Volume 1 – Carta 33

Uma da manhã. O relógio ao lado da cama parece ser uma refinada obra de relojoaria antiga, um precioso e preciso objeto construído por mãos habilidosas muito tempo atrás. Sua estrutura original de madeira foi substituída por um tipo de cristal translúcido, uma prova de que a peça não fora montada naquele plano de existência. Tamanha delicadeza de traços em cristal só poderia ser obtida por um mestre elfo, rigoroso nos detalhes e obcecado pela perfeição. Os mecanismos que movimentam o relógio estão expostos e formam um balé perpétuo de primor, um instrumento que nunca perdera sua exatidão. Ele marca uma da manhã. Danov está há sessenta minutos sentado em uma cadeira de ferro de frente para o relógio apenas observando o pêndulo se movimentar.

Não há nada de madeira no quarto. A cama é feita de metal, assim como as cadeiras e a penteadeira. O relógio é de cristal. A porta é uma antiga e robusta porta de ferro que talvez já tenha sido usada em uma masmorra faérica. As janelas são de alumínio e vidro. Não há armários, apenas uma série de ganchos de mármore fixos na parede para pendurar as roupas. Mas Danov está totalmente vestido, sentado, olhando o tempo passar.

Tudo no quarto foi pensado para alojar um vampiro. Nada de madeira que possa, mesmo por acidente, machucar. A janela está posicionada de forma que o Sol nunca incida diretamente dentro do quarto e com pesadas cortinas de veludo negro que podem ser corridas com um simples puxar do cordão. Danov poderia passar um bom tempo hospedado ali sem preocupações. Mas ele não está interessado nisto. Pretende partir tão logo consiga falar novamente com Pharad. Até lá vai ficar observando o relógio.

Não há espelhos no quarto. Foi uma exigência de Danov, mas Pharad já sabia. Era tudo o que Danov queria daquele quarto: não precisar ter receios de seu reflexo ganhando vida e tentando destruí-lo. Ele fez inimigos estranhos na curta vida que teve até agora. A Dama dos Espelhos, Senhora do Reino Invisível era um dos mais vingativos.

Chinoko dorme em outro quarto. Ou conseguiu alguém, não seria surpresa para ele. Ela tinha charme e o fogo natural das mulheres de seu povo. E muito poucas oportunidades para se soltar no velho castelo Kravmore. Danov não se importa. Não há necessidade de se preocupar. Chinoko já demonstrou no passado que era capaz de suportar qualquer violência, fosse física ou social, e dar o troco quando quisesse. Se não fosse por sua coragem, Danov seria o cadáver de um bebê gelado na neve da Finlândia.

A espada, repousada ao lado da cadeira, não o deixa esquecer desta parte da história. Não que ele pudesse. Escarlate e branco são suas primeiras recordações e as mais indeléveis, não importa o quanto ele viva, não importa o quanto ele veja. E a cada vez que ele relembra dos fatos, sentado, esperando, sua mente retorna aos momentos do combate com Kira. E se pergunta: “Será?”. Suas esperanças no passado foram poucas e sempre vãs, mas isto não reduz a ansiedade. Não reduz o peso amargo da vitória e nem o fluxo de pesadelos que percorre seus olhos turvos pela vontade de chorar. Um murmúrio foge de seus lábios e forma a palavra “pai”. Duncan. “Além de qualquer ajuda”, eles disseram. Mas existiriam outros? Teria sido Duncan McAllister abençoado duas vezes com a fertilidade tão rara? Por tudo que ele sabe e aprendeu, todas as respostas são “não”. Mas algo dentro de também sabe que esta não poderá ser a resposta para sempre. Um dia ele esbarrará em um “sim” e descobrirá a verdade por trás da espada, por trás da Finlândia. Por trás de Duncan. Seu pai.

O Homem Sem Rosto uma vez lhe dissera que vampiros tendem a ser criaturas muito melancólicas porque não sabem a diferença entre o Verão e o Inverno. Mas Danov tinha outra teoria a respeito: vampiros tem muito mais tempo para pensar, para lembrar e olhar para trás. Se não fossem pelos laços familiares, todos provavelmente seriam loucos e selvagens. Um mito como Drácula, o vampiro solitário no alto do castelo decadente, é uma imagem pouco verossímil: ninguém que Danov conheça passaria todos aqueles séculos sozinho no meio da sujeira comandando lobos e ratos apenas para assombrar os vizinhos. Um Demônio talvez pudesse achar esta vida divertida, mas qualquer indivíduo com um pouco mais de imaginação e sentimentos teria dado o fora no primeiro meio século. E, mesmo Drácula, queria apenas alguém para dividir a solidão das noites…

Danov vê a bruma esbranquiçada passando por baixo da porta, uma pequena nuvem que se movimenta sem vento para dentro do quarto. Em outro lugar ou em outro momento, isto seria um sinal para desembainhar a espada e exigir explicações para o intruso. Mas agora, ele apenas observa com certo descaso a névoa se infiltrando pela fresta e ganhando densidade em direção à cama. A massa se desloca com contornos tênues e indefiníveis, flutua por alguns momentos sobre o colchão e baixa sem pressa. Não há nenhum odor detectável por olfato natural e a cor é indistinguível do tradicional fog inglês. A bruma se condensa pouco a pouco, formando um corpo deitado na cama.

Kira o observa com seus profundos olhos negros de bruços sobre a cama, as pernas displicentemente cruzadas e a cabeça apoiada sobre as mãos fortes, mas delicadas. Ela veste uma calça de couro escura como o véu da noite, uma blusa leve negra e usa maquiagem pesada. Com muito rímel.

– Sua espada é bastante longa, senhor Danov. Sabe usá-la?

Primeiramente ele se surpreende com o interesse dela na arma, como se ela tivesse identificado um objeto de infância. Porém, a malícia não lhe escapa e ele se põe em alerta.

– Mais do que gostaria. – ele responde.

– É algo que eu ia adorar ver. Você tem um jeito de quem sabe… conseguir o que quer.

– Pharad sabe que você está aqui?

– Pharad não manda em mim.

Danov já havia percebido que Kira era bonita. Tinha traços selvagens e determinados, uma beleza audaciosa capaz de arruinar homens em troca de poucos minutos de felicidade. E ficava ainda mais perigosa quando seu rosto vincava em sinal de raiva. Como agora. No fundo, era uma menina irritada tentando achar seu espaço. Exatamente como ele fora, anos atrás.

– Não disse que mandava. O que você veio fazer aqui?

– Você queria conversar comigo. Estou aqui. Quer que eu dance para você?

– Dançar?

– Sim. Você gosta de Bauhaus?

– A banda ou a Escola de Arquitetura?

– A banda. Do Peter Murphy. Acho eles o máximo. Que escola é esta?

– Esqueça. Não, não quero que você dance.

– Mas eu vou. Espere um pouco.

Levantou-se da cama antes que ele tivesse tempo para pensar em alguma coisa. Desta vez não se transformou em névoa, apenas abriu o trinco da porta e saiu sem trancar.

Danov ficou olhando a porta aberta e teve um mau pressentimento. Bauhaus era uma banda gótica inglesa, Eldritch havia lhe mostrado tudo que se podia ouvir neste sentido e dissera que queria montar uma banda também muito tempo atrás. Parece que tinha conseguido. Danov mesmo tocara guitarra na juventude e ainda escutava alguma coisa de vez em quando. Ultimamente estava mais inclinado a ouvir música folclórica céltica ou canções da Faéria. E esta noite estava preferindo o sublime som do silêncio, no máximo o contínuo clique clique das engrenagens do relógio de cristal. Mas poderia servir para quebrar o gelo entre ele e Kira, mesmo que ela parecesse estar disposta a mais do que isto.

Ela voltou com um rádio, um daqueles megablasters que estavam vendendo como água nos guetos americanos e, geralmente, utilizados para que o quarteirão inteiro escutasse o mesmo que você. Completo: AM/FM, duplo deck, equalizadores, duas caixas de som de alta potência e duas fitas dos Bauhaus já no ponto. Kira colocou o rádio em cima da penteadeira e ligou. Danov percebeu que ela amarrara a blusa na altura da barriga.

– Não coloque o som alto, se vai mesmo continuar com isso. Tem gente querendo dormir.

– Eu não vou. Eu só quero que eu e você ouçamos. E mais ninguém.

Ela apertou o PLAY e dançou.

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