Zero-84

O mês de junho ou julho estava passando rápido e os dias começavam a se embaralhar em minha mente, a medida que a Faculdade ia se tornando uma pequena lembrança esquecida em alguma prateleira muito alta. Mas eu precisava colocar minha vida em ordem ou perderia a data da inscrição em disciplinas e isto seria a sentença de morte que eu vinha adiando e desejando, não necessariamente nessa ordem. Por isso, eu resolvi praticar um pouco de Magia, algo que eu não fazia havia mais de seis meses, nem mesmo abrir um Tarô. Não estava interessado tanto no resultado, mas em descobrir se ainda era capaz de fazer uma parte de mim funcionar. Pelo menos, essa foi a desculpa que eu usei para, com a ajuda de duas moedas de níquel e um cartão postal de Melanie, realizar um pequeno encantamento. Trinta e seis horas depois, eu ouvia a voz de Melanie ao telefone preenchendo o vazio de meu apartamento.

– Franz, há quanto tempo! Eu estava pensando em você e resolvi ligar!

– Faz tempo que você não liga…

– Eu tenho andado ocupada.

– Eu também.

No silêncio que se seguiu, eu apenas fiquei escutando os enigmáticos ruídos que existem em certas ligações telefônicas e imaginando o quão estúpida tinha sido a idéia de fazê-la telefonar. Ela procurava por algo para falar.

– E então, o que você tem feito, Franz? Continua tirando fotos?

– Resolvi dar um tempo. Estou querendo voltar a escrever…

– Que bom! Sempre gostei dos seus textos. Você e Timothy eram os melhores…

O nome de Timothy nos forçou a um novo silêncio, longo, quase anormal, e eu torci para que ela não chorasse. Melanie, às vezes, era uma relíquia sentimental, um jarro de lágrimas. Eu tive certeza de que aquela ligação não serviria para nada a não ser nos deixar constrangidos e fazê-la chorar se não mudássemos de assunto rápido.

– E você, Melanie? O que tem feito?

– Só faculdade. Estou procurando por estágio, mas as empresas geralmente só querem gente dos últimos períodos… você sabe: não há muitas oportunidades para quem está no meio do curso.

– Não, não há.

– Você se forma no ano que vem, não é?

– Não faço a menor idéia. Estou preso em um monte de matérias que não me interessam e, honestamente, não estou nem aí para essa merda toda.

– Que pena.

– A gente vai levando, não é?

– Tem visto o resto do pessoal?

– Não. Ninguém. – a idéia de mentir surgiu em minha mente em um estalo. Eu ainda via Alekssandri ocasionalmente e Barnhard com freqüência, além de alguns outros. Não sei explicar porque agira daquela forma, principalmente com Melanie, ainda que não fosse uma mentira completa e meus contatos se limitassem à superfície da amizade. Mas sabia que aquela seria a última vez que falaria com ela, a menos que ela me telefonasse por sua própria vontade, o que seria improvável. – E você, tem visto alguém?

– Não. Barnhard me ligou semana passada, mas quem atendeu foi minha mãe, eu tinha saído. Estou para ligar de volta desde então.

Barnhard, o Otimista, iria ficar esperando até o Sol esfriar e nossa galáxia ser devorada por um abismo negro.

Depois disso, a conversa transcorreu fácil para ambos e relembramos um pouco dos velhos tempos, discutimos política e eu contei algumas piadas novas. Despedimo-nos prometendo nos encontrar em breve.

Senti-me um pouco melhor ao imaginar que talvez ela tivesse a doce sensação de um dever cumprido ao recolocar o telefone no gancho. Sabia, mais do que especulava, que, mais tarde, antes de dormir, ela anotaria todos os eventos do dia em seu diário, inclusive: “Telefonei para Franz (Classe de 92)”. Passei um tempo tentando me lembrar de como era o rosto dela e sabia que tinha olhos verdes, entretanto, não era o mesmo que lembrar. Não sentia nenhum peso moral em ter mentido, porque era verdade: meu círculo de amizades estava se fechando e, em parte, era minha culpa. Mas talvez Melanie ainda ligue algum dia, convidando-me para sair. Tudo é possível.

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