não tinha sido o Ás de Espadas responsável por sua morte? Mas aquele escritor ali não exalava perigo. Peter Danov. Dylan não gostava muito de literatura de terror. Bastava sua vida. E a pilha de roteiros que batiam na sua porta todas as semanas.

Jennifer já ficara mais relaxada. Decidira experimentar um daqueles licores coloridos feitos de frutas mágicas e agora estava conversando com duas senhoras elfas que acabavam de chegar. Falavam de moda, encontrando pontos em comum entre Beverly Hills e a Terra dos Elfos por mais incrível que pudesse parecer.

Dylan estava circulando, tentando encontrar algum rosto conhecido entre os convivas e nem escutou quando a música começou. Mas em instantes os pares se formaram e passaram a dançar uma valsa vienense, habilmente executada por uma pequena orquestra que se instalara em um palco improvisado. Perdeu sua orientação no meio dos casais e foi atravessado algumas vezes por pessoas que não sabiam de sua condição. Era um de seus temores: que um câmera ou um iluminador, ou mesmo um ator, o tocasse sem querer e descobrisse a verdade. Tinha a fama de excêntrico, de evitar contato humano, o que, no mundo de excentricidades que era Hollywood, era considerado normal. Naquela festa, podia baixar a guarda e transitar mais livremente. Ninguém se espantava.

Contudo, foi tocado. De verdade. A mão pousada em seu ombro assustou-o mais do que podia prever. Era algo que seu corpo já esquecera. Virou-se e a viu. Uma fantasma. Muito translúcida, quase feita de fiapos esbranquiçados esvoaçados por um vento invisível. Flutuava alguns centímetros acima do chão e trazia consigo um olhar de profundo desalento. Seria uma aparição, um fantasma recém morto?

– Não queria assustá-lo.

– E quem disse que eu estou assustado?

Os dançarinos passavam ao redor deles e através deles. Foi assaltado por uma rápida sensação de não estar ali de verdade, mas sonhando em sua cama na casa de seus pais, vinte anos atrás. Manteve a postura. Como sempre.

– Faz tempo que eu não encontro outro… fantasma. Pode me chamar de Dylan Carmichael, ou só Dylan.

– Deborah. Deborah Swantson.

– Morreu de quê?

– Câncer.

– Péssimo. Fui assassinado, é uma longa história.

– Imagino que sim.

– E então? Gostando da festa?

– Não fui convidada.

– Já aconteceu muito comigo. Mas não ligue, depois você se acostuma. Ou eles começam a te convidar.

– Eu preciso de você.

– Sou casado. Está vendo a aliança?

Ela riu e, por um segundo, ficou bela. Logo em seguida, a máscara de tristeza retornou para o mesmo lugar, inalterada.

– Eu também sou. Ou era. Não seja tolo. Não é sobre isso.

– E seria sobre…?

– Preciso que leve um recado para minha irmã.

– Por que você mesma não leva para ela? Sem querer ser mal-educado, veja bem.

– Ainda não estou preparada para encontrá-la. Faz muito tempo desde a última vez.

– Você precisa fazer um esforço. Não é fácil, eu sei. Mas tem que encarar o problema de frente. Seja forte, Deborah.

– Não diga mais nada. Obrigada, encontrarei alguém que possa me ajudar.

– Espere.

Segurou o braço dela. Era bom segurar alguém depois de tanto tempo. Como gostaria de poder fazer o mesmo com Jennifer. Largou como se tivesse apertado uma serpente, antes que voltasse a se acostumar com a sensação.

– Sim?

– Eu levo o recado. É só me dizer quem é ela.

– O nome dela é Josephine Swantson. Está vestindo um capote marrom, tem mais ou menos a sua altura, cabelos e olhos castanhos.

– Humana, vampira ou o quê?

– Ele é uma Serial Killer.

– Uma família complicada…

– Ela se transformou depois que eu morri. Bem depois.

– Então, o que você quer que eu diga para ela?

– Diga para ela parar de me procurar. Diga que eu a amo muito ainda e será tão sempre quanto for minha existência. Diga que eu estou olhando pelo meu filho, cuidando para que nada de mal aconteça a ele.

– Ainda acho que você devia dizer pessoalmente.

– Eu não posso ficar.

– Se for por falta de convite… eu posso falar com Pharad e …

– Nem você.

– Por quê?

– ATHROPOS está aqui.

Dylan precisou de um esforço muito forte para manter a compostura. Enfrentar o Porteiro era o tipo de situação que poderia estragar uma noite de festa. Permanentemente, inclusive.

– Tem certeza?

– Eu posso senti-lo. Você não?

– Deixei meu detector de Porteiros no hotel.

– Estou falando sério. Ele está aqui. Haverá morte esta noite. Leve a mensagem a minha irmã e saia o mais rápido possível, Dylan Carmichael.

– A festa está apenas começando… não acho que o Concílio convidaria o Porteiro.

– E nem a mim. Mas estou aqui, não?

Ela se afastou, flutuando de costas como alguns fantasmas sabiam fazer, se misturando com os dançarinos e com a música, desaparecendo tão rápido que Dylan nada mais pôde fazer a não ser ficar pensando.

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