Zero-43

Estou no velho casarão da família Richter e estou me vestindo para a batalha. Sapatos que pertenceram ao meu pai são retirados do armário e rigorosamente engraxados até que eu consiga enxergar meu vulto disforme em sua superfície. Olho para meus velhos All-Star largados no fundo da gaveta e percebo o quanto eles ficaram desbotados nestes últimos anos. Volto ao armário do meu pai e escolho um par de meias novas de cor neutra, experimento a calça de linho que usei na formatura da escola e detestei. Ainda serve, abro a caixa do cinto que ganhei de aniversário de Alekssandri há dois anos, visto a camisa social branca que comprei ontem, numa loja na qual e nunca havia entrado antes, e gosto dela. Desembrulho o paletó que Barnhard me emprestou (“pode ficar com esse troço, não uso isso nunca mais”), mas não consigo achar a ombreira esquerda. Procuro por todo o quarto e ainda assim não encontro. Desisto, jogo fora a ombreira direita, visto e ficou uma merda. Vou ao armário da minha mãe e pego duas ombreiras que me pareçam ser de macho, experimento, mas não estão passando a imagem desejada. Tiro as ombreiras e deixo como está. Agora vem o pior: os “três grilhões”, diria Timothy. Primeiro aperto o cinto, não é ruim, depois prendo um relógio enorme no pulso e minha circulação sanguínea começa a estranhar. O relógio tem alarme, medidor de pressão atmosférica, cronômetro, bússola e ainda diz as horas (local e de cinco cidades diferentes). Por último, eu coloco a gravata. Forca, coleira, cadarço de pescoço, já chamaram isso de tudo quanto é nome, mas, francamente, nenhum deles podia me preparar para esse suplício e tenho certeza de que o uso contínuo desse trapo colorido prejudica o cérebro.

Estou pronto. Olho para o espelho e não consigo segurar o riso: “Pareço um adulto, meu Deus!!”. Pelo menos, estou vestindo minha Cueca do Fodão, assim, se no meio da entrevista eu tiver uma crise de identidade etária, eu só preciso pedir licença, ir ao banheiro e abrir a braguilha. “Com licença, eu preciso me certificar que ainda tenho vinte e um”.

Pego meu portfólio, mando um beijo pra garota no pôster da Playboy de meu antigo quarto e caio fora.

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