O Ás de Paus estava ali.
Estava mais magro, pintara o cabelo, mas não havia a menor dúvida: era ele. Mesmo que tivesse pintado cada pelo do corpo de uma cor diferente, mesmo que engordasse mil quilos, mesmo que trocasse de corpo, Dylan o reconheceria. Aquele olhar arredio e caótico, a inquietude que o impedia de parar de se mexer, mesmo que não saísse do lugar. A tatuagem no braço. Era ele. O Ás de Paus. Um de seus assassinos.
Jennifer nada percebeu e nem poderia. Não o conhecera, não fora torturada por um Homem-Lobo sem mesmo crer em licantropos, não fora caçada pelas madrugadas de Londres como um coelho desesperado, não fora encurralada, erguida do solo por uma pata peluda, mordida no braço e sacudida de um lado para o outro. Não sentira o hálito nauseabundo de lobo, não vira os caninos amarelados dispostos de forma não ordenada se projetando de uma mandíbula sobrenatural. Ela nada podia perceber. Apenas ele. Um dos quatro Ases Negros estava bem ali na mesma festa que ele como se nada tivesse acontecido.
Dylan olhou para os lados, tentando descobrir se alguém o reconhecera. Mas as pessoas estavam mais interessadas no que Pharad estava falando ao microfone: alguma coisa sobre todos serem bem-vindos. Todos. Não era possível ou aceitável que apenas ele reconhecesse o arruaceiro, o assassino de anos atrás. Um arrepio subiu pela espinha. Se os outros Ases Negros também estivessem por ali, Dylan teria que correr para se salvar.
Mas a mulher ao lado do Ás de Paus não era um de seus antigos companheiros. Era uma Carteadora vestindo um capote marrom, mais ou menos de sua altura, cabelos e olhos castanhos. Os Mestres de Dylan na Índia já haviam lhe avisado sobre a sincronicidade e sobre a não existência de coincidências, então aquela mulher não poderia ser outra exceto Josephine Swantson, irmã de Deborah, a fantasma deprimida. Uma Assassina Serial. Era tudo que Dylan precisava saber: seu assassino estava na festa, acompanhado de uma homicida por natureza. Uma combinação perfeita para uma noite estragada.
Caminhou com Jennifer para longe do ângulo de visão do Ás de Paus, antes que o outro pudesse reconhecê-lo também. Deu graças a Deus por não ter mais odor algum, ou fatalmente o maldito licantropo teria identificado o cheiro da ansiedade no ar. Passou por Pharad conversando com o vampiro Danov, contornou um grupo de Anões e foi se refugiar com a esposa ao lado de uma árvore. Tremia incontrolavelmente. E se lembrava.
Era um diretor de teatro sem muitas pretensões fazendo um curso em Londres. Tinha no currículo somente duas peças de pouco público e um monte de scripts seus inacabados. O dinheiro fora gasto nas passagens e, se não fosse pela bolsa de estudos, teria que dormir na rua. Mas não fazia diferença: estava no Velho Mundo, no berço do teatro moderno, e danem-se os gregos! O curso não era grande coisa de qualquer forma, o professor era um ex-diretor decadente mais interessado em bebidas, em alunas e alunos jovens e em falar mal daquilo que se produzia atualmente. Dylan percebeu de cara que não seria em sala de aula que aprenderia alguma coisa.
Mas começou a sair com uma das alunas, uma pós hippie chamada Susan Dullard, de família rica e tradicional. Toda a família tinha sua ovelha desgarrada, ele mesmo era uma prova disto (seu pai queria que ele seguisse carreira militar), entretanto Susan abusava da sorte. Estava envolvida em um culto esotérico que pregava a chegada de um novo milênio de paz e harmonia e era somente uma desculpa para farto consumo de maconha e sexo livre. Dylan Carmichael, apesar de não se achar um conservador, não era muito adepto de nenhuma das duas coisas. Estava naquela por causa dela: uma paixão de verão em uma terra exótica.
Se ser hippie no fim dos anos 70 já era fora de moda, na Londres punk era um atestado de dinossauro. Susan e seu grupo não se importavam com o que os outros diziam ou faziam e escutavam Jimi Hendrix e Janis Joplin o dia inteiro, enquanto o que fervilhava nas lojas e nos clubinhos sujos eram Pistols e Clash e o que Dylan escutava quando voltava para seu quarto-sala alugado era o bom e velho rei Elvis Presley. Não tinha muito futuro aquela história toda e ele sabia disto. Estava curtindo, era melhor do que as aulas e a cantadas do velho professor. Quando voltasse para Los Angeles teria um certificado de curso feito na Inglaterra para esfregar na cara dos produtores e tchau pra Susan. Eles não precisavam saber da verdade e até lá, talvez ela já estivesse com outro cara para ouvir Joan Baez e dividir o baseado.
As coisas ficaram sérias antes do fim do curso. O chefe dos hippies, um traficante sobrevivente do LSD que sabia onde conseguir erva mais barato, tinha esbarrado no Mundo Ausente. Mais especificamente falando, ele tinha sido recrutado pelo Ás de Espadas, Igor Kerevski. Um vampiro russo com ligações com a KGB que assombrava o submundo londrino naquela época junto com os outros Ases Negros. Ninguém sabia direito do que o Ás de Espadas estava atrás, mas, se fizessem um levantamento daqueles anos, descobririam uma rede obscura de seitas manipuladas, drogas, prostituição, chantagem e tráfico de artefatos místicos. Para Dylan, Kerevski era mais um coroa de roupa esquisita querendo carne nova e a história poderia acabar aqui, com Dylan diplomado dirigindo peças famosas. Mas Kerevski não queria nenhuma das outras garotas fáceis do grupo. Ele queria Susan.
“Tudo bem, pode levar”, Dylan teria dito se tivesse chance. Mas Susan não pensava da mesma forma e dizia para quem quisesse ouvir que era a mulher de Dylan. Fez bem para o ego enquanto durou, (o que não passou de uma semana) tempo insuficiente para que ele arranjasse uma forma de dizer educadamente para ela que a relação chegara ao fim. Igor Kerevski soltou seus Ases Negros atrás do estudante americano em uma desnecessária demonstração de poder e crueldade.
Dylan fora perseguido de madrugada por um lobisomem ao sair do apartamento de Susan. A criatura, o Ás de Paus, brincou de gato e rato com ele durante horas. A todo momento ele poderia ter dado o bote final, mas sempre evitava no último segundo, empurrando um desesperado Dylan Carmichael pelos labirintos intermináveis de uma Londres insensível aos seus gritos. Foi encurralado em um beco e, enfim, atacado. O monstro o deixou sangrando, mas não o matou. Esperou pelos outros.
Não demorou muito e os Ases Negros estavam completos. Uma mulher, a Ás de Copas, invadiu sua mente e arrancou memórias, sensações e ideias, um estupro telepático cujas sequelas ele não teve tempo para conhecer. Ele viu pesadelos indescritíveis passarem diante de seus olhos no intervalo de segundos. Longos segundos. Havia um Anão também, o Ás de Ouros, mas este nada fez a não ser olhá-lo de forma carrancuda e atacar as latas de lixo com um machado que era maior do que ele mesmo. Cada golpe que uma lata recebia poderia ter sido destinado a ele: este era o recado.
Dylan sangrava da mordida do lobisomem e só conseguia pensar: “será que eu vou me transformar em um lobisomem?”. Estava prestes a morrer, mas não parava de pensar em filmes baratos de terror. Depois descobriria que não precisava ter medo disto, mas aí já estava morto mesmo.
Kerevski foi o último. Era chamado de Ás de Espadas, porque era o responsável pela destruição e pelo caos. E assim foi. Trazia consigo Susan Dullard completamente dominada. A princípio, Dylan achou que ela estivesse drogada, mas na verdade o vampiro estava exercendo sobre ela algum tipo de controle mágico. Ela fitava o fundo do beco, sem nada enxergar. Kerevski exibiu seus dentes à luz do luar e se aproximou do pescoço dela como um animal sedento. Dylan ainda gritou, gritou para que ele a deixasse em paz, que ela não tinha nada a ver com nada daquilo, que era ele que o vampiro queria, mas não adiantou. O sangue jorrou da ferida dela e Kerevski bebeu um pouco, mas apenas um pouco. Deixou ela cair lentamente em direção ao chão com o pescoço aberto esguichando vermelho para todos os lados. Susan teve espasmos fortes enquanto seu corpo tentava se rebelar contra a mente que o traía, mas foi inútil. Susan, nem ninguém, fez nada para estancar a hemorragia e minutos depois ela estava morta.
Dylan tinha duas alternativas agora: chorar e implorar por misericórdia. Ou enfrentar o horror e morrer tentando. Se levantou com dificuldades, segurando uma garrafa quebrada na mão e avançou. Não chegou a dar dois passos e foi derrubado pelo Ás de Paus. A próxima sensação que teve foi a do vampiro erguendo-o do solo sem sequer tocá-lo. Flutuou como um balão sem prumo diante de Kerevski e teve que ouvir toda aquela ladainha sobre ter desafiado a vontade das pessoas erradas, se interposto nos planos de uma criatura superior. Não estava mais escutando, é claro, sua audição se encolhera para dentro do cérebro onde tudo que ele representava agora apenas aguardava, em choque, o desfecho final.
Foi neste momento que Kerevski fez o impossível: arrancou sua alma e a jogou na Esfera da Morte, transformando-o em um fantasma involuntário aprisionado em um dos oito planos astrais para onde os Carteadores vão quando duelam. Sua última visão, desta vez para baixo, foi a do lobisomem desfigurando seu corpo com satisfação.
O mesmo lobisomem que estava ali agora, conversando e tomando champanhe.
– Há muito ódio e medo em seu coração, amigo. Você deveria buscar uma forma de encontrar a Paz Interior.
A voz, vinda de trás dele, quase o fez dar um salto. Era a voz de um homem alto e forte, segurando um cajado de madeira e vestindo roupas eclesiásticas. Seus cabelos eram cinzentos e ele muito provavelmente estava se aproximando da casa dos sessenta anos.
– Pelo que eu vejo, os ingleses não tem mais a menor noção de privacidade – respondeu Dylan, entre irritado e sobressaltado.
– Dylan!! – brigou Jennifer. – Desculpe-nos, senhor. Meu marido gosta de ser engraçadinho algumas vezes…
– Não estou ofendido, minha senhora. Na verdade, eu, de fato, devo desculpas por me aproximar sem ser convidado. Sou Nicholas Smith e lamento o ocorrido.
– Nicholas Smith? Dylan, ele é um dos iniciados do convite!
Jennifer estava prestando mais atenção nos rituais da festa do que ele mesmo. Dylan ensaiou um novo começo. Estava se atrapalhando demais nas apresentações até agora.
– Prazer em conhecê-lo. Desculpe se fui rude, descontei no senhor acontecimentos de outras… pessoas. Sou Dylan Carmichael e esta é minha esposa, Jennifer Long.
– Jennifer Long, a atriz? Estou encantado. Não tenho o hábito de ir aos cinemas, mas ainda assim é uma honra.
– Atrizes são sempre mais famosas do que diretores… – resmungou Dylan.
– Não seja chato, querido. – ela brincou. – Diga-me, senhor Smith, o senhor é o quê?
– Pode me chamar de Nicholas. Mas, perdão, não entendi a pergunta.
– O senhor é o quê? Vampiro, lobisomem, Elfo?
– Bem, eu não sabia que tinha que ser alguma coisa para estar aqui. Não sou inglês, para começar. Sou sargento do exército dos Estados Unidos. Corpo médico. Reformado, no momento.
– Sargento? Só isto?
– Bem, sou Santo também. Mas isto são os outros que dizem. Eu apenas tento fazer o melhor com os dons que me foram concedidos.
– Um Santo? De verdade? Quer dizer, você cura os doentes, faz milagres, este tipo de coisa?
– Na medida do possível. E dou conselhos. Quando querem ouvir.
– Você disse que eu estava com muito ódio e medo no coração… – insistiu Dylan.
– Sim.
– Gostaria de conversar com o senhor sobre isto.
– Duele comigo no ritual e conversaremos.
– É uma proposta estranha. Por isto eu aceito.
– Nos veremos daqui a pouco, então. Senhora, com licença.
Nicholas Smith se afastou de volta para o meio das árvores, deixando Dylan intrigado sobre o que mais aquele jardim estava escondendo. Mas, de algum jeito, de coração mais leve.

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