No dia seguinte ao funeral, eu acordei dentro de um quarto vazio e não sabia como tinha ido parar lá. Durante quase uma hora, eu procurei pelas coisas que poderiam identificar o meu quarto: meus pôsteres, meus livros, a televisão ou o telefone. E não encontrei nada porque aquelas coisas não tinham mais sentido algum. Não havia mais imagens nos pôsteres que Timothy vira antes do Natal, nem palavras nos livros que ele me emprestou ou pedira emprestado. A TV zumbia em silêncio e o telefone não receberia mais a sua voz, ou a de Francine ou de qualquer outro. Meu quarto estava vazio e eu estava acordado. Todos eles foram um sonho bom e seus rostos, seus sorrisos e suas mágoas estavam se dissipando com o Sol da manhã. Foi a primeira vez na qual eu senti os tentáculos do monstro que arrastara Timothy para o Abismo, seu toque macio como veludo me envolvendo e trazendo calor para minha pele gélida. Sua oferta era tentadora e eu pude escutar pela janela os cicios da cidade, o murmúrio hipnótico do concreto e da gasolina impulsionando todos aqueles que ouviam rumo ao êxtase anulador de suas vidas destinadas ao fracasso. “Ouça-me. Criança. Minha voz é. A voz de milhões. Minha vontade soberana. Eu julgo. Transformo. Destruo. Estava aqui muito antes. Sua torpe geração surgiu. Com seus anseios. Suas músicas e paixões. Permanecerei. Quando ninguém mais puder. Se lembrar de vocês. Vocês nascem. Crescem. Trabalham. Reproduzem e morrem. Nada mais”. Fiquei imaginando durante um longo tempo se meu sangue teria a mesma tonalidade rósea do sangue de Timothy na banheira ou se minha morte provocaria também reações em cadeia sobre a vida dos outros.
Penso agora se tomei a decisão certa. Se eu olhar para trás, vou ver o Número Dois batendo na minha porta, demolindo todos os tijolos que coloquei para segurar o choro. O tempo é curto. Preciso escrever tudo que me lembro antes de completar vinte e dois.

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