Zero-68

Uma pizza de calabresa mal-digerida está conseguindo piorar um dia que já não foi muito agradável. Há sangue e sujeira sobre minha camisa, formando uma estampa nociva em cima da logomarca do Distortion que começa a cheirar mal. Eu deveria tomar um banho e algum tipo de antiácido, mas algo mais forte que a dor nas costelas me segura no tapete da sala e tudo o que consigo fazer é rolar meus dedos em direção do cinzeiro e pegar uma guimba deixada por Judith na noite anterior. Não me lembro de onde poderia estar o isqueiro mais próximo, então fico com o cigarro na boca como um idiota, tentando extrair alguma lembrança de um pedaço de nicotina industrial. O único sabor que sinto pertence à azia. Penso ouvir as baratas do apartamento (que são poucas, mas muito organizadas) rindo do meu sofrimento, mas é apenas o som dos vizinhos de cima se matando. Naturalmente, eles acabarão chegando a um consenso, afinal de contas são pessoas adultas.

Você sabe que está ficando velho demais para este Mundo-MTV quando é impiedosamente surrado por garotos na puberdade e termina prostrado sem entender porra nenhuma. Eu tinha alguns amigos que podiam encarar aquela briga sem piscar, sujeitos realmente grandalhões que teriam mutilado barbaramente aqueles arremedos pós-grunge. Mas meus amigos todos se casaram e passaram a confiar na polícia ou então engordaram e compraram armas para se proteger. Eu sou o último bastião das brigas de pátio de escola. Mas dessa vez me pegaram lá fora. Discípulos de Gracie, o Deus-Maromba do Ultimate Fighting, resolveram realizar algum tipo de sacrifício pagão, me utilizando como participante compulsório.

Nada mais de The Cure e U2. Apenas Cirrosis e Nekrophilia. Deveria haver um cartaz na porta do Neverland avisando aos maiores de vinte e um que o movimento new wave acabou faz tempo, que estamos agora a caminho da metade da década de noventa e que apenas os completamente anabolizados e os estupidamente engravatados conseguem sobreviver no mundo moderno. Assimile a modernidade ou caia fora. Vi sujeitos que detonavam todas as mulheres na juventude transformarem-se em maridos idiotas totalmente esvaziados de sua vitalidade por um expediente de escritório e vi crianças de doze anos consumindo tanto álcool e nicotina que fariam o nosso Círculo Interno parecer um Clube da Terceira Idade. Esbarrei em um adolescente de cabelos compridos tão parecido com Barnhard que nem percebi a camisa que ele usava: fiquei olhando para ele como quem olha para uma foto antiga que traz boas recordações e então ele me disse “o que é que você está olhando, babaca?” e, antes que eu pudesse me esquivar, estava apanhando dele e de todos os seus amigos (todos carecas, não consigo entender a relação).

Não sei quem me salvou. Serviram-me um copo d’água e os mesmo comentários que eu ouvia quando era mais jovem (“essa juventude”, “vadios!”, “onde é que isso vai parar?”). Fui embora do Neverland sem nem precisar pagar a fatia de calabresa.

Acrescente à Lista da Merda: skinheads, pessoas com tatuagem de dragão, usuários de camisas onde se lê “Vai se foder”, fãs de hardcore e, obviamente, saudosistas com cara de saco de pancadas.

seja o primeiro a comentar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.