É a terceira manhã de dezembro e eu estou sentando na cozinha esperando a água da chaleira ferver. Ainda uso as mesmas roupas com que fui à Faculdade ontem. Na verdade, dormi com elas. Estou calçando os chinelos-de-Garfield de Judith. São tudo o que restou dela neste apartamento. Meus pés sobram. Gostaria de experimentar um pico para ver se preencho o vazio que Judith deixou nas minhas veias. Mas ela também levou seu kit-cocaína consigo. Não restou nada. Nem uma grama. De qualquer forma, seria uma idéia estúpida. Se eu entrar em overdose, quem irá me puxar de volta?
Na semana passada, eu escrevi que não amava Judith, mas não lembro em que página foi e agora entendo que há outras forças atando as pessoas, algumas mais poderosas que o Amor. Esse apartamento envelheceu dez anos. O papel de parede descola.
Eu poderia descobrir onde ela está, usando seus chinelos. São objetos de uso pessoal. Seria um encanto simples. Não levaria mais do que cinco minutos. Mas localizá-la não é o mesmo que tê-la de volta.
A água ferve, preparo um chá de hortelã. Se eu entrar em depressão, quem irá me puxar de volta?
Eu tento ver o rosto de alguém nas folhas que flutuam na xícara.

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