Zero-47

Meio-dia. Centro da Cidade. Estou almoçando com meu pai e evitando discutir sobre dinheiro para que ele não saiba que estou a três meses sem pagar a faculdade porque eu gasto tudo que ele me dá com tele-oráculos de todo tipo e filmes P&B para minha câmera. Por outro lado, também tenho certeza de que ele está escondendo alguma coisa de mim e não faço a menor questão de descobrir. Nesse momento, ele está falando da minha geração, naquele tom de voz uma oitava abaixo que ele utiliza quando está dizendo alguma coisa que acha importante:

– Vocês estão desperdiçando a chance que nós demos a vocês. Meu pai jamais teria essa conversa que estou tendo contigo. Era um homem duro, exigia obediência e disciplina. Hoje vocês têm muito mais liberdade, o mundo é mais fácil. E sabe por quê? Porque minha geração lutou muito para conseguir isso. Muito mesmo. Foi uma revolução atrás da outra. Revolta estudantil, revolta feminista, revolta racial, revolução dos costumes. Todo mundo lutava naquela época, atrás daquilo que queria. A gente saiu de casa cedo para construir nossas vidas. E agora eu vejo vocês se arrastando por aí, sem objetivos, sem diversão, sem nada. Será que nossa luta não modificou nada?

A imagem que surge em minha cabeça é a de minha mãe em pé na cozinha, duas horas da tarde, contemplando a pia repleta de sobras do jantar do dia anterior. Ela usa um roupão manchado de café por cima da camisola e tem um olhar perdido. Ela está procurando o Remédio-pra-Acordar, para cortar o efeito do Remédio-pra-Dormir, enquanto as cinzas vão se acumulando na ponta do seu cigarro. Sufoco tudo com um gole de Sprite e deixo rolar.

– Por quê você não respondeu aos nossos telefonemas/

– Não tive tempo? – eu minto. Não sei se ele percebe.

– Muito trabalho na Faculdade?

– Muito.

– Quando vai se formar?

– Ano que vem.

Ele parece satisfeito com a resposta. Quando ele tinha a minha idade, ele estava completando cinco anos de casa dentro de uma agência bancária e conhecendo minha mãe no ponto de ônibus. Nenhum dos dois passou perto de uma Universidade e sequer imaginam o quão chato pode ser. Sinto pena de suas esperanças de colocar um diploma no álbum de recordações da Família Richter e resolvo compartilhar com ele a única coisa boa que me aconteceu nestes meses:

– Estou morando com alguém.

– Quem?

– O nome dela é Judith. Se mudou para o apartamento há duas semanas. É uma amiga do colégio.

– Ela é judia?

– Não estamos casados, pai.

Revolução racial porra nenhuma. E quem com ferro fere…

– E como está o relacionamento entre você e mamãe?

– Vai bem. – ele mente. Não sabe se eu percebo.

– Sinto a falta dela.

– O banco está recebendo meus depósitos? – ele muda de assunto, embora sem mudar realmente.

– Sim. Pontualmente.

– A partir do mês que vem, vou precisar reduzir o valor do depósito. Vai ser temporário. Sua mãe deseja reformar o sobrado, só vive falando nisso… você sabe como ela é. Você se incomoda? Se tiver algum problema, por favor, me diga.

– Está tudo bem, pai. É apenas dinheiro. E Judith está ajudando.

– Claro que sim. Não vejo a hora de você se formar e começar a trabalhar. Você sabe que pode contar comigo para o que quiser e que nunca vou deixar faltar nada para você, mas isso não é muito saudável. Franz, você precisa ganhar seu próprio salário. Arranjar um emprego e começar a…

– Coloquei meus portfólios em algumas agências.

– Fotografia não dá dinheiro. Você precisa pensar em abrir um consultório ou então conseguir algum estágio em algum Departamento Pessoal. A firma está contratando gente nova agora e, se você quiser, eu posso falar com Heidel para marcar uma entrevista para a semana que vem…

Estou tão interessado em exercer Psicologia quanto em operar meu apêndice, mas não digo isso para ele. Afinal, até agora foram três anos de mensalidades jogados pela janela.

Terminamos de comer em silêncio. Eu refazia os cálculos de minhas despesas e dizia adeus à caixa de CDs do Led Zeppelin e às aulas de bateria que Judith queria fazer. Ele olhava para mim, mas desviava quando eu o encarava e não consegui concluir se ele estava decepcionado ou não, ou se o Vovô Richter tinha se recuperado. Mas ele estava pensando em outra coisa:

– Sinto muito pelo que aconteceu com Timothy Darkdream. Sua mãe ficou chocada.

Era difícil imaginar minha mãe despertando de seu coma químico apenas para ficar chocada.

– Foi uma grande perda, pai.

– Você sabe por que ele se… ele morreu?

– Não. Ele tinha uma dor muito estranha dentro de si. Foi isso.

Ele apertou minha mão entre as suas e havia medo em seu toque. Ele não queria carregar o meu caixão em uma manhã de Ano-Novo. Estávamos empatados. Apesar de nossas diferenças, eu também não estava interessado em enterrá-lo.

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