– Você poderia ter sido feliz sem ter nos conhecido, Franz-meu-velho. Seu caminho não precisava ter sido necessariamente o das artes ou o da magia. Você poderia ser um excelente psicólogo.
Olhei para Francine buscando um sentido naquelas palavras. Ela parecia concentrada apenas na pintura à sua frente e havia tanta tinta em sua blusa quanto havia na tela. Eu ajudava limpando os pincéis e acendendo os cigarros, enquanto Francine afirmava estar trabalhando em um projeto de final de período, mas não progredia. Ela tirou a blusa e arremessou com precisão no cesto de roupa suja do outro lado da sala. Olhou para mim e mandou um beijo, mas a visão de seu sutiã branco não estava me excitando naquela manhã.
– O que eu estou explicando, Franz-querido, é que foi um erro tê-lo admitido no “Círculo Interno”…
– Não sei se te contaram, mas eu tenho sentimentos…
– Eu analisei o seu mapa astral e sabe o que descobri?
– Que você será a futura senhora Richter?
Eu me arrependi no instante que falei. Francine não assumia, mas jamais perdoaria o que seu pai fez a sua mãe e era avessa à idéia de usar o sobrenome de qualquer um, fosse o meu ou o de Woody Allen. E não assinava cheques com o nome completo: apenas Francine. Sempre.
– Eu descobri que você é um cara normal, com sonhos normais de família burguesa. Descobri que debaixo do seu verniz de merda existe um carinha doido para levar os “nove filhos” à Disney e entupir o rabo de souvenires do Pateta!
– Ei, calma aí! Sinto muito se a palavra “casamento” lhe dá urticária, mas eu acho que você está muito errada a meu respeito.
– Não mesmo!! Está muito claro em seu mapa e Helen disse que sonhou sobre isso.
– Sobre o quê?!
– Sobre você ser normal. Entenda, você não precisava da Magia, da Literatura ou da fotografia para ser feliz. Você ia ter tudo que precisava quando terminasse a faculdade… eu acho que você iria se casar com uma colega da Psicologia e aplicar alguma nova técnica educacional nos seus filhos e levar uma vida saudável… Você sabe como é, constituir família e coisa e tal.
– Francine, esta é a maior bobagem que eu já…
– Deixe-me falar!
– Tudo bem. Vá em frente. – acendi um cigarro e esperei.
– Você podia ter sido feliz, “confortavelmente entorpecido” ou “outro tijolo no muro” sem nunca perceber. Mas, então, eu, Tim e todo mundo enchemos sua cabeça com esta merda anarquista e dark e pós-modernóide e agora você não pode mais enxergar o mundo como era, sem que ache defeituoso este modelo que nos oferecem.
Ela pegou o cigarro de meus lábios, deu duas baforadas e esmagou-o contra um cinzeiro.
– Entenda, Franz. Você não é um “freak” inadaptado ao convívio social como nós somos. É o nosso destino. Se tentarmos ou formos obrigados a, levar a vida como querem para nós, estaremos desafiando o nosso destino e vamos pagar por isso. Mas você… os sinais são claros. O sistema quer você. Sodoma. E a cada dia que você recusar seguir o seu papel, você irá sofrer muito. Internamente.
Ela olhou para mim com os olhos úmidos e um milhão de coisas passaram pela minha cabeça. Ela estava certa. Se não fosse por Francine e Timothy e os demais, minha vida seria muito mais simples, isenta de anseios e dúvidas e, talvez, feliz. Mas, através deles, eu percebera que havia algo de podre sugando os sonhos daqueles que aceitavam as regras do jogo e que as pessoas passavam tanto tempo lutando por produtos por produtos de consumo que esqueciam quem consome quem. E, a partir daquele conhecimento, não havia possibilidade de retorno para mim. Seria impossível varrer da memória as noites etílicas de encanto e debate, votar a favor da pena de morte ou sorrir para os clientes enlouquecendo e depois dormir em paz, pensando no clube de golfe. Não eram mais meus valores e, se antes teria sido fácil aceitá-los, agora era impossível segui-los.
Estendi meus braços para Francine e ela se aconchegou junto a mim, tremendo como um animalzinho assustado e, por um momento, me senti poderoso. O poderoso Franz Richter, mais durão que a impetuosa Francine do Círculo Interno. Mas era ilusão. Logo eu também estava tremendo.
– O que acontecerá conosco? – eu perguntei.
– Vamos amadurecer e morrer. Como chamas antes do temporal.
– Não me abandone. Por favor?

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