Zero-28

Chovia em Sodoma havia três dias e os bueiros explodiam como espinhas, jorrando para as ruas todo o lixo esquecido por seus habitantes. A pintura dos carros se dissolvia gradualmente e quem ficasse nas ruas sem um guarda-chuva estava se candidatando a ficar com a pele irritada e os olhos lacrimejantes. Melanie e Alekssandri haviam rompido seis meses antes e o gosto de Lim Iakeda em minha boca começava a azedar, uma ressaca mal-curada de quatro anos. O tempo de escola tinha terminado: a Classe de 92 entrara para o álbum de recordações e os dias que faltavam para iniciar as aulas de faculdade iam escapando como água da chuva ladeira abaixo. Não havia forças para remar contra a corrente e, apesar da melancolia, também não havia um único de nós que não estivesse ansioso para recomeçar a vida.

O transformador elétrico da rua explodiu e a luz acabou antes que eu terminasse de escutar “Sultans of Swing”. Séculos de civilização reduzidos às trevas primitivas devido à chuva ácida. Nada de lâmpadas para ler “Superman”, nada de MTV, nada de Super Mario Brothers. Apenas o silencioso tédio da caverna e uma vontade abissal de desenhar cenas do cotidiano nas paredes. A inquietude me fazia pensar em Lim, o que não era (não é) positivo. O telefone estava em algum lugar ali nas sombras e tudo o que eu precisava fazer era encontrá-lo, ligar para ela, desperdiçar o meu tempo e o dela com conversas inúteis pontilhadas com sutis insinuações românticas de ambas as partes e depois ir dormir, sonhar com a aparentemente inevitável conquista para o dia seguinte. Entretanto, chovia e aquele murmúrio químico nas janelas estava me dizendo: “esqueça Lim, esqueça Lim, esqueça Lim” ou então “vem aqui agora, humano, deixe-me lavar a carne de seus ossos, vem”.

O telefone tocou. Ainda havia civilização do lado de fora da cortina de água. Era Melanie.

Ela não estava chorando ou fria ou distante ou bêbada, mas contente em falar comigo e disposta a conversar. Estava com saudades dos rostos conhecidos de escola que, durante todo o seu período ao lado de Alekssandri, haviam se tornado meros adornos de papel de parede. Talvez estivesse tentando adiar o momento de subir mais um degrau em direção ao chamado ensino superior. Não perguntei e também não importava. Melanie estava simpática e sua voz na escuridão afastava os espectros de Lim de volta para o baú. Ela conseguia me confortar.

E, por oito misericordiosos meses, pensar em Melanie me manteve longe de encrencas. Principalmente de Lim.

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