Volume 1 – Carta 32

Swantson tinha se enganado. No Future havia sossegado tão logo recebera a pirâmide. Seus músculos relaxaram e o licantropo ignorou seus “sócios” durante todo o caminho de volta, o artefato fazendo volume no bolso da jaqueta surrada. Mesmo quando a Matriarca o provocou, perguntando se precisaria de mais perfume para que ele não esquecesse a localização da sala, ele apenas grunhiu uma resposta. Mas Swantson não era arrogante o suficiente para deixar o assunto morrer sem respostas: era óbvio até para um cego que o lobisomem disfarçava a ansiedade com uma falsa atitude profissional.

O nível de tensão diminuiu enquanto a Matriarca acertava com Pharad os detalhes dos quartos onde dormiriam. No Future tinha um sorriso idiota no rosto e Swantson suspeitava que aquilo fosse o normal dele. Swantson, por sua vez, evitava olhar o dono da casa nos olhos. Poderia ter fingido uma intimidade que não existia com uma mão nas costas, era um dos dons que vinham no pacote de serial killer, mas preferiu o caminho da honestidade. Já se sentia mal roubando o cara, não precisava ter que mentir também, dar abraços apertados e perguntar da família. Só queria tirar uma soneca, se seus nervos permitissem, antes da hora final.

Matriarca arrumou quartos para todos. O dela ficaria próximo da biblioteca principal, perto dos aposentos do próprio Pharad. Era um sinal de prestígio ou algo assim. Swantson e No Future ficariam no mesmo corredor, na Ala Oeste da mansão. Ela não se despediu. Apenas entregou as chaves para eles e indicou vagamente o caminho. No Future continuava sorrindo de forma abobalhada.

Swantson viu os outros convidados se afastando em direção às saídas, cumprimentando os Iniciados, trocando telefones, sorrisos fúteis e promessas vagas. Teve inveja dos que partiam. Preferia estar a quilômetros de distância dali. E quando a merda batesse no ventilador, certamente teria que estar para sua própria segurança. No momento, tudo que tinha era a companhia de um punk sujo que podia farejar coisas e que carregava uma pirâmide maldita no bolso. Um punk sujo que estava cantarolando alguma coisa… e rindo para ela.

De certa forma, estava frustrada. Se tudo tivesse terminado no quarto de despejo de Pharad, teria sido mais divertido. Ainda faltavam seis dias inteiros antes que ela precisasse matar novamente, mas Swantson não se importava se tivesse que fazer hora extra desde que a vítima merecesse. Durante um período de sua vida cogitara seriamente em eliminar somente criminosos, se tornar uma espécie de vigilante com superpoderes, talvez até adotar uma alcunha mais nobre do que “açougueira” ou “viúva-negra” como os jornais insistiam. Tinha habilidades especiais, não havia a menor dúvida. E bandidos merecendo um tiro não faltavam na América: traficantes de drogas, gigolôs, sequestradores, maníacos sexuais, contrabandistas de armas etc. “Contrabandistas não, ou eu ficaria sem fornecimento”, pensou melhor. Mas era uma tarefa chata: pesquisar os guetos, pressionar informantes, troca de tiros e tudo mais. E não havia nenhuma vantagem evidente nisto, seria perseguida pela imprensa e pela polícia de qualquer maneira. Ninguém entende um Assassino em Série. “Fazem um monte de filmes e livros sobre vampiros, mas é só você matar alguém com balas e pronto: você é a porra da inimiga pública número um!”, ela reclamava para as paredes em um dos vários esconderijos que viveu nos últimos anos. Swantson não chegava a ter orgulho do que era obrigada a fazer, não se tratava disto. Mas também não se sentia culpada, era um destino imposto a ele e do qual não teria escapatória até o dia de sua própria morte. Assim conseguia dormir todas as noites com a cabeça vazia.

E, no entanto, havia um crime, um único crime pelo qual se culpava. Mas até este era contornável às vezes. Ou desculpável. Precisava que fosse assim.

E tinha uma outra coisa que a incomodava. Aquele estranho problema com suas mãos. Não podia precisar o momento exato que começara, tinha inclusive a sensação de que era algo que já se manifestara mesmo na infância. Sua mãe lhe dissera que ela tinha mãos fortes, que não eram mãos de menina. Quando Deborah nasceu e se tornou uma menina igual a todas as outras, a comparação incomodou Josephine por um tempo. O fato era que suas mãos definitivamente não eram normais, nem para os padrões laicos, nem para os padrões do Mundo Ausente e sua mãe havia sentido isso de alguma forma.

Essa estranheza se tornara muito mais grave depois que… depois que se tornara uma Executora de Anúbis. Como coincidências não existem mesmo, é óbvio que o que quer que habitasse suas mãos, aquilo se tornara mais afoito com a possibilidade de arrancar vidas.

Descrevendo em poucas palavras: Swantson ocasionalmente perdia o controle de suas mãos. De ambas. Algum tipo de inteligência externa (ou interna) se apossava delas e a faziam realizar coisas que ela preferia não ter feito. Coisas ruins. Os surtos não eram frequentes e duravam pouco, não mais do que alguns minutos, mas eram o suficientemente desagradáveis para incomodar. Já disparara a arma mais de uma vez sem querer e, em outra ocasião, ela tinha que atirar, mas sua mão se recusou. Já acordara no meio da noite estrangulando a si mesma, já fizera sinais obscenos em lugares públicos, já furtara objetos na frente de policiais, já espancara gente inocente, enfim, não tivera o controle sobre nada daquilo.

Sem qualquer tipo de aviso, suas mãos simplesmente tomavam iniciativa e executavam seus sinistros propósitos. Já tinha ouvido falar de possessão, mas todos os especialistas com quem conseguira conversar eram unânimes em afirmar que era impossível a possessão parcial do corpo da vítima. “Claro, senhor fulano, então como é que eu faço da próxima vez que minhas mãos voarem no pescoço de alguém dentro de um avião?”. Geralmente, os especialistas encerravam a conversa e pediam para não serem procurados novamente. Queria ter, pelo menos, uma pista para isto. Os outros Executores que conhecia não tinham o mesmo problema. Talvez O´Brien soubesse a resposta e, por isso, fora morto. Talvez não.

Agora elas estavam sossegadas, bem sossegadas no bolso do capote. E No Future ainda ria e cantarolava alguma coisa inglesa daquelas bandas das quais Swantson nunca ouvira falar. Não seria um mau momento se suas mãos fossem “possuídas” agora, sacassem os dois revólveres ao mesmo tempo e esvaziassem os tambores no peito magro do licantropo. Mas não teria esta sorte. Suas mãos nunca faziam algo do qual gostasse.

– Sabe o que eu acho de Assassinos em Série, Swantson? – perguntou No Future, arrancando o “sócio” de seus devaneios.

– Duvido que seja boa coisa.

– Eu acho que são todos uma cambada de filhos da puta fodedores. – deu uma risadinha arfante.

– Não me diga…

– É… – riu novamente.

– O que é tão engraçado?

– Tua cara de bunda quando pegou a porra da pirâmide!! – caiu na gargalhada. – Mana, você precisava ter visto você segurando aquela merda!! Tava se borrando toda!

No Future não devia pesar mais do que cinquenta quilos. Não foi problema algum para Swantson levantar o licantropo pelo pescoço com uma das mãos e imprensá-lo contra a parede. A outra mão entrou no capote e tocou a coronha de uma das armas. Não tinha necessidade de que suas mãos tomassem a iniciativa: estava no controle e estava muito puta.

– O que é esta pirâmide? O que ela faz e para que você a quer? – sussurrou próximo do rosto do punk.

– Não é da sua conta, vadia! Me larga ou eu quebro a porra do seu braço…

– Antes ou depois dos seus miolos voarem pela parede, seu merda? Vamos, diga, que pirâmide é esta?

Swantson conhecia este caminho. Já o trilhara antes e sempre terminava com um cadáver largado para trás. Uma das dificuldades dos dons recebidos era que um Executor não podia se estressar. Uma vez irritada, a maioria das discussões tinha que culminar na morte do oponente. Era possível dominar o impulso, exigia um certo esforço e muita concentração, duas coisas que Swantson não estava muito certo de querer gastar naquele momento com aquele safado inglês de riso debochado. Talvez No Future tenha enxergado isto no fundo dos olhos dela, porque começou a articular uma resposta mais pacificadora:

– É a Pirâmide de Akherret, um artefato antigo. Tem gente interessada nela… gente grande.

– Quem?

– Você não os conhece. E eu não posso contar… espere, temos companhia.

Swantson já tinha ouvido os passos, mas esperava pelo menos ter mais respostas antes de ser interrompida. Um homem ruivo vinha pelo mesmo corredor deles. Tinha uma gravata laranja e estava visivelmente alcoolizado. Swantson abaixou No Future e tentou decidir se disfarçava a situação ou não. “Bêbados não são testemunhas válidas”, pensou.

– Pendura… pendura este filho da puta peludo! – urrou o homem bêbado. – Licantropo tem que morrer!!

– Cai fora, vampiro! – grunhiu No Future, enquanto se desvencilhava do braço de Swantson. – Vai curar esta ressaca, bebum!!

– Não fala… assim comigo. Eu sei quem você é, cão do inferno. Licantropo de merda! Tua raça vai morrer um dia!!

“Um conflito racial, era só o que faltava”, pensou Swantson, relaxando os dedos da coronha. Seu nível de adrenalina foi descendo bem devagar, enquanto ela respirava em compassos firmes e ritmados. Por muito pouco quase matou o licantropo.

– Cai fora, bebedor de vodka! Vai procurar uma garrafa!! – No Future gesticulava ameaçadoramente e buscava uma posição mais adequada para atacar. “Ou fugir”, pensou Swantson.

– Eu só não acabo com tua pele aqui por respeito a Pharad, seu… perdedor. Você é lixo. Lixo. Kerevski te abandonou por causa disto, filho de uma puta.

– Olha aqui, bebum…

No Future avançou. Esbarrou no braço estendido de Swantson. E no olhar duro. E nas palavras gélidas:

– Serão dois contra um, No Future. Ele e eu contra você. Vai encarar?

O licantropo recuou. Fez um sinal obsceno para os dois e disparou em direção ao seu quarto. Swantson tinha um gosto metálico na boca e o bolo de frustração só crescia em seu peito. Não teria mais respostas de No Future no momento. E esquecera de perguntar o que ele quisera dizer com “eu tenho meus meios” quando ameaçara a Matriarca.

– Covarde!! – gritou o vampiro ruivo, embora No Future já estivesse fora de alcance.

– Com licença, senhor, mas você disse alguma coisa sobre “Kerevski” ter abandonado ele. Teria alguma relação com o nome “Ás de Paus”? – era como a Matriarca havia chamado o licantropo momentos antes.

O vampiro emudeceu. Olhou a outra de cima a baixo, primeiro com espanto, como se tivesse acabado de notar que ela estava ali, depois com medo. E no final, Swantson quase podia jurar, com lascívia.

– Acho que não fomos apresentados, gata. Eu sou Fiodor Rasputin. – estendeu uma mão delicada em direção a Swantson, mas ela não segurou.

– Quem é Kerevski? E quem é o Ás de Paus?

– Você faz muitas perguntas para alguém que deveria estar procurando outras coisas. Tão… assanhada. Meu quarto fica no final deste corredor, acho que seremos vizinhos. Agora eu vou dar uma saída. Tenho alguns compromissos. Mas se quiser me visitar mais tarde… para conversarmos. Eu te conto tudo…

O maldito carisma estava funcionando novamente. De algum modo conseguira cativar o “interesse” do vampiro. A diplomacia recomendava não irritar ou melindrar uma criatura capaz de beber seu sangue durante a noite. Mas o nível de adrenalina ainda estava alto demais.

– Há outras formas de eu me informar. Faça o favor de se foder sozinho.

Virou as costas para um Fiodor Rasputin chocado e, momento raro, sem palavras. Ia tentar tirar uma soneca. Tinha uma televisão para roubar ainda naquela noite.

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