– Não entendo o porquê do motorista. Eu sei dirigir.
Alekssandri estava perturbado e se contorcia no banco traseiro da limusine. Separado por uma divisória, o chofer contratado, um Carniçal impecavelmente uniformizado, nada escutava. Desde que saíram do castelo, com o pôr-do-sol, era a primeira vez que Alekssandri falava algo. Até então estava imerso em seus próprios e sombrios pensamentos. As rodovias se sucediam em meio a vastos espaços vazios de campinas. Imóvel antes, agora ele se movimentava como se sua posição, antes confortável, se transformasse na mais incômoda e insolúvel de todo o carro.
Chinoko sentava-se em frente a ele e examinava seu ex-pupilo com a mesma condescendência de muitos anos. Mas em seu interior ela estava ansiando pela festa. Queria respirar um pouco de ar diferente daquele respirado pelos vampiros e seus carniçais. Talvez até encontrar alguém de sua raça. Seria a primeira vez em dois longos anos. Não que fosse mal-agradecida. A hospitalidade dos Kravmore, ainda que a contragosto, era agradável. Tinha muito mais luxos a sua disposição do que jamais conheceria em sua pequena vila na China. E tinha liberdade suficiente para não ser incomodada. Podia tomar banho de sol à vontade nos jardins do castelo, sem risco de ser importunada. Mesmo os carniçais evitavam a luz do sol quando possível.
– Aprendi a dirigir em Amsterdã. E tenho uma carteira para provar isto.
– Sua carteira é falsa, Alekssandri.
– Não existem provas de admissão noturnas, se você não sabe. O importante é que eu sei dirigir. Não preciso de um chofer para me levar aos lugares.
– Não é a opinião de seu avô.
– É difícil para ele esquecer meus erros do passado. Entender que eu não tenho mais vinte anos.
– Você destruiu dois carros em seis meses. E isto foi no ano passado.
– Mas eu sei dirigir…
– Pelo menos vamos chegar em grande estilo. Como convém a uma festa deste porte. Vamos mudar de assunto, por favor.
Chinoko encomendara um vestido especificamente para aquela noite. Quando necessário, não havia limites para a fortuna da Casa Kravmore. Ela viajara duas vezes até Londres apenas para fazer a encomenda. Poderia ser confundida com uma embaixadora da China na Inglaterra. Não tinha permissão para usar as joias ou o símbolo da Casa, mas isto não a impedia de usar-lhes o dinheiro. Era seu único consolo para os olhares atravessados e o quase permanente silêncio a que era submetida.
– Sinceramente, eu prefiro você sem estes óculos escuros. Vestida de preto e de óculos escuros vão pensar que você é a vampira do carro.
– Eu não vou tirar. Conforme-se.
– Os óculos não disfarçam. Você acha que esconde a cicatriz, mas não esconde. Até destaca, eu diria.
– Problema meu.
– Vamos mudar de assunto, então.
Alekssandri trajava Armani. Não porque preferisse. Não se preocupava com questões de guarda-roupa. O fato de não poder se aproximar de um espelho sem correr risco de vida contribuía para sua falta de vaidade. Se sentiria melhor se estivesse usando apenas jeans, camisa de malha e um grande sobretudo cinza. Mas o avô dissera que ele estaria representando a família na cerimônia e insistira em uma boa apresentação. Subitamente, o patriarca tornara-se interessado no evento. Como se tivesse descoberto alguma coisa a respeito. Como se tivesse despertado de uma longa letargia. A grandiosidade Kravmore estava ali. No carro de luxo. Nas roupas. Na espada repousada ao seu lado no banco. Alekssandri trazia consigo um broche com o brasão da Casa e uma dúvida: seria tudo aquilo para impressionar um parente perdido? Seria possível que Kira fosse sua irmã?
– Obrigada por me trazer. Eu estava precisando.
– Já imaginava. Às vezes eu também me sinto sufocado lá dentro.
– Isto vindo de alguém que nem precisa respirar é espantoso…
– Fico feliz em saber que seu senso de humor nunca morre.
– Como você.
– Eu posso morrer. De várias formas. Algumas permanentes.
Desde que Alekssandri descobrira sua história aos doze anos, a maioria de suas conversas eram assim. Breves. Terminando em amargura. Aquele “pequeno filhote” alegre que ela precisava correr atrás pelos jardins da propriedade se tornara de uma única vez um vampiro clássico, melancólico e pensativo. Pensativo até demais, diriam seus primos e primas.
– Não vamos falar de morte, Alekssandri.
– Danov. Na festa eu quero ser chamado de Peter Danov.
– Seu pseudônimo.
– As pessoas vão me conhecer mais pelos livros que eu escrevi do que pela minha filiação.
– Está pretendendo dar autógrafos ou algo assim, Danov?
– Não é o tipo de público que pede autógrafo. Será uma cerimônia de iniciação. Uma festa de Carteadores.
– Não houve festa quando você foi iniciado. Seu avô chamou aquele instrutor de Bombaim e isto foi tudo.
– Não é um hábito dos Kravmore.
– Percebi. Já notou que seu avô prefere o sangue agora? Ele não come mais nada, Alekssandri.
– Ele está se afastando. De todos nós.
Ele suspirou e olhou para a espada embainhada ao seu lado, como se todas as respostas pudessem se esconder ali. E nada mais disse. Até que o motorista diminuísse a marcha, próximo de Sutterville Dream.

seja o primeiro a comentar