A primeira vez que Francine me beijou me causou espanto e até medo por tamanha intensidade, uma vez que eu me havia acostumado com o toque morno e repleto de mensagens cifradas de Lim Iakeda. Lim, que era capaz de me reter em sua teia com o mínimo esforço de sua parte; ela não precisava fazer mais do que suspirar e calar-se e eu já me debatia, enredando-me em veludo e arame farpado.
Tentei compreender suas regras de morde-e-assopra, seu jogo de aparências e frases incompletas, mas não tive sorte. E, em todas as vezes que eu declarei meu amor por ela, o fiz por não suportar mais ser jogado de um lado para o outro da gangorra, querendo provar que tinha mais sentimentos que um boneco do Ken (embora ela fosse a minha Barbie). E ela me negou três vezes. Mas não muito.
Na primeira vez eu estava firmemente resoluto a romper contato se minhas esperanças mergulhassem no vazio. Sabia que, se permanecesse ao lado, seria impossível não escorregar de volta ao começo, sem mesmo ter tempo para respirar, tipo “você não me ama? Tudo bem! Se importa se eu ficar por aí só te olhando, sentindo teu perfume e te amando em silêncio? Diga que sim”, e eu não estava disposto a destruir minha auto-estima batendo minha porta contra a porta. Mas ela disse que não me amava, eu respondi que precisava me afastar, ela chorou pela perda do amigo, eu não resisti e fiquei por perto. Ergui uma muralha bem alta ao meu redor e ficava me supliciando cada vez que ela segurava meu olhar por mais de cinco segundos ou passeava comigo de mãos dadas. Eu me deliciava com as pequenas migalhas emocionais que ela largava pelo seu caminho e nem me dava conta que Barnhard Rémy também ciscava a terra junto comigo. Permaneceria neste estado de servidão adolescente (“Igor, amarre meus sapatos”, “Sim, meeestre”) durante todo o Verão do Amor até o dia que eu completei dezesseis anos e recebi o Beijo.
Na Segunda vez eu estava firmemente resoluto a descobrir o que aquele beijo significava. Francine dizia que eu era um babaca ingênuo quando eu tentava explicar para ela. Então, não irei insistir no assunto. Digamos apenas que foram os trinta dias mais longos de minha vida e que, no final das contas, recebi a mesma resposta que ouvira antes, um pouco mais diplomática desta vez. Eu fiquei mais calmo, afinal éramos pessoas maduras e podíamos ficar nos beijando a toda hora sem que isso implicasse em um contexto maior, certo? E, além do mais, havia Noburu, Barnhard e outros caras que estavam na mesma indefinição que eu e logo não havia motivo para eu me sentir melhor ou pior do que ninguém. Era tipo “ela me beijou e daí? Isso não altera nada! Continuamos amigos, bons amigos”. Coloquei mais alguns tijolos em minha muralha e fui dormir pensando no dia seguinte. Neste meio tempo, ela e Timothy ficaram juntos e todos nós pensamos: é, “a kiss is still a kiss”, toque de novo aquela música, Sam.
Mas eu e Lim também tivemos um tempo para nós dois. A palavra “amor” era proibida e passar uma tarde ao seu lado não significava receber um telefonema mais tarde ou um “oi, Franz” na sala de aula. Eu não queria pressioná-la para que não escapasse por entre meus dedos e assim ia vivendo um quase-romance de quase-beijos e quase-abraços, que, no fim do dia, diante do meu reflexo no espelho, cuspia a covardia em meu rosto e lavava o quase-nada da minha mente. Não tinha forças para romper com tudo ou exigir algo mais. Eu era um viciado e, nesse estado de degradação, joguei minha face novamente contra a porta, disposto não mais a abri-la, mas a arrancar sangue e morrer, tipo “não me ama? Então foda-se você, foda-se eu e todo esse mundo fodido”. Não disse nada do que deveria. Ela sorriu e pronto. Agora havia uma guarita no alto da minha muralha e um guarda de fuzil em punho. Comecei a contar os dias que faltavam para o quarto round (“na próxima vez os dados vão rolar a meu favor, dobrem as apostas, dobrem as apostas!”).
Então veio Melanie, faculdade, Francine e eu ainda acordo de madrugada e penso: e se eu tivesse realmente mais uma chance?

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