Zero-22

Quarto de um motel. Dois anos atrás. Quando contei para Francine que era virgem, ela inicialmente não acreditou, depois acendeu um cigarro e ficou soltando nuvens de espanto em direção ao espelho do teto. O ar-condicionado zumbia como um grande besouro de metal enferrujado e eu estava ficando com frio, embora nós estivéssemos ainda vestidos. Ou quase. O lençol azulado era fino como a asa de uma libélula. Finalmente, ela disse:

– Eu devia ter imaginado. Você gasta a maior parte do seu tempo em frente da televisão, invariavelmente sintonizado na MTV, e utiliza os intervalos para escrever em qualquer pedaço de papel a primeira coisa que lhe vier à cabeça – sua voz estava rouca, talvez por causa do mata-rato que estava fumando (única marca vendida na recepção) ou por causa do frio crescente no quarto. Mas, na verdade, era o seu tom de voz mais agressivo. Ela continuou – Desperdiçando seu tempo dessa forma, você nunca vai conseguir alcançar seus objetivos. Seus sonhos.

– Eu já corri atrás dos meus sonhos. Mas não alcancei.

– Lim de novo… Sabia que você, que é normalmente bem-articulado, fica parecendo um idiota quando fala dela? E todo mundo que a conheceu é unânime em afirmar que se você tivesse se empenhado de verdade teria conseguido levá-la para cama. Barnhard conseguiu.

– Esse não era o meu sonho. Eu queria ser amado. De verdade.

Pensei em lhe pedir um cigarro naquele momento, mas não tinha certeza se meus pulmões recém-iniciados iriam suportar aquela marca.

– “Ser amado. De verdade”.É… você tem sonhos muito especiais, Franz. E é isso o que eu gosto em você – ela sorriu, maliciosa – E como eu sempre vou atrás dos meus sonhos…

Ela deitou-se ao meu lado, seu rosto a poucos centímetros do meu, o cigarro esquecido entre os dedos. Senti coragem para mencionar outro assunto que também me incomodava:

– E quanto a Timothy? Ele também é um dos seus sonhos?

Ela virou-se de costas para a cama, soltou uma última baforada em direção ao espelho e apagou o cigarro no cinzeiro da mesinha ao lado.

– Se a idéia de estar traindo Timothy nesse quarto excita você, a mim não provoca a menor reação. Primeiro porque minha relação com ele é muito diferente do que você e os outros estão imaginando. Nós não temos nenhum compromisso um com o outro. Segundo, o que quer que nós façamos aqui ou continuemos a fazer não irá alterar meu sentimento por ele. Eu o estimo muito. Somos irmãos, com laços muito mais fortes que o sangue. Você entendeu, Franz?

– Isso significa que vocês nunca dormiram juntos?

– Nunca. E essa foi uma pergunta muito estúpida.

Eu me levantei e fiquei sentado na cama. Nada estava dando muito certo naquela noite.

– Eu queria estar entre vocês. Timothy e você parecem partilhar de uma cumplicidade que nunca poderei conhecer. Sei que não conseguiria ser tão franco quanto vocês.

– Não se menospreze, Franz. Você já está entre nós. Confiamos em você, não importa o que você esconda ou possa esconder de nós.

– Gostaria de poder me expor. Queria ser seu irmão também.

– Você pode.

– Não da mesma forma que… Porque é tão difícil?

Eu me deitei novamente, mas tentei não olhar para ela. Francine, entretanto, estava refletida em toda parte e tinha uma expressão muda no rosto. Durante longos minutos, ninguém disse nada. Então, ela sorriu umas mil vezes e começou a rir. Ela rolou para cima do meu corpo, ainda rindo e era belíssima. Timidamente, sorri e perguntei porque ela estava rindo.

– Porque nós dois somos um par de intelectualóides pós-modernos de merda! Já estamos há mais de meia-hora aqui, entre espelhos, taças de champanhe barato, lençóis de cetim, vídeo-privê, almoço executivo, hidromassagem e outros confortos burgueses decadentes e tudo o que fizemos até agora foi “discutir a relação”!

– Se você quiser, podemos trepar então!

– Para um virgem, até que você tem uma boca bem suja. Eu não gosto dos termos “trepar”, “foder”, “bimbar” ou “comer”, OK?

– Nós fazemos o quê, então? – perguntei, entre um beijo e outro – “Ralar a ricota”? “Molhar o biscoito”? “Afogar o ganso”?

– Vamos “fazer amor” – ela respondeu à pergunta e aos meus beijos.

– Ninguém usa mais esse termo hippie desde que Charles Manson e a sua “Família” mataram Sharon Tate e o sonho hippie no início dos anos setenta. – disse, enlaçando sua cintura com abraço forte feito alicate.

– Na verdade, o sonho hippie só acabou definitivamente quando Mark Chapman baleou John Lennon, no início dos oitenta – ela retrucou em meu ouvido enquanto suas unhas arranhavam minha nuca.

– …

– Merda!

Ela se soltou de mim como se tivesse mergulhado em água fervente.

– Não dá para continuar. Sinto muito, Franz. Mas não dá para continuar.

– Porquê? O que… o que houve? Foi algo que eu fiz? Francine, por favor, eu preciso de você.

– Não diga essa frase, por favor! Eu não quero ouvir isso!

– O que está acontecendo? Francine, o que está acontecendo? Por favor, me conte!

– Eu menti.

– O quê?

– Eu menti para você. Não posso começar um relacionamento contando mentiras. Não seria correto. Escute, Franz: eu menti quando disse que nunca dormi com Tim.

– Dane-se o correto. Poderia continuar mentindo.

Ela agora estava sentada de um lado da cama, abraçando os próprios joelhos e eu estava sentado do outro lado, sustentando meu queixo com as mãos e olhando o buraco feito no carpete por algum cliente antigo que deixou cair um cigarro aceso no chão.

– Eu preferia que você não encontrasse mais com ele se quiser ficar comigo, Francine – minha voz estava uma oitava abaixo do normal, no mesmo tom usado por meu pai para fazer discursos que ele julga importantes. Odiei o que disse e mais ainda por instintivamente copiar meu pai.

– Não me peça isso, Franz.

– Eu preciso de você para mim. Será possível que eu não consigo um envolvimento concreto?!

– Há tanto egoísmo em suas palavras.

Seu olhar era triste e pude compreender que não era o único no mundo a ter mágoas. Ela virou o rosto, me aliviando do tormento de descobrir de onde vem as lágrimas e me permitindo notar que o buraco no carpete ainda estava lá. Porém, sua voz entrou em um ritmo que eu nunca ouvira antes, e, somente meses depois, pude identificar como sendo de sua mãe depois da segunda dose de sidra. Era, então, uma reunião de família.

– O que você sabe de envolvimentos, Franz? Já se apaixonou duas vezes, não foi correspondido e faz carreira em cima disso. O que você acha que eu sou? Uma página em branco para que você se rascunhe com tintas indeléveis ou uma personagem mítica e maravilhosa que irá passar litros e litros de Liquid Paper na sua vida e te amar para sempre? Eu também sei o que é sofrer pelo coração. Sofria antes de você surgir na minha vida e continuarei sofrendo quando você se for.

Permaneci calado, humilhado pela minha própria condescendência. Ela aproveitou para tomar fôlego:

– Antes do “Círculo Interno”, eu amava Eugene.

– Eugene…?

– Ele e Alice representavam tudo o que eu queria ser: livres, apaixonados, vivendo ao sabor do vento em seus cabelos quando a moto seguia rumo cego pelas avenidas e vielas. Eles eram beatniks e eu somente mais uma colegial suspirante, saciando meus sonhos com o perfume masculino de sua jaqueta. Dentro da minha cabeça, eu construía mil histórias onde Eugene seria meu e Alice seria descartada para que pudéssemos ser felizes. Eu não a odiava. Nunca. E como poderia? Ela era um símbolo, uma bandeira desfraldada pela qual eu combateria pai, mãe, Igreja, escola, tudo. Eles me iniciaram na arte da poesia. Ela me ensinou como me vestir para não parecer mais uma adolescente sócia do shopping center, ele me indicou livros muito mais interessantes do que os clássicos das aulas de Literatura. E eu nada dizia sobre meus sentimentos para evitar perder o pouco que conquistara. Quando Alice morreu naquele acidente de moto… eu senti tanta culpa…

– Mas você não tinha culpa alguma, Francine.

– … porque eu achava que Eugene poderia ser meu. Eu achava e não queria achar. Descobri que Alice faria muito mais falta do que eu tinha imaginado. Muito mais. Ela fazia parte daquele Eugene que eu amava, um fragmento importante dele. E eu também gostava dela. Mas o que aconteceu com Eugene foi ainda pior. Ele também morreu naquele acidente. O beatnik brincalhão que eu amara estava morto. Fiquei por perto para oferecer meu consolo e, de certa forma, para me punir por ter ousado invejar sua felicidade, mas não consegui vencer os demônios que devoravam minha alma, não pude confortar Eugene. Durante muito tempo, ele sequer me enxergava. Depois, ele começou a praticar Magia. Não acreditava mais em Deus, nem em ninguém. Ele mudou e agora eu acho que não gosto como ele é. Mas não tenho coragem de abandoná-lo.

Francine se calou. Eu olhei para ela e ela tremia como uma criança com frio. Tentei abraçá-la, mas ela sacudiu os ombros e recuou.

– Quer que eu vá embora? – eu perguntei.

– Não. Fique.

Ela segurou minha mão e assim ficamos até terminar o horário.

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