Volume 1 – Carta 17

Um breve ruído de microfonia antecedeu Pharad. Os olhos de todos se voltaram para o homem ao microfone, seu anfitrião e membro do Concílio dos Cinco.

Danov abriu passagem entre os convidados, tentando se aproximar do palco. Já estava na festa havia mais tempo do que desejava, ainda não vira nem sinal de Kira e não conseguira falar com Pharad. Sentia-se deslocado, sem assunto para conversar com quem quer que fosse. Autografara dois livros a contragosto e quase se exaltara com o Rasputin. Não tinha fome, nem sede. Mas pressa. Pressa de resolver logo tudo aquilo antes que o desespero tomasse conta de seus pensamentos. Já estava duvidando de qualquer chance de Kira ser sua irmã ou encontrar a menor pista do paradeiro de seu pai. Era uma busca infrutífera de anos, décadas e culminava ali, no meio da paisagem campestre do interior da Inglaterra. Se agarrava a um boato sutil colhido por um amigo distante milhares de quilômetros. Nada mais possuía, exceto a vontade de descobrir a verdade e ir embora.

Não podia dizer o mesmo de Chinoko. Circulando a esmo na festa, Danov esbarrava com ela em todos os cantos, ora conversando com exilados da Faeria, ora conversando com outros licantropos, ora dançando com pares diferentes, ora bebendo. Sempre radiante, ela sorria para ele como que para encorajá-lo. Aquele era seu ambiente, seu prazer, sua redenção após tanto tempo confinada como animal enjaulado, bibelô de vampiros, “bibelô precioso de Danov”, ele se flagrou pensando. Nada a abalava, nada a fazia remover os óculos escuros e expor ao mundo a primeira cicatriz que conseguira ao proteger seu “pequeno filhote”. Ele a invejava. Invejava sua capacidade de atravessar a nado o mar de lama em que sua vida se transformara e sair imaculada do outro lado. Invejava seu sorriso maroto, seus banhos de sol no pátio, o som de sua voz e, acima de tudo, sua coragem. Chinoko sabia se divertir, aproveitar cada minuto de paz que podia ser lhe dado. Mas ele não. Estava ali com uma missão. Como sempre.

Quando Pharad iniciou seu discurso de boa-noite, Danov já estava próximo o bastante do palco para poder cercá-lo depois que descesse.

– Antes de mais nada, gostaria de desejar boa-noite a todos com quem eu ainda não pude falar pessoalmente e agradecer a presença de cada um. Sou muito grato a vocês. Vocês representam a nata da Sociedade do Carteado, os melhores entre seus pares. Ou isso, ou entrei na festa errada.

A plateia ri, como esperado. Pharad geralmente gostava de quebrar os protocolos e a maioria dos presentes sabia e tolerava suas brincadeiras.

– É. Acho que estou na festa certa. Como estava dizendo, sou muito grato a vocês. Sua presença só pode engrandecer um momento que por si só já é magnífico. Estamos juntos hoje para celebrar a Iniciação de três pupilos meus. Como todos sabem, não é comum, para mim, escolher e treinar pessoalmente Carteadores. Não é uma tarefa com a qual eu estou acostumado. Sempre coube ao Concílio dos Cinco recrutar e aperfeiçoar os talentos de novos Carteadores, ensinar-lhes os mandamentos sagrados da Fonte, incutir respeito e domínio em suas almas. E como Membro do Concílio, não pude me furtar a esta obrigação. Foi, contudo, com imensa satisfação que eu selecionei estes três. São três seres de uma qualidade ímpar, cujo treinamento me causou somente felicidade e orgulho. E hoje é o dia em que eu admito: nada mais tenho para ensinar-lhes, são mestres em sua arte, estão prontos para nossa Sociedade!

Uma enxurrada de palmas o interrompeu. Danov suspeitava que esta última frase não fosse inteiramente verdadeira. Pharad era considerado o melhor Duelista vivo e era muito pouco provável que tivesse ensinado todos os seus truques para seus pupilos. Nem seria seguro.

– Bem, talvez eu tenha exagerado sobre não poder ensinar mais nada para eles, mas posso garantir: estes três são bons, muito bons e vocês irão poder testemunhar este poder dentro em breve, quando a Iniciação se completar. Kira, Ferric e Nicholas Smith, sejam bem-vindos ao nosso meio. E que a glória da Fonte os acompanhe por toda a eternidade!

Novos aplausos e, ao contrário do que Danov imaginava, nenhum dos iniciados apareceu para receber a homenagem. Ainda não era a hora. Pharad se afastou do microfone, ovacionado.

Danov percebeu o anfitrião olhando diretamente em seus olhos e o viu se aproximar com determinação e um sorriso, ignorando outros convidados que buscavam sua atenção:

– Peter Danov! É uma honra conhecê-lo.

Ele apertou sua mão e havia uma sinceridade neste gesto e nestas palavras que Danov não encontrara ainda em lugar algum daquela festa.

– Sou um fã de seus livros, senhor Danov. “O Iluminado” é arrepiante!

– Eu não escrevi “O Iluminado”. Foi Stephen King.– um amargor subiu em sua garganta. Não era a primeira vez que confundiam.

– Eu sei. Estou brincando, para quebrar o gelo… Você escreveu “Nove Portais para a Destruição”. História fantástica. Aconteceu mesmo?

– Sim. Em Milão. Na verdade eram oito portais, mas meu editor disse que “oito” não tinha o mesmo impacto que “nove” e eu mudei algumas coisas na história.

– O Octodromo de César, então… pensei que estivesse perdido!

– Agora está.

Danov se permitiu um sorriso. Em poucas palavras, Pharad tinha penetrado em pelo menos uma de suas muitas defesas.

– E tem notícias dos seus companheiros?

– Jack O’ Lantern se aposentou. Dirige um bar em Belfast. O Homem Sem Rosto desapareceu como sempre faz. Acho que ainda está na ativa. Eldritch voltou para Berlim e ajuda a polícia local a vigiar o Muro.

– Os “London Boys”. Tenho saudades daqueles tempos, senhor Danov. O Mundo Ausente era mais, como direi, romântico, não?

– É uma ilusão.

– Talvez. Talvez seja mesmo.

– Meu avô manda lembranças. – Danov mudou de assunto.

Pharad pareceu parar por um segundo para avaliar a melhor resposta. Ou seria um novo ataque de nostalgia?

– Faz tempo que eu não o vejo. Preciso fazer uma visita ao castelo.

– Estou aqui com um propósito. E tenho pressa, se me permite. Tenho uma pergunta para o senhor…

– Posso imaginar sua ansiedade, senhor Danov. Mas não há necessidade de se usar “senhor” comigo. Chame-me de você ou Pharad, mesmo. Não sou um homem de pompa e valores aristocráticos. Minha família era humilde.

– Chame-me de Danov, então. Se gosta dos meus livros.

– Eu adoro.

– Mas minha pergunta, Pharad, é se…

– Se Kira é sua irmã, filha de Duncan McAllister.

– Então, o senhor sabe!

– Cuidado, Danov. Eu sei de sua pergunta. Mas não sei de sua resposta.

– Não entendo.…

Desta vez, Pharad é que pareceu mais desarmado, mais afetuoso, se isso era possível.

– Considerando as circunstâncias polêmicas de seu nascimento, Danov, achei por bem tomar certas precauções antes de levantar a hipótese de Kira ser outra filha de Duncan. Sua Casa não precisa de outro escândalo. Não é do interesse de ninguém colocar mais lenha nesta fogueira. Então vou ser franco e direto com você: eu não sei se ela é ou não sua irmã. Foi para dissipar esta incerteza que eu convidei seu amigo Eldritch para a festa. Ele é neutro o bastante para não ser influenciado nem por suas esperanças nem pelos temores dos outros Kravmore. Além de ser um especialista na sua família, é claro. Eu acreditava que ele poderia esclarecer este caso para nós. Mas vejo que ele preferiu enviar você em seu lugar.

– Pelo menos, ele foi sensato o suficiente para me avisar.

– Por que eu não posso vê-la?

– Quem disse que você não pode vê-la? Ela apenas ainda não terminou de se arrumar. Sabe como são as mulheres para festas. Principalmente as vampiras.

– Então, eu a encontrarei.

– Mais do que isso. Você irá duelar com ela durante a Iniciação.

– Mas…

– Não conteste. Que ocasião melhor para vocês dois se conhecerem, as duas almas expostas, sem mentiras, duelando em uma esfera astral? Terá todo o tempo do mundo para tirar suas próprias conclusões.

– Mas o que te fez pensar que ela poderia ser minha irmã?

– Ela veio do Oriente. Na verdade eu a comprei em Hong Kong, de um mercador de escravos há um ano atrás. Ela tinha acabado de ser abençoada pela Fonte e o vendedor estava louco para se livrar dela. Se ninguém a comprasse o certo é que a teriam matado quantas vezes fosse necessário até que o Baralho dela zerasse.

– Escrava? Mas como? Estamos no século XX! Como conseguiram? Ela não é vampira?

– Não há século XX em alguns cantos deste mundo, Danov. Infelizmente. E os Homens-Tigre tem muitas formas de torturar seus inimigos… No início pensei que ela fosse Rasputin, uma prisioneira de guerra da fronteira com a China. Mas não. Sua estrutura óssea é um pouco mais rígida do que a média. E ela é alta. Alta e forte como um Kravmore. Diz que foi criada desde pequena como escrava e não se lembra de outros vampiros. Pelo que eu pude pesquisar ela veio de uma aldeia do interior da
China. Como você.

– E você … a comprou?! Como pôde…

– Eu tinha duas alternativas: destruir o traficante de escravos e seus guarda-costas ou comprar a coitada. Eu estava com muito dinheiro comigo. Adivinhe o que fiz. Ela é livre agora, Danov. Livre e treinada para nunca mais se deixar apanhar. Quer um conselho, Danov?

– Acho que não.

– Mas vou lhe dar assim mesmo. Seja gentil com Kira. Ela não sabe que talvez tenha uma família. E digo mais: ela precisa de uma. Não que não tenha encontrado aqui todo o conforto e carinho que um homem ocupado pode dar, mas ela vai precisar de uma família de… pessoas como ela.

– Eu esperava encontrar uma certeza aqui e não outra pergunta.

– Julgue com o coração, Danov. Ele lhe dirá se ela é ou não sua irmã. Mas tenha em mente o seguinte: pouco importa a conclusão a que você chegue. Você será cobrado por ela. Não por mim, que não estou aqui para cobrar nada de ninguém, mas por aqueles que acreditarão que sabem mais do que você. Diga que ela é sua irmã e terá que enfrentar cada Kravmore que exigir provas para abafar mais esta história. Diga que ela não é e será a mesma coisa. É por isso que eu preferia que este julgamento fosse feito por alguém com menos emoções envolvidas. Mas se Eldritch escolheu assim… devo confiar na decisão. Está em suas mãos agora, Danov.

– Compreendo agora. E o que você gostaria que fosse?

– Eu criei esta menina em minha casa durante um ano, Danov. Ela é adorável. Impetuosa pela idade, raivosa pelo seu passado, mas ainda assim adorável. Só posso desejar a ela o melhor dos destinos.

– E qual seria?

– Esta resposta eu também não tenho.

Pharad fez uma mesura e se afastou. Para Danov, agora, a festa estava começando.

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