Zero-77

Formavam o casal perfeito. Ele era charmoso, seguro de si, extremamente popular. Todos gostavam de Alekssandri. Ela era atraente, cheia de energia e bastante esperta. Todos gostavam de Melanie. Juntos, tinha-se a impressão de que aqueles dois iriam se casar, ter um par de filhos, um apartamento no centro da cidade e uma casa na praia. Pareciam extraídos de um manual de Moral e Cívica. Por mais que o conhecimento dos acontecimentos tenha me tornado um cínico, em algumas noites solitárias (quando Judith ou o fantasma de Tim não estão comigo) eu me flagro imaginando que mundo fantástico seria o nosso se todos fossem aquela imagem imaculada de Melanie e Alekssandri que se ergueu ao redor dos verdadeiros Melanie e Alekssandri.

Foi uma época distante, mesmo fazendo tão poucos anos. O nosso Verão do Amor. Barnhard e eu chafurdávamos inutilmente no poço de sedução e desprezo de Lim Iakeda. E ainda assim éramos felizes. Timothy nunca ouvira falar de Francine, mas também tinha grandes dores de cabeça com uma certa Cecília Ribeiro e todos os dias voltava frustrado para casa. Carlo Visconti suspirava de amor por uma estudante estrangeira de nome complicado e, como todos nós, dava voltas em círculo. Anita Menezes amava Alekssandri e também não era correspondida. Em suma, a Classe de 92 era um bando de inebriados fracassados. Exceto por Melanie. Exceto por Alekssandri. Ainda assim, o Amor teimava em pairar sobre nossas cabeças, como a sombra do machado do carrasco, e todo mundo rezava no silêncio do quarto para que acontecesse logo.

Mas como esquecer o som de Melanie chorando no interfone e Alekssandri completamente embriagado vomitando no tapete da sala? Como não lembrar que os sonhos só acontecem quando se fecham os olhos? E depois de um tempo, por mais que você afunde as pálpebras para dentro das órbitas, os sonhos não voltam mais e o vazio deixado no lugar vai sendo lentamente preenchido com a merda que respingou do ventilador.

A verdade é que nem eles dois conseguiam acreditar em Melanie e Alekssandri. E nenhum dogma, por mais forte que seja, sobrevive à própria dúvida.

Lim não apareceu no funeral e ninguém além de mim tinha notícias dela havia quase um ano. Mas outros tinham comparecido, como Raymond de barba aparada e vestindo luto me sussurrando que Francine não recebera o telegrama e pedindo desculpas por algo que achava ter feito no passado. Helen e seu marido, Irwin, também compareceram e ela me contou ter vislumbrado Eugene entre as árvores, assistindo à distância. A Classe de 92 também se reunia, mais uma vez, com os respectivos pais segurando os ombros dos filhos e as mãos das filhas, como que temerosos de que o cadáver pálido de Darkdream pudesse se erguer e arrastar suas crianças para as entranhas da relva. Olhei para os pais de Timothy com desprezo e eles não notaram porque os óculos escuros em suas faces eram uma barreira de vergonha e não de tristeza. Tim introduziu o vocábulo “suicídio” na tradicional árvore genealógica dos Darkdream e isso é algo que irá demorar pra ser esquecido ou perdoado. Para minha sorte, Papai Richter estava em uma viagem de seis meses pela companhia e, para meu azar, o fato não trazia conforto algum.

Alekssandri ficou o tempo todo me perguntando se eu sabia onde Lim estava e eu me esquivava dele porque não conhecia a resposta e o que eu sabia não estava disposto a partilhar. Talvez Lim não tivesse comparecido porque não fora informada. Oficialmente, ninguém mais mantinha contato com ela e tornara-se politicamente incorreto ser seu amigo. Para o melhor ou para o pior, eu não conseguia tirá-la da minha cabeça e, no final da cerimônia, Alekssandri passou a espalhar o boato de que Lim estava trabalhando como acompanhante profissional. E todos se chocavam com aquela história absurda, embora a grande maioria deles também estivesse concordando, algo como “eu sempre soube que Lim etc. e etc.”.

Por uma necessidade autocontrole, eu passei a acreditar no que Alekssandri dizia e desejar estar em outro lugar, talvez com Melanie, talvez com Francine, ou talvez estivesse melhor sozinho.

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