Judith não tem a menor idéia de como eu a salvei da overdose e não pretendo contar. Primeiro porque ela não acreditaria. Segundo porque há quartos na mansão da minha vida que pretendo manter fechados.
Desde então, ela vem tentando se manter “careta” e eu aprecio seu esforço. Às vezes, suas mãos tremem quando estou por perto e ela está fumando mais do que fumava antes. E engordou também. Minha preocupação é em relação ao que acontece quando eu saio para a faculdade. Ela largou o emprego que tinha numa loja de surf wear e passa o dia inteiro de pijamas jogando “Sonic” ou gastando a pilha do controle remoto da televisão.
Estou escrevendo neste momento sentado na murada do segundo andar de uma lanchonete nova chamada Palace of Brine que fica defronte a nossa antiga escola. Judith nunca sai de casa, mas ainda assim descobriu este pequeno paraíso da pizza e do suco natural. O céu está limpo e sem nuvens e um sol agradável brilha sobre nós. Segundo a meteorologia, é um suave prelúdio para um inverno muito frio. Judith cortou o cabelo bem curto e tingiu de preto e, principalmente agora, vestindo uma bermuda larga de flanela furtada de sua antiga loja e uma camisa das Babes in Toyland que eu dei para ela, Judith fica parecendo uma rata de praia e não destoa da garotada que está saindo agora do colégio. Olho para ela e para os estudantes e sei que já é tarde demais para mim. Acabei de voltar de outra entrevista frustrante em outra agência de publicidade e meu portfólio fotográfico jaz ao meu lado. Estou usando gravata, odeio, mas não encontro forças para tirá-la. Apesar disso, é um dia bonito e Judith está ouvindo The Clash no walkman enquanto nós dividimos uma vasilha de pipoca e um super-big copo de Seven-Up. Ela consegue conversar com fones de ouvido, uma habilidade que perdi:
– Sabe de uma coisa que eu detesto? Eu detestava quando acordava cedo pro colégio, as ruas estavam úmidas de orvalho e fazia um frio do caralho. Então, minha mãe me obrigava a botar um casaco horroroso, verde com listras vermelhas. Era realmente uma merda porque, quando chegava a hora do recreio, o Sol já estava mais forte e esquentava. E quando as aulas terminavam, eu estava suando, abafada dentro daquela monstruosidade. Eu tirava o casaco e saía com ele pendurado na mochila e era engraçado porque todo mundo nas ruas estava de bermuda e camiseta e só a babaca aqui carregando um casaco, verde com listras vermelhas. E, no dia seguinte, era a mesma coisa.
– Eu lembro daquele casaco. Você ainda o tem?
– É claro que sim.
Vimos alguns estudantes saindo com casacos presos na mochila. Eu tinha esquecido como, apesar daquilo, éramos barulhentos e engraçados.
Judith me pergunta se eu tenho visto mais alguém da Classe de 92. Conto a ela que Barnhard Rémy é agora gerente-júnior de um Subway no centro da cidade, mas ela franze a testa de um jeito que não consigo interpretar. Alekssandri Pavlovitch trabalha como representante comercial de uma fábrica de tratores, consegue levantar uma boa grana no final do mês e me disse, com indisfarçável orgulho, que sua cota de vendas foi uma das sete maiores do estado no mês de Novembro. Ela murmura que sempre esperou esse tipo de futuro para Alekssandri. E finalmente pergunta como foi minha entrevista. Eu digo que, para felicidade dela, continuarei como um artista marginal livre das garras do sistema. Judith não percebe o sarcasmo.
“Should I Stay or Should I Go?”

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