Não que Swantson pudesse dizer que nunca ficara em um quarto com tanto luxo antes.
Certa vez, quando ainda trabalhava com contabilidade, foi mandada para Atlanta, para a sede da companhia onde era empregada. Tinha que contar para os chefões que a sua filial tinha cometido erro após erro nos últimos cinco anos de balanço financeiro, inclusive com um diretor comprando uma casa no Caribe com dinheiro desviado. Nada daquilo tinha chegado aos ouvidos dos contadores de baixo escalão, até que a bomba estourou e alguém precisou prestar contas. Escolheram a mais descartável para fazer a viagem de sacrifício: Josephine Swantson. Passeara de avião e ficara hospedada em um dos hotéis mais caros da cidade, com a matriz pagando tudo: engordavam a vítima para o abate. Quarenta e oito horas de reuniões depois, estava com uma úlcera no estômago, insônia e enxaqueca, mas conseguira manter seu pescoço intacto e os grandes senhores feudais da companhia perceberam que a pobre mensageira era inocente. Quando voltou para casa, seu gerente estava arrumando as gavetas para ir embora. É. A vida é dura, mas tem suas compensações.
O que separava o quarto de hotel em Atlanta daquele agora era a iluminação. O hotel tinha grandes portas envidraçadas para uma varanda oito andares acima do chão e lustres por todos os lados. Os lençóis limpos e imaculadamente esticados brilhavam, onde alguma magnata já dormira. Em Sutterville Dream, a luz vinha somente de um único lustre gótico adaptado para funcionar com lâmpadas, que pendia do centro do quarto e os lençóis brancos tinham um brilho esmaecido de antigos hóspedes feiticeiros. Não tinha como fugir daquela atmosfera, mesmo no luxo de Pharad o próprio ar parecia pertencer ao século errado. Pelo menos tinha banheiro com luz fluorescente.
Swantson trancou a porta por força do hábito. Sabia que ali era um gesto vazio de precaução. Ainda estava agitada. Perdera o controle de si com No Future e, neste estado, sacar a arma e atirar ficava tão natural quanto piscar os olhos. Perdia a carga dramática, como costumava pensar. Preferia matar em ações planejadas, com frieza, e não por impulso. Acontecia que, às vezes, simplesmente não tinha alternativa. Não que fizesse diferença para quem estivesse no lado errado do cano da pistola.
Tirou o maço de cigarro do bolso interno do capote e colocou-o em cima da penteadeira, entre dois bibelôs vodu que achou melhor nem encostar. Swantson parara de fumar desde a morte de Deborah e mantinha assim. Com câncer não se brinca. Entretanto, ela abria uma exceção quando matava. Não conseguia evitar o impulso de acender um depois que o serviço estivesse completo. Fumava devagar até o final, encostada em uma parede ou poste, olhando fixo para o nada, deixando a adrenalina baixar e calculando rotas de fuga, compra de munição, eventuais testemunhas e tudo mais. Apagava a guimba com a bota e não acendia outro. No começo, jurava para si mesma que ia parar também com estas recaídas. Depois, perdeu o sentido. Comprara aquele maço num posto de gasolina na Carolina do Sul e já estava acabando. Se os planos da Matriarca dessem certo, o maço ia voltar intacto para os Estados Unidos. Os planos de Swantson eram diferentes, é claro.
Tirou o capote e jogou em cima da cama. Não tinha intenção de dormir ainda, embora seus fusos horários estivessem um pouco bagunçados por causa da viagem. Estava querendo era um bom banho morno e uma mijada. O banheiro não tinha nada de exótico: era espaçoso e funcional. Aliviou-se da água mineral que bebera no avião e que estivera latejando dentro dela nos últimos trinta minutos. Olhou para si mesma no espelho sobre a pia e concluiu que teria que dar algum jeito naquelas olheiras, antes que elas se tornassem permanentes, de preferência já fora da Inglaterra. Removeu os coldres com os Colts e pendurou em um gancho da parede. Despiu-se e abriu a cortina do box.
A claridade súbita a ofuscou por uma fração de segundo. Do outro lado da cortina havia os ladrilhos, o chuveiro prateado e… ruínas iluminadas pela luz do Sol. Não tinha paredes do outro lado do box. Onde, em um lugar comum e civilizado, haveria uma parede com mais azulejos coloridos, havia um espaço aberto para o que parecia a rua de uma cidade em ruínas. E um forte sol de meio-dia se infiltrava entre escombros de prédios, carros queimados e tufos de capim amarelado. Uma leve brisa soprava trazendo um odor adocicado de sangue e cinzas. Nenhum som se ouvia exceto o bater do coração de Swantson, latejando em seus ouvidos.
Alguém com bom senso teria fechado a cortina, saído do quarto e corrido para avisar Pharad. “Tem uma cidade devastada do outro lado do meu banheiro, exijo outro quarto”, ou algo assim. Seria a atitude blasé que se esperaria daqueles europeus, certo? A verdade é que Swantson tinha bom senso de sobra, o suficiente para vestir as calças novamente e pegar as armas penduradas. Tudo sem tirar os olhos por um segundo daquela paisagem desolada. Nada aconteceu do outro lado da cortina, nem um movimento, nem um som. Nada. A próxima etapa agora seria sair do banheiro bem devagar e buscar ajuda. Entretanto… Swantson passara a noite inteira atrás de uma oportunidade, uma chance de virar a mesa em cima daqueles Carteadores. E agora, algo inusitado acontecera no seu banheiro.
“Que se foda!”, pensou. Aceitara ir até aquela festa, não aceitara? Entrou no boxe e cruzou o Portal.

seja o primeiro a comentar