Eu estava apaixonado por Lim. E isso se tornou tudo o que eu queria enxergar. Dividi o mundo em duas cores: o preto e o branco, o ruim de um lado e o bom do outro, com gradações de cinza entre os extremos. E tudo era ela. Minha deusa de sorriso-flor e pele perfumada. Minha torturadora implacável armada com todo um arsenal de instrumentos dilacerantes. Meias-verdades, promessas quebradas, hipocrisia, lábios doces, língua ardente e sedução. E eu perdido em seu labirinto, imaginando se a próxima porta conduziria ao êxtase ou à desgraça.
O relacionamento entre ela e Noburu fora interrompido a um custo de sangue. Soube que ele socara a parede até as juntas ficarem em carne viva e, por um longo tempo, ele apareceu na escola com curativos no punho esquerdo. Ele ficou estranho depois disso e tentou ser meu amigo, embora todos soubessem o que eu sentia por Lim. Ele realmente tentou, mas se esquivava toda vez que eu lhe perguntava o que havia acontecido. “Ela é muito exigente, Franz, e pode ser cruel se você não se humilhar”, e nada mais disse. Mas eu parei de confiar nele no dia em que eu estava estudando com Lim no apartamento dela e um mensageiro chegou com flores. Eram de Noburu. E o bilhete que acompanhava (que Lim leu em voz alta, propositalmente) não deixava dúvidas do quanto de seu amor-próprio ele estava disposto a sacrificar: Noburu assumia toda a culpa de algo que eu tinha certeza não fora causado por ele. Ela devolveu tudo ao mensageiro e não falou sobre o assunto até terminarmos de estudar.
– Oh, meu Deus! O que deu nele!? – ela riu subitamente.
– Nele…?
– Noburu! Mandar flores para mim! Será possível? – continuava rindo.
– Não sei o que dizer. Porque alguém não mandaria flores para você?
– Você é ótimo, Franz. Eu te adoro!
E ela olhou para mim de uma forma que eu sempre interpretava errado. Parecia que poderia avançar sobre meus lábios e me beijar apaixonadamente (e algumas vezes ela fazia isso), mas o sorriso enigmático permanecia em seu rosto e ela jogava o cabelo para o lado e dizia alguma coisa totalmente diferente do que eu estava pensando. Ela era intoleravelmente imprevisível. Naquele dia, ela apenas segurou minha mão entre as suas e me avisou que estava ficando tarde. Fui embora, confuso sobre tudo que presenciara.
Na semana seguinte, ela e Noburu se reconciliaram.

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