Estou em uma festa muito legal, primeira atividade social com pessoas da Classe de 92 desde séculos, sem que ninguém precise estar morto para os outros aparecerem. Na verdade, há apenas eu, Carlos Visconti, um cara amigo de Visconti que eu sempre achei um chato e a possibilidade da vinda de Alekssandri. Na verdade, a festa está insuportável e eu não consigo parar de pensar se meu vídeo está gravando o especial ao vivo do R.E.M. que irá passar na MTV ou se irá engripar como quando eu perdi o último capítulo de Twin Peaks.
Primeiro fato: é uma festa de aniversário, o aniversário do amigo de Carlo que inacreditavelmente ainda se lembra de um velho e desagradável apelido meu. A festa ou, melhor dizendo, reunião está rolando na casa da namorada dele e há mais pessoas adultas no lugar do que jovens e todos precisam acordar cedo amanhã. Segundo fato: era para ser uma festa-surpresa, mas a namorada do sujeito contou tudo antes da gente chegar. Terceiro fato: não se pode fumar dentro da casa (eu pergunto o motivo, eles me olham com hostilidade camuflada e eu não insisto).
Estamos todos sentados na sala de estar. Carlo está com sua namorada. O aniversariante está com sua namorada. Eu estou sentado na ponta do sofá, sem cigarros. Eles conversam sobre suas respectivas faculdades com tanto entusiasmo que eu questiono a validade do refrigerante servido. Elas pajeiam o irmão mais novo de quatro anos da dona da casa. “Alekssandri está vindo” é o que eu ouço dizer. Na mesa ao meu lado há uma pilha de revistas “Pais e Filhos” e um CD com as melhores músicas do Simply Red fica deslizando no microsystem. De vez em quando, alguém se vira para mim e pergunta se eu não quero alguma coisa, mas, na maior parte do tempo, eu sou ignorado, os minutos se arrastam, meus dedos coçam e Carlo fica fazendo caretas desengonçadas para o garotinho. Um dos convidados adormece em uma poltrona ainda segurando seu copo de Seven Up; vamos ver uma mancha no carpete daqui a pouco.
“Quantos anos ele tem?”, ela pergunta. “Vai fazer três em Setembro”, responde a outra. “Mas já está tão grande!”. “Nem te conto, querida, esse garoto come como um esfomeado! Todo dia ele come um pratão de mingau de aveia que a irmã faz, não é, meu meninão?!”. “O sorriso dele é tão bonitinho!”. “Você precisa ver ele brincando, que amor! Você não quer mostrar os seus brinquedos pra titia?”.
“Agora, com a inauguração do novo Laboratório de Multimídia, já me sinto mais estimulado em cursar Produção Audiovisual II. Antes não havia a mínima condição de operação…”. “Devemos concluir o CD-ROM até o final deste mês, se todo mundo aceitar trabalhar nos domingos…”. “Terminei com uma média final tão boa quanto a do primeiro período. Com esforço, acho que consigo o Magna Cum Laude”. “Barnhard trancou a faculdade, você sabia?”. “Ele cometeu um grande erro…”.
Socorro. Onde está Alekssandri?
Fotografias. Todos nós juntos nos espremendo dentro do quadro, com o aniversariante abraçando Carlo e eu, discreto, no canto, enquanto uma das garotas tenta decifrar o mecanismo de uma câmera fotográfica tão sofisticada quanto um bambolê. Não contei a ninguém que um dos meus talentos é a fotografia, por isso não pedem conselhos. Afinal, ela consegue encontrar o obturador. Não há flash. Eles não perceberam. A sessão continua: agora o aniversariante e a namorada se beijam e Carlo bate a foto; o flash falha de novo. O aniversariante segura o garotinho pelos braços e encena uma dança. Nenhum flash ainda. O aniversariante com a mãe da namorada… e outras quinze poses do gênero onde o flash (segundo eles) não foi necessário.
Nos sentamos de novo, o CD é trocado, entra Elton John e os casais trocam olhares apaixonados. Alguém me diz que Alekssandri já deve estar chegando e que virá com a namorada. Melanie? Não, claro que não. Eles não estão mais juntos desde… desde a época na qual nosso pequeno grupo era mais unido e não esta colcha retalhada de desavenças e novos compromissos. O garotinho olha para mim, se aproxima com um sorriso, eu faço um esforço para parecer simpático e então ele me dá um chute na canela e volta correndo pros braços da irmã. Todo mundo ri e exclama coisas como: “Que menino travesso!”, “Ele gostou de você, Franz!”, “Que gracinha”. E eu apenas pensando na satisfação obtida na detonação de uma bomba de nêutrons sobre Sodoma ou em um trago bem forte de cigarro (qualquer marca serve). Para deleite de todos, eu resolvo contar uma piada sobre bebês, mas ninguém entende e a conversa vai morrendo. O homem dormindo continua segurando o copo com refrigerante.
Chega a hora do bolo e minha mente se enche de caridade cristã e eu lamento não ter trazido um presente ou ter me vestido de maneira mais festiva. Sinto-me verdadeiramente deslocado com meu velho jeans desbotado e a camisa negra sem estampas que antigamente foram quase o meu uniforme nos intermináveis porres do Círculo Interno. Sou o único a vestir negro esta noite e estou de mãos vazias. Não devia ter vindo; eu não os conheço.
O nome dele foi escrito com jujubas coloridas colocadas sobre a cobertura (juro que não estou inventando) e um par de velas acesas anuncia: 21! Antes mesmo de sentir o sabor de bolo, a minha boca amarga e eu preciso cravar minhas unhas no sofá para não chorar. Se eu fechar os olhos a imagem virá, forte como uma marretada nas costas e eu verei um mar de sangue ondulando. Mas o flash da máquina sacode minhas pupilas e eu recupero o controle. O aniversariante já apagou as velas e todo mundo canta “Parabéns pra Você”. Minha voz sai rouca, soando como bile escorrendo por uma encosta, e, aos poucos, vai entrando no tom. Os fantasmas abandonam a sala e apenas o brilho do flash, milagrosamente funcionando mais uma vez, perturba o ambiente.
A tradição manda que o primeiro pedaço de bolo seja dado à pessoa mais querida do aniversariante. Mas esse gesto geralmente conduz à inveja, injustiças e um tormento para quem escolhe. Na única vez que organizei uma festa de aniversário para mim, meu único desejo foi entregar o primeiro pedaço a Melanie, mandar todo mundo ir embora e lambuzar o corpo dela com chantilly e Coca-Cola. Mas o primeiro pedaço ficou com Timothy e, em resposta, Barnhard ficou uma semana mal-humorado. É dar muita importância para um pedaço de comida. De qualquer forma, essa noite, a namorada do aniversariante levou a melhor sobre todo mundo, com direito, inclusive, a uma daquelas suspeitas juras de amor eterno.
– E o segundo pedaço – ele anunciou com certa pompa exagerada – vai para alguém que é quase um irmão para mim. Um amigo fiel que me acompanha há mais de dez anos e sempre me ajudou em tudo na vida. Por tudo que ele fez, obrigado, Carlo!
Um abraço emocionado e o aniversariante começa a chorar. A namorada também chora e, de repente, até Elton John parece que vai chorar. Se Francine estivesse aqui estaria rindo da emoção alheia e eu teria que cobrir sua boca de beijos para que ela parasse. Entretanto, eu estou sozinho e uma raiva súbita enche meu peito e eu gostaria de gritar bem alto: “Vocês tem a porra da felicidade morando nesta casa, não a desperdicem com gestos dramáticos!!”. Preciso de nicotina ou vou enlouquecer.
Onde está Alekssandri?

seja o primeiro a comentar