Modernidades

Devia ter confiado nos filactérios. Seus instintos diziam isso.

Enquanto os números deslizavam pela tela e o celular vibrava intensamente com as constantes notificações do grupo, Parmênides refletia sobre os passos que o levaram até ali. Era uma fútil tentativa de aprendizado, um velho hábito para evitar repetir os mesmos erros no futuro. Exceto que, desta vez, não haveria futuro.

Devia ter desconfiado quando os mais jovens sequer sabiam o que era um “filactério” sem precisar consultar um aplicativo de dicionário. Quase dois mil anos de sabedoria jogados no lixo agora, as lembranças de civilizações se erguendo e tombando, de reis condenando a si mesmos e religiões inteiras sendo engolidas por cultos ascendentes. Não que isso tenha ajudado Parmênides na hora de fazer a escolha e percebia, tarde demais, que também caíra em promessas vazias de pessoas carismáticas.

O que ele podia fazer? Os jovens pareciam influentes. Vídeos privados no YouTube, grupo secreto no Discord, um milhão de seguidores no Instagram, uma linguagem dinâmica. Depois de tanto tempo, Parmênides temia ser ultrapassado pela Singularidade: Web3, NFT, cripto, as novas palavras mágicas surgiam mais rápido do que ele conseguia acompanhar e “filactério” tinha virado conversa de “boomer”, fosse lá o que isso significasse.

“Estais tentando me convencer outra vez a investir em tulipas?”, perguntou Parmênides. A referência se perdeu na conversa. Aqueles noveau liche não tinham nem cem anos ainda. Cem anos? Qualquer velha japonesa conseguia chegar nessa idade só comendo peixe e fazendo tai-chi. Ainda assim, essa geração digital acreditava saber das coisas. Parmênides chegara aos 1845 anos confiando nos velhos métodos.

Porém, agora podia sentir a energia vital se esvaindo e a fúria dos séculos cobrando seu preço. Devia ter confiado nos filactérios, nos receptáculos artisticamente gravados que mão alguma saberia fazer nos dias de hoje, nem mesmo com um tutorial na internet.

Jamais deveria ter deixado sua alma na blockchain.

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