– Estou com dor de cabeça, docinho… – murmurou Jennifer Long assim que ela e seu marido entraram no quarto. A primeira coisa que ela fez foi sentar-se na beira da cama e virar para ele sua melhor cara de fragilidade – O que você acha que eles colocam naquelas bebidas?
– Álcool, querida. Muito álcool.
– Você é mau comigo… – ela virou-se para trás e esparramou o corpo sobre os lençóis da cama.
Dylan não respondeu. Circulou pelo quarto como um cão acuado, procurando alguma coisa que não estava lá e que ele nem sabia o que podia ser. Atravessou a porta do banheiro e deu uma olhada lá dentro. Tudo normal, tudo seguro. Não tinha com que se preocupar afinal. Estava na casa de Pharad e isto tinha que ter algum significado.
– Quer saber da última? – ela perguntou.
– Última o quê, amor? – ele examinava os móveis com uma mistura de partes iguais de pouco caso e interesse.
– A última fofoca que eu escutei hoje.
– Não tem nada a ver com John Travolta desta vez, não? Acho que a carreira dele não levanta mais. Está condenado a fazer musicais até ficar com artrite.
– Ele tem talento. Ainda vão descobrir. Mas estou falando da última fofoca da festa! As elfas só falavam disto.
– Fique à vontade. Você não vai sossegar mesmo enquanto não soltar tudo.
– Está bem. Parece que Falenia, a irmã de Ferric, se envolveu com um príncipe de outra casta e os dois estavam se encontrando escondidos. Um verdadeiro escândalo porque este príncipe é de uma família que caiu em desgraça. O pai dele perdeu uma batalha importante e foi censurado publicamente pelo próprio rei. A família do rapaz está com o prestígio lá embaixo, ninguém quer conversar com eles, nem ser visto ao lado, então você pode imaginar a confusão que deu quando descobriram que Falenia e o outro estavam namorando.
– Povinho enxerido…
Dylan escutava apenas parcialmente o que Jennifer dizia. Um arrepio gelado subiu pelo que seria sua espinha e ele se viu olhando para a janela do quarto. Ficou paralisado no centro do aposento, com muito medo de ir até a janela. Não tinha nenhuma explicação para isto. Em uma vida normal poderia pensar que tivera um surto de pânico irracional. No Mundo Ausente quase conseguia ver os sutis tentáculos de Magia penetrando em seu crânio. Alguém ou algo o estava alertando. Sobre a janela.
– Então os pais dela arranjaram rapidinho um casamento para ela. Com outro rapaz de uma família com melhores referências. É óbvio que ela não sente nada por este noivo e o pior é que dizem que ele não é exatamente muito bonito e tem a inteligência um pouco abaixo da média. Acho que é maledicência, mas pode ser verdade. Parece que foi o melhor que a família dela pode arranjar em tão pouco tempo. Falenia ficou arrasada, dizem que ela não come, se tranca no quarto e chora o dia todo. A data do casamento já está marcada, mas eu não entendi muito bem o que quer dizer no nosso calendário. O namorado de Falenia está disposto a ir para a guerra e recuperar o prestígio que o pai perdeu, mas o rei não quer nem ouvir falar do assunto.
– Sei…
Dylan forçou a si mesmo a ir até a janela. Cada passo tinha a velha sensação de cruzar uma piscina com água até a cintura. Achou que fosse gritar ou algo assim, mas manteve a compostura.
– Tem também Feanna, a outra irmã de Ferric, mais velha de todos, mas ainda nova que ficou viúva faz pouco tempo. Você não vai acreditar mas disseram que o marido dela foi devorado por um demônio enquanto tentava fazer um encanto de adivinhação. A viúva está irritadíssima, porque ainda é jovem e acha que pode ser uma esposa muito melhor para o noivo de Falenia. Ela fica contando para as amigas que, ao contrário da irmã, não vê o menor problema em casar-se com o “feioso”, o importante é ser feliz. A dificuldade é que ninguém quer casar com ela! Depois que o marido foi engolido ficam falando que ela é um tremendo pé-frio. Pode ser que seja, parece que um primo dela morreu afogado muito tempo atrás quando só os dois estavam nadando num lago e um tio dela, que usava um camafeu com o rosto dela, perdeu a perna na guerra.
Dylan viu pela janela. Deborah Swantson estava lá embaixo, no jardim, olhando em direção das árvores. Estava mais pálida que antes e não se mexia. Entre as árvores, apenas o vento noturno balançando os galhos e as folhas a cair. Não se via mais ninguém. Pelo menos não de onde Dylan estava.
– É impressionante como não se falava de outra coisa. Estas elfas são muito fofoqueiras. Acho que não faz diferença se você tem orelhas pontudas ou não, o assunto é sempre o mesmo entre mulheres: quem ficou com quem, quem enganou quem, quem engordou e quem emagreceu. Pensei que ia ser diferente. Estou um pouco farta disto tudo. Acho que preciso de um filme, Dylan. Comece logo aquele projeto, fodam-se os produtores. Está me ouvindo?
– Sim… Fodam-se os produtores, querida.
– Diz aí: não tem mulheres anãs, não? Quero dizer, do povo Anão. Eu só vi homens na festa toda.
– Existem sim. E são muito formosas e tímidas. Parecem aquelas bonecas russas, as babuskas.
Ainda olhava pela janela. Deborah virou-se e olhou para cima e seus olhares se cruzaram. Ao contrário do que Jennifer poderia imaginar, não existia nem um traço de malícia naquele olhar. Havia profundo horror nos olhos de Deborah, algo que Dylan podia enxergar mesmo daquela distância. Ele viu a fantasma formar palavras com os lábios: “Por favor!”.
– E por que elas não aparecem? Por que os Anões não trazem suas esposas para as festas?
Dylan voltou-se para Jennifer e pronunciou uma frase que congelava sua própria alma a medida que ia saindo:
– Para protegê-las do perigo…
– Mas que perigo? Você disse que era uma festa!
Dylan não respondeu. Olhou de volta para o jardim, mas Deborah já não estava mais lá.
– Isto para mim tem cheiro de machismo. Aposto que as “formosas anãzinhas” ficam em casa costurando as roupas do marido, cozinhando bolos, cuidando da criançada e tirando o pó dos móveis o dia inteiro.
– É mais ou menos por aí. Se ela for habilidosa, poderá afiar o machado do marido todas as noites também. Dos guerreiros, pelo menos.
– “Afiar o machado”… Sei muito bem do que você está falando. Gente pervertida. O que falta para elas é um pouquinho de revolução sexual, queimar uns sutiãs e ir para o batente.
– Jenny?
– Sim?
– Prometa uma coisa para mim. Prometa que não vai sair deste quarto até eu voltar.
– Aonde você vai? Vai me deixar aqui sozinha?
– Tenho assuntos para resolver. Não fique preocupada. – ele mentiu, já se encaminhando para a porta. – Apenas prometa.
– Vai demorar?
– Não sei. – agora era verdade.
Ele lançou para ela sua melhor cara de fragilidade e sentiu uma vontade enorme de poder abraçá-la. Era um sentimento com o qual tinha que conviver todos os dias, mas naquele momento foi forte o suficiente para quase fazê-lo chorar. Jennifer estava mais linda do que nunca entre lençóis brancos de seda, seus pequeninos olhos de flor fazendo-lhe mil perguntas.
– Eu prometo que não vou sair daqui, Dylan Carmichael. E prometo que vou amá-lo para sempre, não importa o que aconteça.
Era uma promessa forte e ele estremeceu pelo poder oculto daquelas palavras. Afastou os maus pensamentos da cabeça, tão rápido que eles nem tiveram tempo de se transformar em conceitos. Quando saiu atravessando a porta não podia se lembrar se respondera que também a amava ou não. Só lembrava que o relógio da cabeceira da cama marcava uma da manhã. Em ponto.

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