Zero-33

O jardim do casarão sempre foi motivo de orgulho para minha mãe, embora ela não dedicasse mais do que uma hora por semana para contemplá-lo e os jardineiros fossem livres para fazer as modificações que desejassem. Naquela manhã de primavera, o Sol se infiltrava pelos vitrais da sala de estar e Francine caminhava entre os dentes-de-leão de braços dados com meu avô, acompanhando o ritmo lento da grama crescendo. Minha mãe e eu observávamos sem nos envolver, ela sentada no sofá vestindo camisola e bebendo uísque às dez horas da manhã e eu em pé diante da janela, sentindo-me inerte para dizer alguma coisa. Minha mãe estava sóbria, o que não acontecia com muita freqüência, e, se estava consumindo álcool, era porque não pretendia usar calmantes pelo resto do dia. Eu não podia afirmar se aquilo demonstrava apreço pela nossa visita ou era um sinal para papai renovar a receita médica. De qualquer forma, ela estava mesmo disposta a falar:

– Ela é bonita.

Eu estava completamente distraído:

– Quem ?

– Francine, é claro. E parece que seu avô e ela se deram muito bem.

– Francine deve estar se esforçando muito, porque ela não gosta de gente velha.

Eu encarei minha mãe de maneira desafiadora. Queria ver se aquilo mexia com ela de algum modo. Não me agradava a idéia de que minha mãe pudesse gostar de Francine; nem eu nem ela estávamos pedindo a aprovação do “establishment”.

– Se ela pretende ficar com você, vai ter que aprender. Eu vou envelhecer também.

– Não temos planos para tão longe, mãe.

– Ela vai envelhecer um dia. Talvez seja por isso que ela tenha medo.

– Talvez.

– Sua geração tem muito medo. Eu não entendo. Nós demos a vocês tudo o que foi possível: afeto, liberdade, segurança. E agora vocês têm medo de seguir adiante. Há certos valores que…

– Eu não quero falar sobre isso. Eu odeio os seus “valores”!

– Você parece o seu colega Timothy falando.

– E você parece meu pai!

– Estamos agressivos hoje, não? Poderia me dizer porque esse comportamento de adolescente revoltado?

– Não gosto dessa formalidade: vestir camisa social, usar sapatos, colocar o relógio de ouro que ganhei de meu pai quando fiz quinze anos e trazer Francine aqui para que a família conheça a minha namorada! Eu não sei se estamos namorando!!

– A ideia não foi minha. Não precisa gritar.

– Não estou gritando.

– Seu pai telefonou. Disse que não vai chegar a tempo para o jantar

– Ele acha que viver é mandar e receber faxes o escritório.

– O que você sabe de viver?

– Estamos agressivos hoje, não?

– Você tem um cigarro?

– Estão com Francine.

– Lembre-se: seu avô não gosta de vê-lo fumando. Ele diz que você é muito novo.

– Eu tenho dezenove.

Sem cigarros, minha mãe encheu outro copo para si. Francine e meu avô se sentaram perto da fonte. Estavam conversando também, mas não dava para saber sobre o quê.

– Os pais dela têm dinheiro.

– Mas não sustentar uma solteirona que se lambuza de tinta nas noites de sábado.

– Ela tem um ideal. Ainda se lembra do que é isso, não é?

– Aprenda isto meu filho: existem dois tipos de pessoas que desperdiçam oportunidades. Aqueles que não são idealistas aos vinte anos e aqueles que ainda são depois dos quarenta. Eu tive o meu sonho, as minhas expectativas. Agora, tenho o seu pai.

– Grande troca…

– Não tem o direito de odiar o seu pai. Ele nunca faltou com você. E não tem o direito de julgar uma decisão que eu tomei! Hoje eu sei de onde virá minha próxima refeição, tenho quem irá cuidar de mim se cair doente e tenho alguém para dizer que amo.

– Esse é o pior caso de Complexo de Elektra que eu já…

– Não me venha com essa merda universitária. Um dia você vai se casar também. Pode não ser com Francine, pode não ser com aquela oriental ou com aquela tal de Mildred…

– É Melanie…

– … mas vai se casar. Porque nós lhe ensinamos isso.

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