Timothy não foi o pioneiro. Dois anos antes de ele abrir os pulsos, Michele Becker atirava com um fuzil contra a própria cabeça. Éramos muito jovens ou muito tolos para tentar compreender o suicídio ou supor que voltaria a acontecer. O velório de Michele foi tão fugaz quanto a sua presença em nossas vidas, e sua lembrança não é mais do que simples brisa, uma nota de rodapé na história da Classe de 92. Ela não era particularmente radiante, nem particularmente apagada, não amava a vida acima de tudo nem tampouco flertava com a morte, permanecendo naquele patamar inócuo que caracteriza o habitante comum desta faminta cidade. E, mesmo assim, ela disparou contra seu rosto. A glamourização do suicida é inevitável e, então, Michele Becker garantiu o seu espaço em nossas maldormidas noites.
Tinha um namorado, um emprego e uma bolsa de estudos para Engenharia Química, o que era mais do que qualquer um de nós tinha na época. E uma metástase cancerosa transformando seu sangue em veneno. Ela não pediu ajuda. Ela não emitiu avisos. Não houve presságios. Confrontada com a perspectiva da dor da radioterapia e da incerteza da vitória, ela preferiu explodir a evanescer. Simples, direto e estereotipado. Sem complexos mais profundos, misticismo arraigado ou arrogância biológica. Câncer e bum!, espalhando pela Classe de 92 a primeira luz a iluminar a parte podre da maçã. Câncer e bum!, o fim do sonho, hora de acordar. Aleatório como um lance de dados e, no balanço final, sem glamour nenhum.
Não havia nada de errado com o sangue de Timothy e, muito menos, com o meu, mas, ouvindo o som dos carros nas avenidas congestionadas e olhando para as faces carcomidas das donas-de-casa na mercearia, eu quase posso sentir o tique-taque de bombas-relógio em minhas células. Penso na nicotina, às vezes, e no quanto deve doer ser traído pelo próprio corpo.
O câncer não levou Timothy. E, se hoje meus dedos tem repulsa ao vidro, eu devo isso a Judith. E, antes dela, a Francine. E, antes de Francine, a Melanie. Mas, e quando Judith for embora? Quem irá segurar minhas mãos? Quem irá beijar meus lábios cancerosos se os dados caírem de forma errada?
Hoje eu acendi uma vela para Michele Becker. Amanhã será outro dia.

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