Zero-23

Estou falando pelo telefone com o traficante de Judith, um sujeito yuppie da Zona Alta da cidade que enriqueceu mais rápido do que pode gastar sem precisar completar faculdade. Ele tenta me convencer que está atrasado para uma festa importante e que Fulana de Tal das passarelas vai estar lá. Eu digo para ele esquecer a merda da festa e me ajudar. Judith está encolhida no piso da cozinha com os lábios azulando e uma seringa pendurada na veia do braço esquerdo. Ele diz que não a conhece e não tem nada a ver com isso e eu quase posso vê-lo olhando as horas no Rolex que meu pai pagou. Eu pergunto se ele tem uma injeção de adrenalina, porque eu vi “Pulp Fiction” e sei que todo traficante tem uma pros casos de overdose, mas ele não viu o filme, não sabe quem é Quentin Tarantino e está atrasado para foder o rabo de uma supermodelo em troca de algumas gramas de pó branco. Ele diz para eu dar um banho de água fria e um pouco de café para ela, mas eu argumento que ela não está bêbada. Ela está morrendo em minha cozinha. Ele não gosta de que eu o contradiga e se despede dizendo que minha melhor chance é rezar. O ruído de discar me lembra que eu tenho plano de saúde e, mesmo que Judith não seja minha esposa, irmã ou filha, eles vão ter que ajudá-la. Mas não há tempo para recepcionistas, números de série e tudo mais. Meu cartão é Blue, Extra ou Gold? E eu penso no meu pai recebendo a fatura da internação. O traficante estava certo. Minha melhor chance é rezar.

Eu retiro o Livro de Francine de seu esconderijo e entrego a sorte de Judith à Magia.

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