Zero-39

O Círculo Interno tinha se esfacelado e ninguém possuía a coragem de olhar nos olhos do outro e partilhar a culpa. Cada um achou por bem se recolher em seu canto e tentar viver sem aquela sombra. Nada de encontros furtivos, nem telefonemas. Apenas o silêncio. E, mesmo Francine, durante o tempo em que vivemos juntos, evitava me dirigir a palavra além do trivial de um romance cotidiano. Ela também parara de escrever. Eu tentava fingir que tudo voltara a ser como era antes de um conhecê-los, mas tudo que me restava era Lim Iakeda e um punhado de memórias desconectadas da escola e eu não podia negar que estava no meu segundo ano de faculdade e que Francine estava debaixo dos meus lençóis, e não podia negar que Timothy sabia desse último fato. Apesar da conjuntura desfavorável, fui ao apartamento de Helen tentar remendar os pedaços de nós espalhados sobre Sodoma. Se havia alguém capaz de aglutinar novamente nossa trupe de ébrios, esse alguém era Mamãe Helen. Ela saberia dizer as palavras certas para apaziguar nossos medos e restaurar o que havia sido. Mas, quando cheguei lá, descobri que eu precisava mais dela do que o Círculo Interno e que não estava ali por eles, mas por mim. E conversamos sobre o Amor.

– Sonhei que Francine tinha ido embora. Que ela estava em um lugar distante pensando em nós, mas incapaz de voltar e inacessível. Eu pedi por socorro no sonho e ela não me ouvia. Então, Timothy aparecia e me dizia que ela ia demorar muito para voltar.

Helen notou que minhas mãos tremiam e tive que acender um cigarro para me controlar. Ela não gosta de cigarros, mas, daquela vez, assim como nas outras, ela não reclamou. Continuei:

– E ele dizia também que iria partir para um lugar ainda mais distante do que aquele onde estava Francine.

– Você contou a ela sobre o sonho?

– Você sabe. Francine não acredita nos meus sonhos. Ela tem o Tarô dela e eu não a recrimino.

– Não se trata disso. Estou falando de confiança e ansiedade, não de oniromancia. O significado é bem claro: você tem medo de que ela parta. Não é?

– Ela entrou com pedido de bolsa de estudo em várias universidades, algumas fora da cidade. – Eu sei que ela vai partir. E breve.

– Você não respondeu minha pergunta.

Helen não conseguia ficar zangada. Não era de sua natureza.

– O que você perguntou?

– Você tem medo de que ela parta, não é? Responda, Franz-meu-velho.

– Não me chame assim!

Tarde demais percebi que tinha sido ríspido com a única pessoa que não merecia. Mas ainda assim ela não se perturbou e me ofereceu uma xícara de chá de hortelã. Eu olhava para ela com um misto de culpa e espanto no meu rosto e aceitei o chá.

– Sinto muito. Não pretendia ser grosseiro.

– Está tudo bem. Eu sobrevivo. Mas, me explique: por que você acha que Francine vai embora. Ela não te ama?

– Eu acho que sim e ela também. Mas, para ficar ela precisaria ter certeza. Absoluta, total e sem restrições de qualquer tipo. Ela tem medo de desperdiçar sua vida ao lado de alguém que não seja exatamente sua “alma gêmea”. Ela age, ou vai agir, se preferir, por prevenção à perda.

– Não é só ela que age assim. E você, Franz? Você a ama?

– Sim.

– E já contou a ela?

– Não.

– Por quê?

– Porque eu não tenho certeza de que ela me ama. Não quero expor meus sentimentos para alguém que não esteja pronto para recebe-los. Já fiz isso antes e foi uma merda.

– Vocês formam um casalzinho muito estranho. Já pensaram em casamento? Falo sério. Estudei o mapa astral dela e descobri que ela só vai ter dois momentos auspiciosos para contrair matrimônio: agora e daqui a quinze anos. Se ela se casar fora desses períodos, vai estar fazendo o que mais teme. Desperdiçando a vida.

– Nem eu e nem ela acreditamos em casamento. É uma fraude psicossocial.

– Vocês tiveram maus exemplos. Os meus pais continuam se amando, trinta anos depois.

– Congratulações.

– Sabia que, se você pedir, ela não vai partir?

– Pedi-la em casamento?!

– Esquece essa história de casamento. Estou falando de pedi-la para ficar. Se você pedir, ela não irá partir.

– E se ela partir, apesar do meu pedido? Eu não poderia suportar.

– Prevenção à perda, novamente.

– Sempre. Você já se apaixonou?

– Eu já fui casada.

– Você está brincando?? E nunca nos disse nada!! Quando foi isso?

– Eu tinha quinze anos, ele vinte e dois. Timothy conhece a história toda. Não durou um ano.

– E como foi?

– Uma “merda”, como diria você.

– Eu estava certo. Não funciona.

– Eu estava apaixonada e inventei uma gravidez. Ele casou, mas separou quando descobriu a verdade. Eu queria ser feliz ao lado dele. Hoje eu só quero alguém para preencher o meu sofá.

Ela parecia triste e foi um dos poucos momentos que eu lembrei o quanto era mais velha do que nós.

– É algo triste para contar, mãe Helen. Então, você não ama ninguém.

– Amo a mim mesma. E tenho certeza disso: absoluta, total e sem restrições. Amo o que escrevo e não odeio ninguém. É uma boa vida. Não há nada de triste.

– Você casaria com alguém apenas para ter com quem partilhar o arroz com feijão do dia-a-dia?

– Sim. Casamento e divórcio são apenas rituais. Você e Francine não confiam nessa idéia porque atribuem a ela uma importância maior do que ela realmente tem. Vocês esperavam por uma experiência reveladora de união e harmonia eternas, e logo se decepcionaram. Vocês têm sonhos yuppies de consumo.

– Agora você parece Timothy falando…

– Desculpe. Acho que falei demais. Quer mais chá?

– Não, obrigado.

Pensando agora naquela tarde de outono, momentos antes de Francine ir embora e quando Tim ainda vivia, fico imaginando se meu relacionamento com Judith não se enquadra naquilo que Helen dizia sobre compartilhar o cotidiano. Porque eu sei que não a amo. Tenho certeza absoluta, total e sem restrições.

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