Zero-49

Junto ao túmulo de Timothy, descubro que alguém trouxe flores que me fazem lembrar de Francine. Quem mais traria flores para um poeta que preferia a verdade às estrofes? Ele foi mais odiado do que temido.

Quando Melanie se arrastava até nós em depressão ou quando posava de menina feliz ao lado de um babaca qualquer de faculdade, Timothy não hesitava em lembrá-la de que a cura para as suas incertezas se chamava Alekssandri. E ele estava certo. Não devido àquela crença universal do “Amor Perfeito”, mas porque era óbvio que Melanie seria uma boa esposa e era óbvio que Alekssandri seria um bom marido. Ela tinha o cheiro de doces caseiros e Vaporetto entranhado nos cabelos e ele nascera para usar gravata e ser o coordenador-chefe do Setor X de algum lugar com ar-condicionado e vaga no estacionamento. Palavras de Timothy.

Mas quem pode julgá-los? Eu faço essa pergunta para seus ossos, velho amigo. Enquanto Melanies e Alekssandris mantêm o vocábulo Família firme no dicionário, pessoas como eu, você, Francine e uma pequena turba de anônimos vagamos de divórcio em divórcio, não nos contentando com nada menor que um sonho antigo, fugindo da rotina como vampiros ao alvorecer. Você zombava da cegueira que repelia Melanie e Alekssandri um do outro ao mesmo tempo em que esperava pela vinda de alguém que nunca chegou.

Por tudo que você disse para eles e para vários outros, eu acho que as flores em seu túmulo são de Francine. Pela crescente vontade de reencontrá-la para não desmoronar, eu acho que as flores em seu túmulo são de Francine. Mas são minhas. Eu as trouxe ontem.

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