Volume 1 – Carta 22

Benjamim O´Brien havia lhe ensinado tudo sobre esta história de Baralho, Fonte, Morte e Aniquilação. Sem ele, Swantson estaria perdido. Ou outro teria lhe contado tudo, não dava para ter certeza. Swantson não tivera cerimoniazinha de iniciação, velas acesas, incenso, um bando de gente duelando ao redor dela nem nenhuma destas frescuras. Lembrava apenas dos comprimidos de tranquilizantes, dos enfermeiros batendo nela três vezes na semana, dos vômitos, das outras loucas, das paredes sujas, das grades, das tentativas de abuso. Não podia contar para seu psiquiatra que um baralho surgira do nada dentro de seu quarto, um baralho de cartas místicas que não era feito de plástico, de papel cartonado nem de nada conhecido. Eram cartas feitas dela, de sua energia espiritual capturada e tornada palpável. Eram quentes ao toque e desapareciam em uma nuvem brilhante que ninguém mais via. E só. Chegou a implorar por aumentarem a dosagem dos remédios: não queria ficar acordada para sentir aquilo pulsando dentro de sua alma. Mas nos sonhos via o Inferno.

O´Brien lhe explicara que aquelas cartas, o Baralho, não vinham dela, de fato, mas se alimentavam de suas forças para existir. O Baralho vinha da Fonte, na falta de um nome melhor, uma força cósmica indecifrável que atravessava universos e fornecia recursos para que determinados indivíduos a acessassem. Aquilo lhe lembrava Guerra nas Estrelas e aquele papo de Jedi. O´Brien riu e ficou sem graça: na verdade, após séculos de estudo não se chegara a conclusão alguma sobre a Fonte. Alguns diziam que ela era Deus, outros diziam que estava acima de Deus e outros defendiam que a Fonte era independente, uma espécie de força arbitrária da existência, um fenômeno científico como outro qualquer, como o eletromagnetismo, como a eletricidade, como o mana. “Mana?”, Swantson se lembra de ter perguntado. E o falso psiquiatra esclareceu que mana era uma unidade de medida de energia mística que estava presente na atmosfera em pequenas quantidades e no interior do corpo anímico dos seres vivos em quantidades maiores, era utilizada para produzir efeitos físicos ou não físicos na realidade. Magia.

Havia uma estreita relação entre as cartas do Baralho e o Mana. Se convencionara que o número marcado na carta representaria a quantidade de Mana presente e esta carta poderia ser utilizada para realizar feitiços que exigissem aquela quantidade de energia para serem executados. Quanto maior o número, maior o poder contido.

Carteadores eram diferentes de outros seres sobrenaturais, eram temidos por seus poderes e pelo Baralho. Um mago que pertencesse ao carteado tinha acesso a muito mais Mana do que aquele que não tinha: o Baralho era um manancial mágico que exigia muito pouco de seu dono.

E havia também a possibilidade de ressurreição, é claro. Era a parte preferida de Swantson, ela mesmo já tivera que se valer deste recurso uma vez. Vinte e quatro horas de escuridão e silêncio, mas lá estava ela pronto para outra, revigorada (e muito puta). Cada Carteador tinha um número determinado máximo de cartas que podia manifestar simultaneamente, era sua Sequência. Com o tempo e com a prática, poderia ter a sorte de aumentar a Sequência. Morrendo, este número diminuía; era o preço de voltar dos mortos. Um Carteador que zerasse sua Sequência estava frito: sua próxima morte seria definitiva. Ou até que uma alma caridosa muito, muito poderosa decidisse te trazer de volta com um feitiço, mas O´Brien lhe falou que este tipo de procedimento era muito complicado e raro. Então era melhor não ficar sem cartas ou ser uma boa menina.

Não era uma alteração da realidade que aqueles Carteadores estavam fazendo agora. Era um Duelo mesmo, a forma definitiva de confronto. Swantson havia descoberto isso antes mesmo de se tornar uma assassina serial. Dois Carteadores ao se enfrentar terminavam suas desavenças em uma das Dez Esferas Espirituais que se situavam sabe-se lá onde. Embora fossem apenas dez, as Esferas ofereciam infinitos aspectos diferentes, paisagens bizarras, características emprestadas de mundos alienígenas que só poderiam ser identificadas por aqueles treinados para tal.

Nesse plano astral aleatório, as almas dos Carteadores lutavam, usando apenas as cartas e o poder nelas contido. Não havia espaço para armas, truques ou feitiços. Era espírito contra espírito em um combate que tinha três formas de terminar: Duelo, Morte ou Aniquilação. Duelo era um tipo de acordo entre cavalheiros: a luta terminava sem que nenhum dos oponentes ficasse ferido de verdade, todos os danos desapareciam. Servia para provar um ponto de vista, uma posição política ou como forma de humilhação. Uma das três regras sagradas da Fonte dizia que o resultado de um Duelo tinha que ser respeitado, sem revanchismo e sem discussão. Morte implicava, é óbvio, na morte do perdedor. Vinte e quatro horas depois ele ressuscitaria, mas aí o vencedor já tinha provado quem era o melhor mesmo. E morrer, Swantson lembrava, era uma merda incômoda. Aniquilação era o pior dos destinos, o mais temido e o menos praticado. Aniquilação significava o fim, definitivo, irrevogável. Mesmo tendo uma Sequência alta, mesmo tendo amigos em altos círculos, dinheiro, poder, o segredo do Universo, não tinha escapatória: o Carteador que fosse aniquilado era riscado da existência, sua alma destruída para sempre, deixando para trás um corpo inerte e vazio. Sem ressurreição, sem segunda chamada. Nada. A Aniquilação também causava uma redução de uma carta na Sequência do vencedor responsável pelo processo. Fora a mancha na reputação: ninguém gostava de ser apontado pelos outros como um aniquilador, era um crime não documentado na Sociedade do Carteado e sempre tinha alguém disposto a vingar a vítima.

Os duelistas entravam na luta sem saber como iria terminar. A decisão tinha que ser tomada antes do confronto começar, mas era um segredo entre o Carteador e a Fonte. No final de tudo, a pior decisão prevalecia. Traições eram comuns entre gente que se odiava: subiam para uma Esfera Espiritual achando que tudo não passaria de um Duelo, mas por dentro… muita gente boa subiu querendo só duelar e terminou aniquilada.

Carteadores eram uma raça com a qual Swantson não se dava muito bem. Preferia resolver tudo no cano de uma arma, olho no olho, do que trocar cartas em uma dimensão exótica. Mas aquela era sua noite de sorte: estava liberada da brincadeira. Sendo uma serial killer, estava impossibilitada de escolher Duelo. Subir com ela era garantia de morte, dela ou do oponente: quem seria, ia depender do que tivessem na mão. No seu atual estado de espírito, não seria má ideia matar alguém. A Matriarca, talvez. Ou No Future.

Mas seus “sócios” tinham outros planos para aquele momento. Iam aproveitar que todos estavam concentrados nos Duelos para entrar na casa.

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