Zero-51

Barnhard não confia em Judith. Ele diz que ela é louca, o que é uma acusação grave vinda de Rémy, o Gritador.

Durante o primeiro ano de faculdade, Barnhard foi possuído pelo espírito de Maio de 68. Então, por um breve momento, Bob Dylan saiu da parede do seu quarto e cedeu espaço a Ernesto Che Guevara. Ele conseguiu ler “O Capital” em um único fim-de-semana e planejou a derrocada final de Sodoma em um mês. Ele e Timothy discutiam sobre a melhor forma de ressuscitar o comunismo, enquanto esvaziavam uma garrafa de Wyborowa e Francine e eu assistíamos aos Guns N’ Rose pela MTV. Então era o discurso da Juventude Proletária Internacional de um lado e “Knockin’ on Heaven’s Door” do outro, com breves interações, quando Barnhard parava tudo o que estava fazendo para nos lembrar que o “porco fascista burguês do Axl Rose” era incapaz de compreender a poesia colocada por Dylan na letra da música. Francine olhava para ele com indisfarçado desdém, mas não porque ela não concordasse com o que Barnhard dizia, e sim porque ela também achava que ele não compreendia Bob Dylan como deveria. Timothy recolocava a nova distribuição de renda urbana de volta à pauta e a Revolução silenciosa prosseguia.

Foi durante o Natal daquele ano que Barnhard Rémy tornou-se o Gritador. Diante de uma longa fileira de carros na entrada do estacionamento de um shopping center, do trânsito confuso, com motoristas desafiando todas as regras de civilidade para conseguir uma vaga na fila, enquanto outros tentavam inutilmente encontrar uma brecha para fugir daquele caos, com a temperatura dez graus abaixo do que é considerado frio, com um murmúrio humano indistinguível preenchendo todo o ar já conspurcado pelo monóxido de carbono e pelo apelo insistente das buzinas, com centenas de pessoas atravessando entre os carros com um olhar de desvario na retina e incontáveis embrulhos de inúmeras cores (todas berrantes) balançando nos brancos, crianças gritando de frustração por não ganharem o brinquedo do momento, um guarda de trânsito apitando para um carro na contramão e, acima de tudo, um imenso boneco inflável de Papai Noel flutuando e lançando sua sombra apocalíptica, Barnhard Rémy não se controlou e começou a gritar. Ele subiu no teto de um táxi, esticou seus braços para a multidão e berrou: “Burgueses! Queimem no Inferno!”. No princípio, ninguém prestou muita atenção, mas ele continuou repetindo aquelas palavras e, como ele não parava e o engarrafamento não andava, as pessoas começaram a ficar apreensivas e eu quase acreditei que Barnhard conseguiria inseminar a dúvida em suas vidas. Mas ele não estava nem aí para ideologia, continuou repetindo “burgueses, queimem no Inferno!”, extravasando sabe-se lá o quê e só parou quando o policial o removeu de cima do táxi e o arrastou para a viatura. Nesse momento, Rémy começou a cantar o hino da Internacional Comunista.

Naquele ano, Barnhard ganhou um computador de presente de Natal e duas semanas numa colônia de férias fora da cidade. Então, eu não acho que Rémy, o Gritador, possa julgar agora Judith como louca.

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