– Não é irônico? – pergunta Eugene – Lim amava Timothy. Tim amava Francine. Francine amava você. Você amava Lim. Mas não foi isso. Que o matou.
– Não sou obrigado a ouvir isso de você…
– Silêncio! Eu não preciso estar aqui. Estou quebrando regras. Para isto.
– Para o quê?
Eugene segura minha nuca e empurra minha cabeça contra a mesa, com violência o bastante para derramar o café frio da minha xícara e fazer minha cabeça ressoar como um sino enferrujado. Ele mantém meu rosto pressionado junto à mesa, um calor extraordinário emana de sua mão e sinto uma força esmagadora em meus ombros, cem bilhões de toneladas de concreto e ferro impedindo meus movimentos. Na lanchonete, a vida segue seu rumo normal.
– Eu posso ouvir, Franz. Seu coração batendo mais rápido. Sua respiração ofegante. A adrenalina. O suor descendo pela testa. O medo de morrer faz barulho. Curioso. Não é este o mesmo Franz? Aquele que quer se matar? Esta noite? Não me olhe assim. Não minta. Não pode. Eu saberei que é mentira. Antes de verbalizar. Eu saberei. Você quer o suicídio. Ainda não sabe. Mas quer. O que é um paradoxo. Como pode? Quer morrer. Mas está com medo. De que eu o mate. Agora. Nesta lanchonete. Quebre o seu pescoço. Ninguém perceberia. Não podem. Está assustado. Quer viver. Percebe? Percebe? Responda.
– S-sim.
– Você é assim, Franz. Meu velho. Precisa viver mais. Ter boas coisas. Tirar uma boa foto. Escrever boas estrofes. Ter um bom orgasmo. Praticar boa Magia. Para dar valor. À vida, Franz. Senão… precisará de ajuda de Sodoma. Para te tirar tudo. Esmagar sua cara. Para que você perceba. O valor da VIDA. Através do medo.
Ele solta meu pescoço e eu me endireito na cadeira.
– Há café. Em seu rosto.
Eu pego um punhado de guardanapos de papel e seco meu rosto. Olho em volta: o casal lá de fora já foi embora e, no lugar da velha com um lenço na cabeça, está agora sentado um gari, comendo um enorme sanduíche de presunto e queijo. A garçonete traz para Eugene uma lata de Budweiser que eu não me lembro de ele ter pedido.
– Timothy tomou uma decisão. Errada. Você tomará a sua.
– E você, Eugene?
– Não há nada a meu respeito. Eu não morri. Se quiser saber.
Não quero saber a resposta, mas pergunto apenas para provocá-lo:
– O que aconteceu contigo, Eugene?
– Não tive alternativa.
– Você ama o poder.
– Foi o que eu disse. Sem alternativas. Algumas pessoas fazem de tudo. Para continuar jovens. Colecionam miniaturas de “Star Trek”. Jogam AD&D até o centésimo nível. Namoram jovens. Namoram crianças. Guardam diários antigos. Cirurgia plástica. Lembram do útero no conforto do Prozac. Brincam de cowboys com armas de verdade. Jogam futebol no domingo. E algumas se matam. É a imortalidade. O objetivo. Evitar o fim. Tim viverá para sempre. Sempre jovem. Em nossa memória. É uma pena não estar vivo. Para ver que conseguiu.
– Mas e quando não houver mais ninguém para lembrá-lo?
– Eu estarei sempre aqui. Pelo que sei. Mas não sempre jovem.
– Sabe do que estou falando…
– Sim. Pessoas normais. Que vivem. Elas lembrarão também. Seu livro fará isto.
– O que te faz pensar que…
– O futuro é uma avenida. Cheia de transversais. Eu posso ver. O fluxo principal. Seu livro será publicado. Você e Francine se casarão. Nenhum filho. Você é estéril. Ela trabalhará fazendo capas de livros. E você será fotógrafo free-lancer. Helen se divorciará. Mudará de nome. Seus livros de poesia farão sucesso. Seu ex-marido será assassinado. Raymond se casará com uma garçonete. Terá quatro filhos. Freqüentará os AA. Morrerá atropelado. Judith formará uma banda de rock. Cantará. Lançarão três álbuns. Ela tentará carreira solo. Fracassará. Será VJ da MTV. Lim se casará com…
– Cale a porra da boca!!
Ele sorri. Eu gelo. O filho-da-puta sente um prazer enorme em me constranger.
– Você terá uma vida boa. A menos que morra. Hoje. Franz. Não devemos nos ver novamente. E, se acontecer… não será legal. Por isso, tenho um presente.
Ele coloca um punhal prateado em cima da mesa. E um bilhete.
– Se for fazer. Faça direito. Será um de nós. Se quiser. Não é uma vida boa. Mas é eterna. Caso contrário. Use o bilhete. É onde Francine está.
Eu guardo os presentes dentro do casaco.
– Livre-arbítrio. Mais do que eu tive. Feliz Natal.
Ele se levanta e vai embora, levando a Budweiser, mas sem abrir. Descubro que pagou minha conta, inclusive uma xícara de café extra, que bebo sem saborear.

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