Zero-45

Olhava para o teto e tudo o que via era o Vazio. Não o vazio que as pessoas pensam conhecer após um par de noites mal-dormidas ou uma garrafa de vodka mal-destilada. Não fazia a sua cabeça latejar, mas deixava sua mente inquieta. O fluxo de pensamentos se interrompera e Timothy se sentia como um vaso de porcelana pendendo sobre o precipício, esperando o vento certo ou o vento errado para completar a queda ou rolar para um lugar seguro, se perguntando por que os ventos mudam, e essa sensação era o mais próximo da morte que já chegara e ainda assim estava longe. Não havia a paz que ouvira dizer. Apenas o teto e o Vazio por trás.

Ouviu o telefone tocando e aquilo reativou por um relance o rio das lembranças. “Porque você não amadurece, Timothy?”, ela dissera. A força das palavras estava nos lábios de quem as emitira e ele jamais poderia negar que houvesse algo de concreto na pergunta. Amadurecer? Mas, para quê? Para quem? Para comprar uma carteira do Clube dos Executivos e passar os finais de semana tomando martinis, trocando o sangue das veias por água de piscina? Será que ela não conseguira perceber que ele apenas estava tentando seguir um caminho diferente?

O telefone mais uma vez. Ele precisava dela, era seu estimulante, não o tipo de lixo químico que sua mãe e todas as suas amigas ingeriam para permanecerem dóceis, mas uma forte poção alquímica que o fazia se esquecer do quanto as coisas podem parecer odiosas quando se tem dezessete anos e o mundo tenta te foder. Com Cecília, ele podia voar, sem ela, era um vaso tombando no Vazio.

Mas Cecília precisava de alguém que dirigisse um carro sofisticado e vestisse grandes grifes e a levasse para as melhores festas e pagasse as entradas do cinema e ouvisse qualquer coisa que tocasse nas rádios de sucesso com um refrão assobiável nos lábios e

O telefone. Podia ser ela. Ela podia ter mudado de idéia, se arrependido daquilo tudo que dissera. Prolongaria o jogo por mais um tempo, eles podiam ser amigos, nenhum compromisso além da simples companhia e ele poderia aprender como viver em seu mundo e talvez o futuro pudesse ser um lugar mais legal para se visitar. Atendeu ao telefone.

Não era Cecília. Sua mente encolheu-se novamente e ele deixou de prestar qualquer atenção à ligação, sustentando o telefone junto ao ouvido e calculando o esforço para desligar. Era Lim Iakeda e dizia que o amava, que queria vê-lo e não poderia esperar até a segunda-feira. Sentiu vontade de mandá-la à merda, mas não fez isso. Já havia gastado toda a sua saliva durante a tarde, dito alguns palavrões e não resolvera nada. E Lim continuava se humilhando, pedindo que ele dissesse alguma coisa, olhando para o teto também e esperando ver algo que não fosse o Vazio. Pensou em desligar e esquecer que Lim ou Cecília tinha existido. E se lembrou das bolas de neve descendo da encosta e da fita de Möbius que vira no Discovery Channel.

Ele a convidou, com uma voz tão morta que apenas uma garota apaixonada poderia achar convidativa. Ela aceitou. E, quando ele apertou o botão do interfone para que ela subisse até o apartamento, sua mente continuava imersa no vácuo, com a imagem de Franz flutuando em um oceano de culpa e as palavras de Cecília soando lá dentro.

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