Zero-71

Em nossa corrida contra o relógio, esbarramos no Número Dois. Ou ele esbarrou em nós, como prefiro acreditar. Ele estava ali para fechar a porta da Magia para nós e nos devolver ao mundo das pessoas comuns, tal qual um guarda do castelo de Kafka. E ele fez isso não porque gostasse de nós ou fosse um bom samaritano, mas porque tinha que fazer. E, de certa forma, teria sido inevitável. No estágio de fuga alucinada em que estávamos, era só olhar para encontrar um de sua estirpe vigiando nossos passos. Gárgulas negros cegos para tudo mais que não fosse seu trabalho.

Eu estava de ressaca. Francine tinha terminado seu relacionamento com Timothy para se dedicar a mim e ele viera ao meu apartamento, como um bom perdedor, para esvaziar duas garrafas de Johnny Walker da adega (ampla, segundo consta) dos Darkdream. Constrangido, embebedei-me para não encarar a culpa que eu não tinha e sei que acabei falando coisas que não devia sobre a personalidade difícil de Tim. Mas não me lembro das palavras exatas. Quando eu acordei, sentindo o universo desmoronar dentro do meu crânio, Timothy ainda estava bebendo na sala sob a luz do Sol que entrava pelas persianas. Havia uma terceira garrafa de uísque. E o Número Dois também estava lá.

Eu não voltara pensar nele desde o Natal do ano anterior. E, ainda que meu estômago vomitasse que eu estava errado, minha mente insistia em acreditar que ele era apenas um motoqueiro da antiga turma de Eugene. Não conseguia entender o que estava fazendo na minha sala. Ele pediu para eu sentar e eu tive vontade de rir, sua voz sussurrada lembrava Mickey Rourke em “O Selvagem da Motocicleta” e era evidentemente forçada. Mas minha cabeça doía muito para rir e eu apenas me sentei.

Timothy me contou que o Número Dois pertencia a uma casta de criaturas místicas imortais, amaldiçoadas a presenciar atos de degradação pelo resto da eternidade. “Oh, certo”, eu pensei, “e ele está aqui apenas para me ver de porre com a cara amassada e um horrível hálito de morte”. Na hora achei que Timothy estivesse bêbado, levando suas fantasias dark ao limite do delirium tremens, mas, bastava olhar para o Número Dois sentado de braços cruzados e eu me sentia completamente despido, me dissolvendo em lepra. Era uma imagem forte. Havia um poder tremendo por trás do filho-da-puta, puxando suas cordinhas.

Tim contou que eles funcionavam como testemunhas, arquivos ambulantes de ódio, tristeza, devassidão e ressentimento, perambulando de fato em fato através da história sem nunca interferir. Eu perguntei o porquê, mas Tim não soube explicar e o Número Dois fingiu não ouvir. Percebi que ele estava ali a contragosto ou apenas fazendo hora, pra pegar um cinema talvez.

Era isto. O Número Dois, ou como quer que fosse o seu nome, estava indo ao cinema e resolveu passar na casa de Timothy. A mãe de Tim disse que ele estava no meu apartamento e o cara veio para cá. Encontrou Tim embriagado, falando um monte de asneiras sobrenaturais. Exceto pelo detalhe de eu não conseguir imaginar a mãe de Tim abrindo a porta para alguém como ele ou dando o meu endereço. Eu perguntei por que alguém como Número Dois estaria interessado na gente.

Tim explicou que ele e Eugene descobriram a existência dos numerados em uma festa no Sandman, durante o Halloween do ano anterior. E que eles tinham a chave da eterna juventude ou algo assim. Era muita loucura junta pra mim em uma manhã de quinta-feira. Eu perdia aula na faculdade e Tim me falava de vampiros de tragédias.

Levantei-me lentamente, pedi licença e fui tomar um banho quente. Quando voltei pra sala, Timothy estava dormindo com a cabeça na mesa e Número Dois tinha sumido.

Tornei a encontrá-lo na noite em que Tim morreu.

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