Reencontrei também Raymond, o profeta do gargalo. E ele não havia mudado nem um pouco. Quando nós paramos de freqüentar o Sandman, ele continuou por lá. Arranjou novos companheiros de garrafa, diluindo as lembranças de nossas noites quentes com farta quantidade de uísque sem gelo e piadas infames, se aproximando, a cada copo, do dia em que não teria mais lembrança alguma. Seus novos amigos também foram sumindo e ele foi arranjando outros, mas cada um que surgia era menos tolerante às suas bebedeiras, seu senso de humor e suas opiniões do que aquele que partia. Houve noites em que ele bebia sozinho e não incomodava ninguém, se integrando ao local como um abajur velho que não acende mais. E havia noites em que ele e seu grupo podiam ser ouvidos do outro lado da rua cantando jingles e temas de desenhos animados (era uma sinfonia de “Flintstones” e comerciais que mergulhavam no silêncio da madrugada como uma mina de profundidade). Depois ele passou a beber sozinho todas as noites e seus pais o expulsaram de casa (quando seu irmão mais novo foi flagrado bebendo ponche batizado em uma festa hi-fi).
Mas Raymond tinha uma profunda (?) crença de que o álcool, assim como certos tipos de plantas alucinógenas, poderia ser utilizado como força propulsora no aprendizado dos mecanismos ocultos do Universo. De alguma forma, Baco se apiedou de seu sofrimento e agora Ray trabalha como faz-tudo no Sandman e dorme em um quartinho nos fundos do bar.
Eu entrei esmagando garrafinhas de tequila vazias debaixo do solado do meu tênis All-Star. Raymond, meio desajeitado, varreu os detritos para um canto do quarto. Ele estava visivelmente nervoso e já tinha trocado meu nome duas vezes, me chamando de “Frank”.
– MTV? – ele perguntou para mim, apontando para um velho televisor possivelmente preto e branco colocado em cima de um tambor de desinfetante.
– Não, obrigado.– consultei o relógio – Eles estão repetindo agora um show do Pearl Jam que eu já tenho gravado.
– Ah, sim. Cartoon Network?
– Não, obrigado. Está na hora do “Space Ghost” e eu detesto “Space Ghost”.
– Tudo bem, então. Quer se sentar?
Ele tirou uma pilha de caixas de pizza de cima de uma poltrona verde-abacate. Quando ele se abaixou, um pedaço de cueca branca encardida transpareceu por baixo da calça jeans (que era, certamente, um número maior que o adequado) e eu tive vontade de ir embora. Fiquei parado no mesmo lugar. O suor escorria pelas minhas axilas e era quente e gorduroso, como o ar daquele quarto que eu tentava respirar. Raymond me encarou de um jeito apatetado, fixo, sem piscar.
Eu tinha consciência de minha própria crueldade. Não importava o que estava passando pela mente de Raymond, era algo importante para ele e eu estava estragando tudo. Mas não podia evitar. Uma sensação de náusea vinha subindo pelo meu ventre e ameaçava explodir entre meus lábios com riso de escárnio, pura histeria. Chame de sadismo, se quiser, mas eu estava descobrindo que não gostava de Raymond e que era prazeroso externar para ele essa repulsa.
– Foi um prazer revê-lo, Ray. Mas eu tenho que ir embora agora. Prometi levar minha namorada para ver “Seven” na sessão…
– Tenho uma mandala, Franz. Tracei no chão do banheiro das mulheres. É forte.
– Não devia brincar com essas coisas.
– Elas não usam mais o banheiro. Está fechado para reformas faz seis meses.
– Boa sorte, estou indo.
– Espere, Frank! Eu tomei todos os cuidados. O desenho está perfeito. Eu… vi no Livro de Francine. Segui tudo certinho.
– É difícil de acreditar…
– Vamos. Dê apenas uma olhada. É uma mandala perfeita. Sem erros. Mas não posso ativá-la sozinho.
– Qual é a finalidade?
– Você não iria acreditar.
– Qual é a porra da finalidade?!
– Falar com os mortos.
Olhei para ele, incrédulo. Ou o filho da mãe tinha pirado de vez ou estava curtindo comigo. E não havia nada de magia negra no Livro de Francine. Nem uma única linha que inspirasse um fantoche etílico a construir um encantamento desta esfera. Nem Timothy ousaria lidar com…
– Seu merda desgraçado… está cavando a própria cova, Raymond, e sabe disso. O que Francine te disse sobre o livro?! Porra, Ray, esse troço vai ferrar contigo e não vai ter ninguém para salvar o teu rabo ou álcool o suficiente no mundo para apagar as tuas lembranças da próxima vez. Você vai passar o resto da tua vida com a boca enfiada num gargalo, chorando como um bebê!! Pode me dizer porque você quer falar com os mortos?!
– Eu quero falar com Timothy.
– Timothy não quer falar com você. Muito menos através de um monte de desenhos no ladrilho de um banheiro! Volte a escrever, Ray. É a melhor coisa a se fazer.
– Foda-se, Frank. Eu quero saber. Eu quero saber porquê. Eu quero saber o que foi que deu errado conosco.
– Você não precisa de um oráculo. Você precisa de um analista.
– Não venha dizer que nada deu errado pra você, Franz. Você não é perfeito. Vamos! Me diga! Está tudo bem contigo?? Não se sente desmoronando, Franz-perfeito?!
– Não!!
– Mentiroso.
Vi no olhar apatetado de Raymond uma certeza que já não existia mais no reflexo do meu espelho. E vi que ele tinha desenhado a mandala sem cometer erro nenhum, dando um passo a mais em uma estrada que a maioria de nós tinha abandonado. Mas não queria ver aonde aquilo poderia nos levar, não queria ouvir a voz de Timothy me dando sermões de algum pós-vida. Tinha alguém esperando por mim, capaz de anestesiar minhas sensações por mais um tempo e prolongar o que eu não podia perder. Como explicar a Ray sobre Judith?
– Eu preciso ir.
– Pegaram você, não foi, Franz?
Passei pelo Sandman e senti todos os olhares sobre mim, como presas de lobos se fechando sobre carne quente.

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