Volume 1 – Carta 14

– Um Demônio. A putinha realmente tem muita coragem em trazer o namorado para cá.

O vampiro próximo a Danov tinha um indisfarçável hálito de álcool e insistira em puxar assunto com ele, mantendo uma proximidade que era, no mínimo, desagradável. Seus cabelos ruivos mal penteados estavam esmaecidos e seus olhos eram cinzentos. A roupa não assentava bem em seu corpo, larga nos lugares errados e apertada onde não deveria ser. Tinha uma gravata laranja. O sotaque era russo. Um Rasputin longe de casa, era o mais provável. Havia algo nele que o perturbava, uma antipatia instantânea.

– Como se não bastassem os malditos licantropos largando parasitas por todos os lados. Agora temos Demônios circulando por aí.

– Quem é ele? – perguntou Danov, com impaciência.

– Ninrod. Parece que ela o libertou de uma furada, agora ele a segue que nem um cachorrinho para cima e para baixo. “Oh, mamãe, ele me seguiu desde o Inferno. Posso ficar com ele?” – sua imitação de voz infantil era deplorável.

– Por que você não gosta dele?

– Por que ele é um Demônio, porra! O lugar dele não é aqui. Quem sabe o que ele está arrumando? Ele é uma farsa. Nem mesmo tem aquele rosto. Olha para ele, parece um ator de cinema, certo? Mas não é. Aquilo é um disfarce. Na verdade, ele é horroroso como todos os demônios, tem uns negócios saindo das costas, acho que é para respirar ou algo assim.

– Então, você já o viu?

– Eu dormi com ele se quer mesmo saber. Ele se acha o tal, mas não está com essa bola toda.

– E por isso você o odeia?

– Claro que não. Eu o odeio porque… olha, talvez ele não seja tão ruim assim, se ficar no canto dele e não atrapalhar a gente. O que me incomoda mesmo são estes malditos licantropos. É homem-isto, homem-aquilo, por toda a parte! Ei, você não é aquele escritor? Peter Antonov?

– Danov. Peter Danov.

– Não é você que teve uma tutora Mulher-Tigre?

– Sim. Por quê?

– Porra, cara! Que nojo!

O outro vampiro se afastou alguns centímetros, finalmente respeitando os limites de espaço privado de uma pessoa.

– Guarde seus preconceitos para você, Rasputin.

– Meu nome é Fiodor. Fiodor Rasputin. E não estou falando de preconceitos, estou falando de fatos, meu caro.

A conversa estava durando mais do que Danov poderia desejar. Não conseguia ver uma forma educada de sair pela tangente. Tinha vontade de levantar o outro vampiro pela gravata e arremessar contra a parede mais próxima. Já ouvira aquele monte de lixo racista um milhão de vezes antes e era a última coisa que estava procurando naquela noite. O cheiro de álcool também já começava a embrulhar seu estômago. Fiodor pegou um copo de algo na bandeja de um garçom que passava perto, virou de um único gole e encarou Danov com firmeza.

– Tigres e vampiros são inimigos, Danov. Isso não vem de hoje e não vai terminar agora.

– Está ultrapassando os limites da civilidade, Rasputin. Esta é uma reunião para celebrar a paz e para confraternizar-nos.

– Bobagem. Você e eu sabemos disto. É tudo parte do plano dos licantropos para dominar tudo. Fingir que são nossos aliados. Frequentar nossas festas. Mas na verdade, eles são bichos. Bichos que andam em pé. Nem dão uma boa foda!

– Acho que esta conversa está encerrada.

– “Acho que esta conversa está encerrada…”, guarde esta merda de elegância Kravmore pra você, amigo. Você vai ver! Uma noite destas você vai despertar e ver que sua “querida” babá deixou o povo dela entrar no seu castelo e, quando você se lembrar do que eu disse, já vai ser tarde demais. Uma grande estaca de madeira vai ser enterrada no seu peito elegante! Não espere civilidade deles. São bichos, Danov. Para serem caçados.

– Faça… um favor para sua saúde: não fale mais… comigo!

As presas de Danov saltaram para fora de sua arcada e se estenderam ameaçadoras. Seu olhar transfigurado demonstrava um ódio acumulado de uma vida. Virou-se e se afastou, antes que fizesse alguma coisa da qual iria se arrepender mais tarde. Ainda ouviu a voz repulsiva de Fiodor escorrendo como lama negra se espalhando pelo ar:

– Quer encarar? Acha que eu tenho medo de você, seu filho da mãe? Pode vir, Kravmore. Eu não tenho medo de você e da sua corja de licantropos. Pode trazer todos eles. A Rússia não vai cair, Danov. Estamos atentos. Demônios filhos da puta, todos vocês!

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